Estrelas variáveis

Posted Outubro 23, 2009 by devir
Categories: Uncategorized

Em Astronomia, damos o nome de “estrelas variáveis” a alguns tipos específicos de estrelas cujo brilho varia consideravelmente num intervalo inferior a cem anos. As razões desta variabilidade são muitas, destacando as seguintes:

Estrelas variáveis pulsantes apresentam variabilidade em decorrência da pulsação de sua camada superficial. Tais pulsações modulam sua luminosidade, desencadeando variações periódicas em escalas de tempo que variam de minutos a até mesmo séculos. Um exemplo é a estrela Delta Cephei. É importante não confundir as variáveis pulsantes com pulsares – são coisas diferentes!

Estrelas variáveis rotacionais apresentam distribuição superficial de brilho não-uniforme. A variabilidade decorre da rotação axial da estrela em relação ao observador. A distribuição não-uniforme pode ser desencadeada por vários fatores, tais quais a presença de manchas ou mesmo pela falta de uniformidade termoquímica na estrela.

Estrelas variáveis eruptivas apresentam variabilidade em decorrência de erupções que ocorrem na cromosfera estelar. As mudanças de luminosidade, neste caso, são acompanhadas da ejeção de matéria na forma de vento estelar. Um exemplo muito “famoso” é a estrela Eta Carinae.

Estrelas variáveis eclipsantes apresentam variabilidade por conta de fatores externos à estrela. A variabilidade pode ser decorrente de um eclipse, e tal eclipse pode ser desencadeado por uma estrela próxima que forme um sistema binário ou mesmo por uma superterra, que oblitere periodicamente o brilho de sua estrela-mãe. Algol é uma estrela variável eclipsante.

Fontes de Raios-X são sistemas binários estelares em que um dos componentes é uma estrela compacta quente (exemplos: anãs brancas, buracos negros ou estrelas de nêutrons) que são fontes emissoras de raios-X.

Estrelas variáveis cataclísmicas são sistemas compostos por uma estrela próxima da sequência principal (ou seja, uma estrela cujo raio é parecido com o do nosso Sol), uma anã branca e um disco de acréscimo. A interação entre tais elementos desencadeia explosões constantes que fazem a nossa percepção do brilho variar.

Pensando a ciência – parte 2 – Internet não é revolução científica!

Posted Setembro 15, 2009 by devir
Categories: Ciência, filosofia

Por conta do post de ontem, recebi alguns e-mails pedindo que eu explicasse melhor as razões de não podermos classificar a internet como uma revolução científica. De fato, no último post eu apenas introduzi a questão e não entrei no mérito de explicar o que, afinal, é uma revolução científica. Esta questão exige maior aprofundamento, mas não vejo por que não abordar a questão da internet com certa antecedência.

Vale salientar que não existe apenas uma grande revolução científica, nem existe uma que possamos chamar de “maior”. Só que revolução científica é totalmente diferente de progresso científico. A internet é um progresso científico, um progresso tecnológico, mas não é uma revolução científica. Poderíamos até dizer que a internet desencadeou uma revolução social, o que é bem diferente de falarmos em revoluções da ciência.

Você poderá dizer que a internet desencadeou grande mudança em sua vida. Ela mudou drasticamente a minha vida também, talvez até mais do que a de muitos de vocês – lembrem que eu sou uma pessoa idosa de quase 40 anos, que venho de um mundo em que não existia nada parecido com a internet. Até 1996, eu tinha um estilo de vida e passei a ter outro totalmente novo por causa das possibilidades ampliadas de comunicação e informação que os computadores e as redes virtuais forneceram. Mas o fato de a internet causar revoluções nas vidas das pessoas não significa que ela seja uma revolução científica, e sim que ela é um agente de revoluções sociais, pessoais.

Revolução científica, conforme é compreendido não só pelos filósofos da ciência como pelos próprios cientistas-não-filósofos, representa uma notável mudança na estrutura da própria ciência. A internet não causou mudanças na estrutura da ciência. Ela na verdade resulta da aplicação de modelos científicos já vigentes. Ela, a internet, é o resultado de um substancial progresso da técnica, mas progresso não é sinônimo de revolução. O fato de a internet ajudar a divulgar a ciência não é uma revolução científica, é apenas um avanço das comunicações.

Dito de outra maneira: tudo o que a internet oferece já havia no mundo. As pessoas se comunicavam a longas distâncias, recebiam informações de lugares longinquos etc. O que mudou foi a forma e a velocidade como essas coisas passaram a ser feitas. Ou seja: um progresso tecnológico que desencadeou uma revolução relacional. Mas não uma revolução científica.

Revoluções científicas envolvem quebras de paradigmas, modificações radicais na forma de ver o mundo. A revolução copernicana é um exemplo de revolução científica: pensava-se que a Terra era o centro do Universo, e eis que de repente, não mais que de repente, fomos reduzidos a um mero mundo dentre tantos outros orbitando o verdadeiro centro, uma estrela chamada “Sol”. O darwinismo é outra revolução científica, assim como a mecânica quântica. Uma possível grande revolução científica se dará nos próximos vinte anos, quando provavelmente demonstraremos que existe vida bacteriológica em Titã, Europa ou Encéladus, mudando o paradigma vigente que diz que a vida é algo raríssimo. Astrobiólogos apostam numa hipótese contrária: a atividade biológica é abundante no Universo. A vida inteligente, esta sim, é rara.

Por fim, devo lembrar que a única diferença substancial entre você ler o que eu escrevo neste blog e ter visto a propaganda dele no Orkut ou no Twitter é uma diferença de acessibilidade e de velocidade. Antes de 1997 você poderia ler o que eu escrevo, comprando uma revista, um jornal ou recebendo uma carta. Não há revolução científica contida em processos de “maior velocidade” ou “maior acessibilidade”. O que há, aqui, é um progresso referente a coisas que já existiam. Por mais mágico que possa parecer, por mais dinâmico e mais incrível que tudo isso se apresente, nada disso é uma “revolução científica”.

Literatura recomendada – “A Estrutura das Revoluções Científicas” – Thomas Kuhn, ed. Perspectiva.

Pensando a ciência – parte 1 – Indutivismo

Posted Setembro 15, 2009 by devir
Categories: Astronomia, Ciência, astrologia, filosofia

Motivado por algumas conversas que entabulei ao longo dos últimos dias com pessoas variadas de diferentes áreas, resolvi organizar meus pensamentos com o intuito de expor algumas considerações a respeito da problemática da ciência. O que vou escrever é fruto de estudos comparativos realizados a partir das obras de Chalmers, Feyerabend e Kuhn. Não deixa de ser também uma rememoração de minhas aulas de Filosofia da Ciência, quando eu era aluno da professora Sônia Dion (ela mesma uma física).

Creio que na verdade o que mais me motivou a passar os próximos dias escrevendo sobre este assunto veio de um choque que tive meses atrás quando, numa aula de Cálculo, o professor questionou aos mais de 90 alunos presentes qual era a última revolução científica de que eles se recordavam. Note-se que estamos falando dentro do contexto de uma universidade do nível da USP, que em tese reúne a nata dos bons estudantes do Brasil. Reunidos numa mesma sala estavam alunos de Astronomia, Geofísica e Meteorologia. O resultado foi o seguinte: mais, muito mais do que a metade da sala respondeu que a última grande revolução científica foi… a internet!

Seria engraçado, se não fosse trágico. A descrição desta cena serve a um propósito: demonstrar que a massiva maioria das pessoas (mesmo aquelas que estão num curso de ciências) não faz a menor, a mais vaga idéia do que são, afinal de contas, coisas como a própria ciência ou uma revolução científica. Num curso de ciências, tal noção é imprescindível. Mas mesmo para pessoas que não se encontram cursando áreas científicas, saber algumas coisas é importante até para que seja possível pensar com mais clareza e critério. Ao longo dos próximos posts, procurarei explicar por quê a internet não é uma revolução científica, e se isso lhe parece esquisito – já que a internet mudou sua vida, eu sei – garanto que é fácil de entender, mas tudo a seu tempo!

CIÊNCIA: UMA PALAVRA DE PODER COMO RECURSO RETÓRICO

Você, que está lendo este post, já deve ter percebido o quanto os termos “ciência” e “científico” possuem enorme peso no discurso geral. Reportagens usam e abusam destes termos. Religiões buscam persistentemente inserir estas duas palavrinhas mágicas em suas interpretações sobre a vida. Até mesmo áreas alternativas procuram alguma forma de validação científica. Encontraremos o termo “ciência” sendo utilizado em atividades tais quais a “ciência mortuária”, “ciências econômicas”, “ciências humanas” e, fora do contexto acadêmico, teremos também as “ciências ocultas”. A própria Astrologia, por exemplo, costuma ser um conhecimento que muitos dos seus praticantes costumam considerar “diferenciado” de outros oráculos porque, em tese, seria um conhecimento “científico” – diferente do Tarot, ou do jogo de búzios, só pra citar dois exemplos. Ao longo de vários posts, procurarei abordar a questão da “ciência” sob diversos prismas e, justamente por ser um assunto muito amplo, não caberia num único post.

Não tenho nenhum problema em dizer que, conforme observo, o termo “ciência” não passa – na maioria das vezes, com algumas exceções – de um recurso retórico que tem por objetivo emprestar autoridade a alguma coisa. Quando alguém diz que “a reencarnação é um fato científico” ou que “está provado cientificamente que o tomate faz bem para a próstata”, questiono eu: será que é assim mesmo? Para os descrentes na reencarnação, pode parecer um absurdo comparar a idéia de que as almas mudam de corpo com os estudos envolvendo os benefícios prostáticos desencadeados pelo tomate, mas o ponto que me interessa aqui não é definir se uma coisa é “mais científica” do que outra. O que me chama a atenção é o uso abusivo de termos tais quais “fato científico” e, no caso dos tomates, da afirmação “está provado cientificamente”. Será que tais afirmações procedem? O que é a ciência, afinal de contas? Poderia ela ser mais do que uma palavra da moda? Se sim, a ciência tem limites ou revela alguma verdade absoluta que a Filosofia sempre procurou e nunca conseguiu encontrar?

INDUTIVISMO – A CIÊNCIA DERIVADA DA EXPERIÊNCIA

Mesmo que você não seja fera em matemática, muito provavelmente você sabe que o número 1, se elevado ao quadrado, é igual a 1. E que se elevarmos 1 à potência de 8, ainda assim o resultado será 1. E quanto é 1 elevado à octagésima-nona potência? Não precisa usar a calculadora, a resposta é 1! Bem, você não vai ficar surpreso se eu disser que 1 elevado a um milhão, oitocentos e dezessete mil, quatrocentos e nove é igual a… 1! Temos então, por indução, que o número 1, se elevado a qualquer outro número, será sempre 1. Eis uma verdade incontestável (pelo menos por enquanto!).

Desenhe trinta triângulos diferentes, e você perceberá que a soma de seus ângulos internos será sempre igual a 180 graus. Desenhe mil triângulos, oito milhões de triângulos, e você jamais, sob hipótese alguma, encontrará algum cuja soma dos ângulos internos seja menor ou maior do que 180 graus. Temos outra verdade absoluta, ainda que seja possível falarmos em triângulos que fogem a esta regra se sairmos da geometria euclidiana. Mas dentro dos parâmetros da geometria euclidiana é impossível falarmos em triângulos com 4 lados, por exemplo, ou com ângulos internos que, somados, tenham 420 graus.

O raciocínio indutivo, portanto, é perfeitamente aplicável à matemática. A matemática é uma ciência exata. E é a única ciência que merece este epíteto.

“Como assim?”, você pode perguntar. “E a Física? E a Astronomia? E a Geofísica? Que eu saiba, pertencem ao ramo das ciências exatas!”.

Pois é, você está certo, pertencem, e quem lida com Física ou Astronomia tem que usar muito cálculo, aplicar muita matemática. Mesmo assim, nem a Física e nem a Astronomia são ciências exatas, de modo que a inserção destes saberes como “ciência exata” é muito mais um lance político do que algo real. A matemática é caso único, conforme já expliquei. A Física e a Astronomia são ciências naturais, ciências observacionais ou empíricas, mas não possuem o grau de verdade absoluta que encontramos na matemática. Entra aqui um importante aparte: não é porque um saber se vale da matemática que podemos dizê-lo exato. Note-se que alguns pretendem que a Astrologia seja “mais científica” do que jogar runas ou Tarot porque a Astrologia utiliza cálculos matemáticos precisos. Aqui, temos uma enorme confusão entre instrumento e objeto de estudo. Tanto para a Física quanto para a Astronomia ou mesmo para a Astrologia, a matemática é um recurso, é um instrumento, não é objeto de estudo. O objeto de estudo da Física e da Astronomia é a natureza, e o da Astrologia é o comportamento humano e, para muitos, a previsão do futuro.

E antes que os céticos entrem em trabalho de parto pelo fato de no último parágrafo eu ter juntado Astronomia, Física e Astrologia no mesmo balaio, peço que lembrem que o texto ainda não chegou ao seu final… E há muitos posts pela frente, ao longo dos próximos dias!

Voltemos à questão do indutivismo. Conforme abordei, o indutivismo é perfeitamente aplicável na matemática. Ele também se aplica às ciências naturais (e às humanas, às biológicas), mas com um grau muito maior de limitação. O indutivismo matemático pode usar e abusar do termo “todos” e da frase “está provado que”. Qualquer outra ciência que não seja a matemática não pode fazer o mesmo e, se o fizer, será delírio e pretensão.

O indutivismo limitado que utilizamos na Física e na Astronomia nos é suficiente, mas incorre na utilização do termo “muitos” (ao contrário de “todos”) e “até o momento, sabe-se que” (ao invés de “está provado que”). Nós sabemos, por exemplo, que organismos vivos são baseados em carbono, mas não podemos dizer que “todos” os organismos vivos são baseados em carbono, simplesmente porque… não conhecemos todos os organismos vivos! Isso é meio óbvio, mas tem gente que esquece!

No indutivismo aplicado à natureza, às relações humanas e a qualquer coisa que não seja matemática, começamos com observações e, a partir de observações, organizamos modelos e fazemos afirmações. Eis algumas afirmações como exemplo:

Astrônomo diz: planetas se movem como elipses em torno de suas estrelas.

Astrólogo diz: se Júpiter estiver dignificado no Meio do Céu e formando aspectos harmoniosos, o indivíduo será alçado à fama.

Médico diz: pessoas que fumam muito estão muito mais sujeitas a desenvolverem câncer no pulmão.

Físico diz: um corpo, uma vez posto em movimento, manterá eternamente seu movimento a não ser que seja interrompido pela ação de outro corpo.

Chef de cozinha diz: feijoada é um prato indigesto se ingerido logo antes de dormir.

Matemático diz: os ângulos internos de um triângulo euclidiano, se somados, resultarão em 180 graus.

A vovó diz: leite com manga faz mal!

O indutivista se pauta na “observação em grande número”. E é aqui que a porca torce o rabo! Vejamos o caso dos astrônomos: eles viram todos os planetas que existem no Universo? Não, né? E quanto aos astrólogos? A afirmação de que Júpiter num estado X torna as pessoas famosas se pauta em quantas pessoas observadas? E mesmo que fossem milhões de pessoas observadas, seria prudente afirmar que todas as pessoas se tornariam famosas em suas áreas? Quem garante? Médicos não podem afirmar que todo fumante desenvolverá câncer pulmonar. E entramos no terreno da Física que, não tendo o conhecimento eterno (ninguém viveu eternamente pra saber, e o tempo ainda não acabou), pode apenas supor que, muito provavelmente, a segunda lei de Newton é uma lei. Mas pode ser que não seja. Pode ser que a segunda lei seja assim:

“Todo objeto, uma vez posto em movimento, manterá seu movimento – se não for interrompido por outro corpo – por noventa bilhões de anos e então, subitamente, se desintegrará.”

Poderemos encontrar pessoas que não sofrem de indigestão ao comer feijoada antes de dormir (Hommer Simpson pode ser um bom exemplo), e a vovó pode estar simplesmente errada, afinal ela provavelmente nem observou de fato se leite com manga faz mal, e está simplesmente a repetir o que ouviu da avó de sua avó. Dentre todas as afirmações acima elencadas, a única que está indubitavelmente certa, absolutamente correta e impossível de ser contradita é a afirmação do matemático.

Chegamos então à essência da proposta indutivista: a partir da observação em grande número, estabelecer uma verdade geral. E é aqui que temos um problema sério: como podemos justificar verdades absolutas a partir de evidências limitadas, obtidas a partir de um número limitado de observações? A resposta é simples: não podemos, pois “observação de um grande número” não significa “observação de tudo”. Mesmo assim, o fazemos. E não há problema algum em fazê-lo, contanto que aquele que pretende que seu saber seja “científico” pelo método indutivo tenha senso suficiente de limite para saber que está falando acerca de uma verdade válida, uma verdade provável, até mesmo uma verdade muito provável. Mas exata? Indubitável? Absoluta? Nem em sonho! O indutivismo só funciona perfeitamente para a matemática porque a matemática utiliza conceitos apriorísticos. Todas as outras ciências e saberes se valem de conhecimentos a posteriori.

Até certo ponto da história da humanidade, conhecíamos apenas cisnes brancos. Para todos os lados que os naturalistas olhassem, encontrariam apenas cisnes de cor branca. Uma verdade então foi estabelecida: “todos os cisnes são brancos”. Mas um bom cientista, tendo noção de suas limitações, teria dito melhor: “até onde foi observado, todos os cisnes são brancos”. Este cientista teria sido mais feliz, uma vez que, após a descoberta da Oceania, constatou-se que existem, sim, cisnes negros.

Se a lógica indutiva é possível para todos os ramos do conhecimento, então todos os ramos do conhecimento poderiam ser considerados “ciência”. Até porque, note-se que o indutivista jamais estabelece o que significa “observação em grande número”, tal exigência é por demais subjetiva. Quando um tarólogo joga cartas e diz que “sempre que o Arcano 16 surge, grande desapontamento advirá”, ele está fazendo uma afirmação que se fundamenta em sua própria experiência observacional. Se ele observou isso trinta vezes ou duas mil, ou mesmo um milhão de vezes, qual o número adequado para dizermos que algo é “verdade”? Ninguém define isso, afinal! E é por isso que quase nenhum cientista oficial considera que é a lógica indutiva que torna algo “científico”. Quando chegarmos nos textos sobre falsificacionismo, isso ficará mais claro.

A questão indutivista não se encerra aqui. O indutivismo tem subvariantes: sua versão “ingênua” e sua versão “tosca”. No próximo post, abordarei algumas versões “toscas”, nascidas especificamente de algumas interpretações da Psicologia e da Astrologia, até para que você que porventura é psicólogo ou astrólogo tome cuidado para não decair na versão tosca do indutivismo. Físicos em geral não incorrem na versão tosca, mas ainda assim são vítimas do indutivismo ingênuo.

Até lá! Muito provavelmente escreverei mais sobre isso, mas como eu não sou um conceito matemático não posso afirmar com 100% de certeza.

A moral política segundo Maquiavel – parte 2

Posted Setembro 3, 2009 by devir
Categories: Maquiavel, filosofia, política

Avaliando as estatísticas do blog, dei-me conta de que o post mais acessado é, disparado, um post bem sucinto e antigo que escrevi quando ainda era estudante de Filosofia, sobre a moral política em Maquiavel. Na época, eu usava o blog meio como rascunho das minhas redações, e postava tudo apenas para alguns colegas lerem. Deste modo, o que eu escrevi antes é o resumo do resumo da extensa e profunda obra de Nicolau Maquiavel.

Como se trata de um post muito acessado, resolvi escrever mais sobre o assunto. Acho que o tema está bombando em decorrência das irritações do povo com a política.

Vamos lá:

Em O Príncipe, Maquiavel insiste [particularmente no capítulo XV] que a utilidade e o poder de convencimento de seus escritos encontram-se no fato de ele procurar “a verdade efetiva das coisas” e não ater-se em modelos ideais de política.

A ação política, conforme sustenta Maquiavel em sua obra, demanda inicialmente considerar que a moral seguida pelo cidadão em sua vida privada não é necessariamente a mesma que o homem público deve seguir ao administrar um Estado, pois o que a realidade efetiva demonstra é que se um dito governante seguir um modelo ideal de comportamento pautado numa moral a priori, encontrará fatalmente a sua derrocada por ter se congelado num ideal moral não-adaptável às circunstâncias. Se Maquiavel se refere à moral cristã como algo que inviabiliza a eficácia do governante, não é porque se trata da moral cristã, e sim pelo fato de se tratar de um congelamento do governante em qualquer modelo moral. Porque do mesmo modo, por exemplo, se um governante seguir um modelo moral em que o que importa é a crueldade e a tirania, fracassará tanto quanto um outro que porventura se fixasse na idéia de ser compassivo e bondoso. A ação política, assim sendo, é como uma constante dança de vários passos e vários estilos, em que o governante parte dos fatos para elaborar seu comportamento, evitando apegar-se a um modelo teórico como sendo seu norteador. Entretanto, vale salientar que a ação política, pelo menos na época de Maquiavel, demandava que o governante ao menos aparentasse seguir um modelo moral cristão e virtuoso (“virtuoso” num sentido cristão pois a virtù para Maquiavel é outra coisa, conforme sustentaremos na quarta questão deste exame), pois a aparência é importante na ação política.

A ação política visa a estabilidade do Estado e, por isso, deve se valer do que for necessário para garantir esta meta, segundo Maquiavel. Para isso, o príncipe deve ser ao mesmo tempo amado e temido, pois, se for apenas amado, não será respeitado; e, se for apenas temido, gerará ressentimento na população. A arte da política é, portanto, a arte de estar atento às oportunidades e constitui tolice submeter as práticas do Estado às normas que regem e sustentam a moral individual.

Quando Maquiavel sustenta a necessidade da eventual ação cruel no ato político, ele também pondera que tal crueldade deve ser sempre justificada, e jamais norteada por interesses pessoais. Toda ação política deve estar concentrada na estabilidade do Estado. Quando popularmente se diz que “os fins justificam os meios”, atribuindo-se esta fala a Maquiavel como sendo a síntese do ato político segundo este autor, cometemos um equívoco interpretativo, pois retiramos a frase de seu contexto e, ainda por cima, nos valemos de um excerto da frase que, em seu sentido original e completo, afirma que os tais “fins” são a estabilidade do Estado. Não é, deste modo, qualquer “fim”, e sim um fim específico: o governo. A ação política, portanto, é aquela que age no interesse do Estado, e não no interesse de um sujeito.A frase correta seria, portanto, os fins justificam os meios em prol do bem maior. Se no atual cenário alguns políticos acham que os fins justificam os meios em prol do bem deles próprios, é porque lhes faltou um mínimo de entendimento de que agir assim, quando se é uma pessoa pública, é o caminho mais rápido para a autodestruição.

É através do método da investigação empírica que Maquiavel desenvolve suas teorias a respeito da verdade efetiva da vida política. No que tange a tal processo investigativo, Maquiavel assume metaforicamente as qualidades de um camaleão, mimetizando-se em diferentes contextos de realidade com a finalidade de compreender melhor as coisas públicas: durante o período vespertino, jogava cartas com as pessoas simples da cidade; à noite, vestia-se finamente para melhor conviver com pessoas ilustres, de classes mais abastadas. Poderíamos definir as atitudes de Maquiavel como um aude sapere, ou “ousar provar”, no sentido de que “sabor” e “saber” são termos correlatos: para saber, é preciso provar, experimentar o sabor. Trata-se de um “saber com gosto de carne e sangue”, parafraseando o filósofo romeno Emile Cioran, para definir um conhecimento que se estabelece sorvendo da vida até sua última gota, bebendo de seu doce e de seu amargo e, assim, evitando-se seqüestrar pelo teórico, pelo abstrato ou pelo ideal. Mas o autor de “O Príncipe” vai muito além do simples ato de se misturar a diferentes níveis de realidade em sua própria cultura: a metodologia maquiavélica prima pela capacidade de, ao invés de se submeter a uma prisão umbilical que o levaria a abordar as coisas a partir do seu particular contexto de realidade espacial-temporal, romper com isso, projetando-se para outras culturas e outras épocas, com a finalidade de buscar exemplos históricos que lhe permitiram compreender uma verdade efetiva (eventualmente dura, mas real), em contraponto a uma verdade afetiva – sempre bela, todavia infuncional para a vida pública. Neste sentido, é interessante observar que um dos mais revolucionários atos da metodologia de Maquiavel foi o fato dele ter se aberto ao estrangeiro, no sentido de ousar ir além dos limites de sua própria cultura, a fim de melhor compreender a ciência política. Tais exemplos históricos e multiculturais explorados por Maquiavel ao longo dos capítulos de “O Príncipe” demonstram que há verdades efetivas para a vida política, e que tais verdades não se pautam em modelos ideais de comportamento, mas numa moral que nem sempre é cristã, ainda que, para funcionar, precise parecer cristã, ao menos para o contexto no qual ele, o autor, viveu (similar ao que vivemos, num sentido de ainda estabelecermos a moral cristã como “correta”). A verdade efetiva das coisas na política, segundo Maquiavel, elaborada a partir das investigações dos fatos, demonstra o quanto a política é uma ciência autônoma e independente de sistemas éticos fechados. Ao contrário: a política, para ser funcional, precisa ser um sistema sempre aberto, que considera atitudes a partir das conveniências de um dado momento. Todos os pressupostos maquiavélicos, portanto, são fatos históricos e exemplos práticos, permitindo-lhe retirar a verdade da observação dos fatos, e não de um pressuposto teórico. Estes pressupostos maquiavélicos demonstram, não apenas através dos exemplos de sucessos dos estadistas, mas também e principalmente dos exemplos dos fracassos, que a história humana se repete e que é tolice ignorar tal verdade.

Num próximo post, tentarei explicar dois conceitos básicos da obra de Maquiavel: virtù e fortuna.

O que é a vida, afinal?

Posted Setembro 1, 2009 by devir
Categories: Astrobiologia, Astronomia

Pretender definir de forma realista o que é a vida nos apresenta à tentação ingênua de considerar esta como sendo uma questão cuja resposta é óbvia, sobretudo se nos limitarmos a definições de dicionário, ou pior, a definições simplistas fornecidas por alguns livros de biologia. Encaremos os fatos: nenhum cientista sabe apontar exatamente o que a vida é ou, melhor dizendo, qual a diferença efetiva entre um dito “sistema vivo” e um “sistema não-vivo”. É possível discordar disso e argumentar que nós sabemos intuitivamente se algo é vivo ou não, mas consistiria ingenuidade crassa se nos detivéssemos na observação limitada e confundente dos nossos sentidos, que mal sabem distinguir entre uma pedra e sapo mimetizado. Na prática, todas as definições aplicadas ao conceito “vida” nos servem num âmbito local, pragmático, mas não podemos garantir que tais definições sejam válidas num contexto cósmico.

Considerar, conforme aprendemos no colegial, que “ser vivo” é “todo ser que nasce, cresce, reproduz e morre”, seria preguiça intelectual. Afinal, nem todo ser vivo é capaz de se reproduzir [asnos são estéreis, assim como algumas pessoas e animais e, não obstante isso, são seres vivos]. Por outro lado, é irônico constatar que cristais e fogo podem se reproduzir e não são considerados, stricto sensu, como “seres vivos”.

Chamamos os processamentos químicos e a liberação de energia de “metabolismo”. Mas há seres vivos que passam longos ciclos de tempo com suas funções metabólicas completamente suspensas [algumas bactérias, por exemplo], e então de repente voltam aos usuais processamentos químicos.

Poderíamos assumir como bem fundamentada a idéia de que a distinção entre algo vivo e algo inorgânico reside no fato de que algo inorgânico é imensamente previsível, se comparado a algo orgânico. Se atirarmos uma pedra para cima, poderemos determinar onde e quando ela cairá, mas a mesma previsão não pode ser feita se tentarmos realizá-la até mesmo num organismo simples como uma ameba. Simplesmente não podemos ter certeza de para onde uma ameba decidirá ir. Ou seja, a vida seria a afirmação daquilo que Schopenhauer chamava de “vontade” ou “ímpeto”. Mas ainda que assumamos tal definição como sendo correta, teremos de considerar que determinados programas computacionais capazes de gerar padrões fractais aleatórios são, portanto, vivos!

Ou seja: não há absolutamente nenhuma definição simples que permita distinguir algo vivo de algo não-vivo. Até mesmo cientistas de orientação totalmente materialista e negadores das teorias do vitalismo são tácitos em afirmar que não existe uma linha divisória nítida entre sistemas vivos e não-vivos. Não existe um “algo” vivo, e sim uma série de processos desconhecidos que permitem que algo seja vivo. Termina sendo tentador apostar nas teorias vitalistas clássicas, que pregam a impossibilidade de determinar a vida apenas a partir de processos físico-químicos. Haveria, então, uma “alma” ou algo incorpóreo a animar as coisas vivas? Esta é uma possibilidade, e ainda que aparentemente seja pouco “científica”, vale aqui lembrar que o terreno da ciência não é o terreno da negação. Mais interessante ainda é considerar que a alma exista, mas não como algo “descolado” da matéria, e sim como uma conseqüência natural da própria matéria. Pode ser que esta dita “energia que anima” os corpos ditos vivos seja a emergência de complexidade, uma espécie de “situação-cúmulo” que surge espontaneamente – como uma lei física – a partir de relações e organizações especiais. Neste sentido, a vida seria uma autopoiesis, definição que implica numa radical mudança de perspectiva epistemológica. Seria inútil, numa perspectiva autopoiética, analisar as partes em busca da “coisa em si” que revela a vida. Ela, a vida, só poderia ser compreendida como uma rede relacional. Mas se admitirmos a vida como uma grande teia autopoiética, não seria possível então afirmar que o Universo é, inteiro ele, um super-ser vivo? Tal perspectiva demandaria uma radical mudança de paradigma para a ciência.

Não existe, portanto, uma definição científica aceitável para “o que é a vida”. Num sentido local, terrestre, até poderíamos assumir que sim. Mas num contexto cósmico, as coisas ficam mais complicadas. Há teóricos que consideram que as estrelas são vivas, afinal elas nascem, crescem, geram planetas, morrem, apresentam metabolismo. A vida insiste em ser mais do que uma definição científica: ela ainda é, para nós humanos, um problema filosófico.

Astronomia na USP – grade curricular provisória

Posted Agosto 31, 2009 by devir
Categories: Astronomia

Na qualidade de representante de sala do curso de Astronomia da USP, tenho sido procurado por muitas pessoas que pretendem seguir o bacharelado nesta área, questionando o por quê de o conteúdo programático do curso de Astronomia ainda não estar disponível no site da USP.

Acontece que o curso é novo, nasceu em 2009, e a grade curricular ainda está sujeita a avaliações e modificações. De toda maneira, já existe um conteúdo programático que provavelmente será seguido, com algumas pequenas alterações aqui e ali. Este post que ora escrevo tem por finalidade expor a grade do curso, para os interessados. Vale aqui salientar meu posicionamento sobre a grade curricular: o curso foi originalmente criado com a intenção de durar 4 anos. Eu acho este tempo muito curto. Na prática, ou você não faz mais nada da vida e se interna na USP para tentar terminar o curso em 4 anos, ou entende que “na real” seu curso durará de 5 a 6 anos.

Segue abaixo o conteúdo programático. Meu e-mail para dúvidas: alexey@mensa.org.br

Semestre 1:

Física da Terra e do Universo [é a matéria mais "astronômica" que temos no começo]
Cálculo Diferencial e Integral 1
Vetores e Geometria
Laboratório de Física Experimental 1

Semestre 2:

Astronomia: uma visão geral do universo [telescópios, cosmologia, formação de estrelas e planetas etc]
Cálculo Diferencial e Integral 2
Algébra Linear
Laboratório de Física Experimental 2
Física 1

Semestre 3:

Cálculo Diferencial e Integral 3
Física 2 – Termodinâmica
Matemática Aplicada à Computação
Planetas e Sistemas Planetários

Semestre 4:

Física 3 – Eletromagnetismo
Cálculo Diferencial e Integral 4
Astrofísica Nuclear
Métodos Numéricos em Astronomia
Laboratório de Física Experimental 3

Semestre 5:

Física 4 – Ondas e fótons
Laboratório de Física Experimental 4
Física Matemática 1
Iniciação à Pesquisa 1

Semestre 6:

Física 5 – Estrutura da Matéria
Introdução à Mecânica Analítica
Laboratório de Física Experimental 5
Mecânica Quântica 1
Iniciação à Pesquisa 2

Semestre 7:

Eletromagnetismo
Fenômenos de Transporte
Iniciação à Pesquisa 3

Semestre 8:

Análise de Dados em Astronomia
Astronomia Extragaláctica
Relatividade
Iniciação à Pesquisa 4

Além das matérias acima elencadas, há também as eletivas. Você TEM que fazer um número mínimo de eletivas, mas escolhe quando. Algumas destas eletivas exigem que você tenha cursado algumas matérias obrigatórias [caso de "Astronomia de Posição", por exemplo]; outras não exigem matérias obrigatórias previamente cursadas [caso de "A Vida no Contexto Cósmico" - Astrobiologia].

Astronomia de Posição
Mecânica Celeste Básica
Introdução à Cosmologia
Astronomia Galáctica
Laboratório de Astronomia
Métodos Observacionais em Astronomia
Astrofísica de Altas Energias
A Vida no contexto cósmico [astrobiologia]

E há também matérias totalmente livres [você faz SE quiser, e algumas contam pontos, mas outras não].

Jornalismo Científico é um exemplo. Você pode cursar matérias até em Filosofia, como – por exemplo – Filosofia da Ciência [que eu, especialmente, considero fundamental].

Após ver isso, se você tiver realmente interesse em cursar Astronomia na USP, entendendo que a Astronomia é mais do que uma “coisa bonita” e que envolve estudos em matérias áridas, seja bem vindo. As turmas são pequenas [quinze alunos por ano, até o momento], o que permite estreitar os laços de relacionamento. Ou seja: de quebra, você ainda ganha alguns bons amigos.

Uma sólida base em matemática e física é fundamental, mas eu diria que mais fundamental do que isso é a dedicação e a disciplina. Eu, por exemplo, venho de Humanas e nunca fui um grande expert em exatas, mas estou conseguindo me sair bem, considerando que me dispus a aprender.

Para novidades e notícias sobre Astronomia no twitter, siga-nos: www.twitter.com/astronomiausp

Caso necessite de outras informações, escreva para alexey@mensa.org.br

Será um prazer ajudar!

A SOLITÁRIA MATEMÁTICA DO DRAGÃO

Posted Agosto 19, 2009 by devir
Categories: Astrobiologia, Astronomia

Um dos principais interesses dos aficcionados por Astronomia é o famoso projeto SETI, cuja existência se deve ao desejo humano de encontrar vida inteligente fora do planeta Terra. Até o presente momento não fomos bem sucedidos em tal empreitada, muito embora o fato de nenhuma civilização muito evoluída falar conosco possa ser a demonstração de que eles são mesmo inteligentes. Cinismos à parte, não estou aqui para falar do projeto SETI, e sim de um dos seus fundadores, o astrofísico norte-americano Frank Drake.

Em 1961, Drake propôs uma equação matemática cujo propósito era o de fornecer uma estimativa do número de civilizações inteligentes em nossa galáxia, a Via Láctea. A equação é a seguinte:

N = R* X fp X ne X fl X fi X fc X L

Uma vez que meu objetivo aqui é explicar esta equação, tentarei ser o mais coloquial possível, já que este não é um blog para astrofísicos, e sim para o entendimento geral.

N é o número de civilizações extraterrenas com as quais poderíamos nos comunicar, já que estas civilizações já teriam chegado a um estágio tecnológico que permitiria um bate-papo, ou pelo menos um sinal de identificação. Algo como um “olá, estamos aqui”, ainda que codificado na forma de números primos, ou qualquer outra coisa que não pudesse ser atribuída a um fenômeno absolutamente natural.

R* é a taxa de formação de estrelas em nossa galáxia.

fp é a fração destas estrelas que possui planetas em órbita.

Ne é o número de planetas que permitiria potencialmente a formação da vida.

fl é o número de planetas que efetivamente desenvolveria a vida.

fi seria o número de planetas que atualmente possui vida.

fc é o número de planetas com vida inteligente capaz de desenvolver tecnologia que permita a comunicação extraplanetária. Note um ponto importante, aqui: não bastaria ser um mundo povoado por seres inteligentes, e sim um mundo povoado por seres cuja tecnologia já avançou até um determinado ponto. Até muito pouco tempo atrás, a humanidade nem sabia que a Terra era redonda, então nós não estaríamos contidos nesta etapa da equação. Nossa inserção nesta etapa é relativamente recente.

L é o tempo de duração desta possível civilização.

O que norteia esta equação a ponto de torná-la plausível e não apenas ficção? Simples: a idéia de que a probabilidade coletiva é o produto de probabilidades individuais. Assim sendo, a probabilidade da existência de civilizações extraterrestres inteligentes depende diretamente da taxa de formação de estrelas, ou seja, quanto mais estrelas se formarem, tanto melhor. Mas nem toda estrela tem planetas em órbita, e nem todo planeta apresenta condições propícias à vida.

Este é o problema maior presente na Equação de Drake: ela só apresenta alguma precisão pautada em dados empíricos nos dois primeiros elementos da equação. Temos tecnologia capaz de identificar em média quantas estrelas se formam na Via Láctea. Até podemos aventar quantas estrelas têm planetas em órbita. O restante da equação vai no chute mesmo, e os valores atribuídos serão maiores ou menores a depender do otimismo ou do pessimismo daquele que calcular. Conforme Carl Sagan sempre apontava em suas conferências, a incerteza desta equação aumenta progressivamente da esquerda para a direita. Tomemos o elemento da extrema direta, “L”, que se refere ao tempo de vida de uma possível civilização. Quem sabe algo sobre isso? Uma civilização pode existir por 400 ou 4 mil anos, tornar-se altamente tecnológica e se destruir… ou não!

Voltemo-nos, portanto, para a parte da equação que é menos imprecisa: a taxa R* de formação de estrelas. Nós temos condições de saber que existem por volta de 100 bilhões de estrelas na Via Láctea. Como o tempo de existência da galáxia é de 10 bilhões de anos, uma estimativa média bem modesta da taxa de formação estelar é de dez estrelas por ano. Isso mesmo! A cada ano, dez novas estrelas surgem na Via Láctea, e nenhuma dessas estrelas felizmente é a Susana Vieira ou a Xuxa. Nem toda estrela terá planetas a orbitar em torno dela, mas o número de estrelas com sistemas planetários é altíssimo. Na pior das hipóteses, apenas a metade das estrelas têm planetas em torno de si – e esta é a pior das hipóteses. O número provável é bem maior. Temos, então, um valor para R* e um valor para fp:

R* = 10

Fp = a metade (valor pessimista)

Vamos agora partir pro lado complicado da equação: como diabos podemos saber quantos dos planetas possíveis são corpos “tipo-Terra”? Pior ainda: como saber quantos destes planetas similares à Terra desenvolveram vida? A coisa beira o desespero se tentarmos estimar quantos planetas com vida se desenvolveram tecnologicamente e qual o tempo médio de vida desta civilização. Qualquer atribuição de valor que fizermos será meramente antropocêntrica, e é tão demonstrável quanto as fadas de Yorkshire ou o monstro do lago Ness. Os números aventados se darão a partir de analogias feitas com o nosso próprio planeta, a Terra, e isso seria o que David Hume chamaria de “analogia fraca”, uma vez que a Terra é o único exemplo que dispomos de planeta com vida inteligente. É um tanto periclitante criarmos analogias plausíveis a partir da existência de um único elemento.

Você poderia então dizer que a Equação de Drake é completamente inútil já que os valores finais são meio que “chutados”, porém na verdade ela é bem interessante se atribuirmos valores pessimistas a ela. Sobre o tempo de vida de uma civilização tecnológica (o fator “L” da equação), Carl Sagan aponta para o fato de que só temos radiotelescópios há algumas poucas dezenas de anos.  Qualquer pessoa que leia jornais percebe que nossa sociedade corre vários riscos. Sendo direto: existem várias coisas que poderiam nos extinguir (inclusive nós mesmos). Se considerarmos como “tecnológica” a nossa própria civilização num sentido de “tecnológica a ponto de ser capaz de se destruir”, podemos considerar uns 500 anos.  O que, convenhamos, é um número chutadíssimo. Quem garante que não existiremos por mais 500, 1000, 2000 anos, se aprendermos a usar nossa inteligência de forma mais saudável, ecológica e menos destrutiva, dermos as mãos e sairmos cantando “We Are the World” por vales primaveris? Mas tudo bem, eu vou aventar a possibilidade mais desagradável e considerar que há 500 anos temos armas e que iremos nos destruir em dez anos, regredindo à barbárie total.

Não irei torrar a paciência de ninguém com números, mas vou me ater a um ponto: aplicando hipóteses pessimistas à Equação de Drake, Carl Sagan chega ao número de UMA e apenas UMA civilização tecnológica em toda a galáxia. Que horror, somos nós! Sozinhos na galáxia. Note que ainda assim a hipótese pessimista tem um lado fascinante: existem cerca de 500 milhões de outras galáxias no Universo observável. Se a Equação de Drake funcionar pro pior lado, ainda assim teremos uma civilização para cada galáxia, o que dá um resultado final de 500 milhões de civilizações alienígenas (o que ainda é um número baixo, se considerarmos que a Via Láctea não é uma grande produtora de estrelas e podem existir galáxias que produzem muito mais do que dez estrelas ao ano), entretanto distantes demais umas das outras. Ou seja: a hipótese pessimista ainda assim nos oferece a perspectiva notável de quase meio bilhão de civilizações extraterrestres! O problemão é que estas civilizações estariam tão, mas tão distantes de nós, que um contato seria de uma dificuldade maior do que possamos sequer conceber.

Na hipótese otimista, existiriam 10 milhões de civilizações tecnológicas na Via Láctea, número que eu pessoalmente acho um tanto quanto exagerado simplesmente porque não sou um otimista. E há otimismos e otimismos! 10 milhões de civilizações tecnológicas é o otimismo supermegaplus do astrônomo Carl Sagan. Meu professor de Astrobiologia, Amâncio Friaça, admite como “hipótese otimista” o número de 100 civilizações apenas. O fato é: ainda que a hipótese otimista faça sentido, ninguém ainda comprovadamente falou conosco. Não, eu não irei entrar aqui em teorias conspiratórias que dizem que o governo oculta contatos com alienígenas, não irei considerar contatos telepáticos (que podem ter várias outras explicações, como fenômenos psicológicos e parapsicológicos) e irei ignorar supinamente o loiro, alto e de olhos azuis Ashtar Sheran, príncipe-mor de uma quase-religião esquisotérica. Estou considerando que assumidamente, transparentemente nenhuma civilização E.T. fala conosco. Este silêncio pode ter vários significados: inexistência, desinteresse, política do “não perturbe”, decida você o que acha mais plausível. Como eu disse o tempo todo, é possível enfiar vários valores possíveis nos fatores à direita na Equação de Drake. Até o momento, podemos ter certeza que a hipótese pessimista funciona: confirmadamente, há uma civilização tecnológica na Via Láctea. Pelo menos uma civilização inteligente (peró no mucho): somos nós. Não se deprima, ainda podemos melhorar! Não sou tão pessimista assim.

Semeando Filosofia – Evento aberto ao público

Posted Agosto 9, 2009 by devir
Categories: Uncategorized

O projeto “Semeando Filosofia” é uma iniciativa de ex-alunos do tradicional curso de Filosofia da Universidade São Judas Tadeu. Cada palestra expõe os resultados dos trabalhos de pesquisa como condição fundamental para a conclusão do curso de Bacharel em Filosofia. Entrada franca! Ocorrerá no auditório da Livraria Cultura, no Shopping Bourbon, nos dias 29 e 30 de agosto [respectivamente, sábado e domingo].

Ao final do evento, teremos uma palestra de encerramento com a participação das professoras Sônia Dion (USJT) e Glória Muñoz (PUC-SP).

Confira abaixo a programação. Divulgue, apareça e leve seus amigos!

INSCRIÇÕES PRÉVIAS NÃO SÃO NECESSÁRIAS.

PROGRAMAÇÃO – 29 de agosto [sábado]

14h45m – ABERTURA – Apresentação do evento “Semeando Filosofia” – Alexey Dodsworth e Alessandra Batista.

15h – ENTRE KUHN E FEYERABEND, O DESAFIO DE EXPLICAR A MUDANÇA CIENTÍFICA
Palestrante: Rita Foelker

15h40m – O TOLERÁVEL E O INTOLERÁVEL EM PAUL RICOEUR
Palestrante: Felicidade Muñoz

16h20m – O PROBLEMA DA NATUREZA INTRÍNSECA DOS FENÔMENOS MENTAIS – OS DEBATES ENTRE NAGEL E RORTY
Palestrante: Pablo de Araújo Batista

17h -  FÍSICA DE NEWTON E DEUS: UMA CONCILIAÇÃO POSSÍVEL?
Palestrante: Marcus Vinicius Russo Loures

17h40m – O TEMPO EM MERLEAU-PONTY
Palestrante: Clio Francesca Tricarico

18h20m – FILOSOFIA E LITERATURA: UMA REFLEXÃO ACERCA DA OBRA DE PIRANDELLO
Palestrante: Jean Gaspar

19h – COMO ENCARAR A MORTE ATRAVÉS DA FILOSOFIA DE PLATÃO
Palestrante: Tarcísio Oliveira

PROGRAMAÇÃO – 30 de agosto [domingo]

15h – CAMINHOS DE PENSAMENTO EM HEIDEGGER – ÉTICA E TÉCNICA MODERNA
Palestrante: Roberto Rocha

15h40m – CONHECIMENTO METAFÍSICO EM SCHOPENHAUER
Palestrante: Rodrigo Braga Alonso

16h20m -  HUME E A POSSIBILIDADE DA CRÍTICA DO GOSTO
Palestrante: Eleni Carvalho

17h – DIDEROT E A VIRTUDE SEM DEUS
Palestrante: Wellington Martins

17h40m – SOBRE A EXISTÊNCIA DE DEUS – ARGUMENTOS E CONTRA-ARGUMENTOS, SEGUNDO DAVID HUME
Palestrante: Alexey Dodsworth

18h20m – O QUE SIGNIFICA EFETUAR UMA LEITURA FILOSÓFICA DE OBRAS CLÁSSICAS?
Palestrantes: Yolanda Glória Muñoz (PUC-SP) e Sônia Dion (USJT).

MILITÂNCIA E ATIVISMO – A problemática homossexual em Foucault, Deleuze e Veyne

Posted Novembro 6, 2007 by devir
Categories: Deleuze, Foucault, Guatarri, Homossexual, Homossexualidade, Veyne, filosofia

INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem por objetivo estabelecer uma série de desconstruções acerca da assim chamada “militância gay”, navegando pelos cenários de outras problemáticas homossexuais, a partir da análise de reportagens correlatas à luz dos olhares de Michel Foucault, Gilles Deleuze e Paul Veyne.

Consideramos, dadas as claras interseções entre estes pensadores, mais frutífero elaborar um texto cujas letras navegam de um pensador para o outro, ao invés de estabelecer uma divisão dos olhares.

Serão consideradas duas notícias específicas: uma sobre um crime de homofobia e outra sobre a ação de organizações gay-militantes. A primeira reportagem, sobre homofobia de fato, serve como contraste para a segunda, onde a mesma acusação criminosa é levantada por grupos militantes, a partir de atos totalmente diferentes. Consideramos necessária a apresentação das duas reportagens, ao invés de apenas uma, justamente pela implicação do contraste que uma causa na outra, e é através deste contraste que nossas considerações encontrarão mais nitidez diante dos três olhares evocados.

ANEXO – REPORTAGENS

REPORTAGEM 1: CRIME DE HOMOFOBIA

Reportagem retirada do site www.uol.mixbrasil.com.br, datada de 23 de março de 2007.

“Tudo indica que pelo menos um dos agressores de Alessandro Araújo está em prisão provisória.

Nesse dia 23 de março, o Mix foi chamado a uma coletiva com a delegada Margarette Barreto, no DECRADI – Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância. O chamado foi uma espécie de prestação de contas da polícia com a comunidade GLBT, que está irritada com os ataques que ocorrem cada vez mais e ficam cada vez mais violentos.
Segundo a delegada, um amigo da vítima
Alessandro Araújo, professor universitário que foi brutalmente espancado, reconheceu através de fotos de um banco de dados de suspeitos, um dos agressores. Através desse agressor, que tudo indica ser o líder da gangue auto-intitulada Devastação Punk, a polícia foi levada a mais quatro pessoas, todos maiores de idade, entre eles uma mulher de 26 anos. Vale lembrar que dentre os agressores de Alessandro, havia duas mulheres.”

REPORTAGEM 2: ENXURRADA DE DENÚNCIAS

Reportagem retirada do site www.uol.mixbrasil.com.br, datada de 29 de julho de 2005.

“Quem acompanha o movimento GLBT no Brasil percebe que há uma série de processos ou ameaças de entrar na Justiça contra os mais diversos agentes sociais. De Maurício de Souza a Hebe Camargo, passando pelas novelas “A Lua Me Disse” e “América”, por supostas agressões à comunidade GLBT.

É o caso do autor de novelas Miguel Falabella, que em “A Lua me disse” incluiu dois personagens caricatos. Luiz Mott, do Grupo Gay da Bahia, conta que morreu de vergonha quando a família de seu namorado assistia à novela e “apareceram as bichas velhas, desmunhecando, fazendo tiranias e baixarias”. “Essa é a imagem que o povo tem da gente, e lutamos para que nos vejam como somos, homens que gostam de homens e não malucas desvairadas caricatas”. Acusado de “fundamentalista”, por querer processar o autor de televisão, Mott responde perguntando: “Defender nossa dignidade é fundamentalismo GLBT?”

(…) A fofíssima Hebe Camargo também está sendo alvo de grupos que querem processá-la porque, em um programa do SBT, ela disse que todo bissexual é mentiroso. A declaração foi contextualizada em uma discussão na qual questionava-se se seria possível desejar, indistintamente, homens e mulheres. Essa dúvida está presente também entre vários membros da comunidade GLBT, mas os militantes afirmam que uma pessoa pública como Hebe Camargo tem de vigiar o que diz.”

IDENTIDADE GAY e os preconceitos que cerceiam a tolerância
Para Foucault e Deleuze, a subserviência aos modelos preestabelecidos pelos próprios homossexuais são obstáculos para a pluralidade

Nesta época de luta pelos direitos dos homossexuais, em que tantas conquistas se fazem notar, a ponto dos preconceitos serem considerados antiquados e muitos atestarem uma evolução no que tange ao olhar da sociedade em relação aos gays, cabe uma pergunta delicada: vencidos os embates externos (contra preconceituosos, homofóbicos e dogmáticos), o que dizer então dos inimigos internos? A luta dos homossexuais seria apenas contra entidades “lá fora”? Conquistaram os militantes uma assim dita “identidade gay”? Muitas opiniões sobre este assunto são possíveis. E o que nos diriam estes que são dois dos mais importantes filósofos franceses da pós-modernidade: Michel Foucault e Gilles Deleuze?

A partir das perspectivas assimiladas ao longo da obra foucaultianodeleuziana, podemos também dizer, conforme explica o antropólogo Felipe Areda, que ninguém “nasce” homem, mas sim que todos nos tornamos homens, numa busca constante. A dita virilidade masculina representa o investimento numa rede relacional: busca- se o reconhecimento da masculinidade. Esta virilidade é uma ética, uma constante inquietude de si. Ao contrário do que pregam alguns militantes gays, o sexo não nasce feito. Nem mesmo “nasce-se gay”, na medida em que a singularidade homossexual, como toda e qualquer singularidade humana, demanda contínua construção, desconstrução, reconstrução. Não se trata, portanto, de lutar por uma identidade no sentido de “ser idêntico a”, ou seja, “seguir um modelo pré-estabelecido”. O pensamento de Foucault e Deleuze opõe-se à idéia de seguir modelos, sejam eles quais forem, o que termina conduzindo a uma dolorosa liberdade: a liberdade de um contínuo criar, de responsabilizar-se por si mesmo, fazendo de si uma obra de arte singular e única. Um total contraponto à idéia de seguir um modelo pré-estabelecido que tenha a pretensão de estabelecer uma “identidade”. Tal perspectiva é ao mesmo tempo libertária e angustiante.

É importante salientar que, ainda conforme Areda, se o sexo é definido como uma divisão entre gêneros, todo sexo e toda sexualidade é heterossexual, no sentido de que “hetero” significa “diferente“, ou seja, todo relacionamento sexual entabulado com um ser diferente de mim, seja ele um homem ou uma mulher, será hetero, pois o sujeito se faz homem na medida em que faz do outro um… outro. Essa divisão, existente no imaginário masculino, está longe de ser igualitária, ao contrário, é hierarquizada. Através do ato sexual, os sujeitos são inscritos numa hierarquia, territórios são demarcados, corpos e sujeitos são heterossexualizados: eu sou o homem, você é a mulher.

A partir das descrições históricas do pensador Paul Veyne, ao relatar os hábitos sexuais dos antigos gregos, podemos afirmar que até mesmo as ditas relações “homo” da antiguidade estavam longe de serem “relações entre iguais”. Elas eram heterossexuais, na medida em que o homem mais velho, o erastes, exercia sobre o efebo impúbere, ou eromenos, um poder, e uma hierarquia era estabelecida. Uma relação “homo”, na antiguidade ou na modernidade, num sentido semântico do termo, envolveria dois sujeitos que fossem considerados iguais (sejam eles machos ou fêmeas), sem hierarquias de subjugador e subjugado. Seria isso possível, ou mesmo real, no chamado “mundo gay”? Para responder a esta pergunta, julgamos necessário antes navegar em outros oceanos reflexivos.

Ao que parece, segundo Areda, o discurso heteronormativo, esta assim chamada “matriz hegemônica de inteligibilidade”, tem o poder de penetrar até mesmo o universo gay, atravessando todas as relações e adequando tudo o que encontra a uma lógica hegemônica. A mesma misoginia que cria o discurso homofóbico sobrevive nessa divisão tão solidamente estruturada por discursos culturais dentro dos guetos gays, criando até nos relacionamentos mais íntimos barreiras identitárias poderosíssimas. A intolerância, pretensamente apontada pelos militantes gays no que eles chamam de “totalitarismo heteronormativo”, parece ser uma pálida sombra se comparada à intolerância que subjaz nos próprios guetos homossexuais sob os mais diversos aspectos que serão expostos ao longo deste artigo: o ódio aos travestis, o desprezo aos sexualmente passivos, o horror aos afeminados, como se “ser gay” significasse necessariamente seguir um modelo identitário pré-formado: ser homossexual é possível, contanto que o sujeito siga a cartilha. E a cartilha dita que todos sejam másculos e se comportem bem. Não se trata, obviamente, de uma cartilha escrita, mas fica patente no discurso presente tanto entre heterossexuais quanto homossexuais, em que se vaticina que “ser gay é possível, contanto que o cara seja macho e se dê ao respeito”.

Vale a pena questionar: existe, de fato, um exemplo de tolerância? Houve tal exemplo em algum momento da história humana que poderia ser seguido como um modelo? E o que Foucault, Deleuze e Veyne pensam a respeito de seguir modelos históricos passados, conforme propõem alguns militantes?

É assaz comum, no que concerne aos argumentos de alguns militantes gays acerca da homossexualidade, referir-se – ingenuamente – à antiga Grécia como um exemplo espetacular de civilização tolerante para com a prática homoerótica, considerando a civilização judaico-cristã como atrasada em relação à realidade homossexual. A partir desta comparação histórica, evoca-se a idéia de um relativismo moral e questionam-se as bases do preconceito moderno. Todavia, muitos militantes parecem ignorar que, no que tange à antiga Grécia, temos interdições tão claras quanto as interdições atuais, muito embora sejam interdições diferentes. Conforme discorre Foucault ao longo da sua obra, não é interessante tomarmos outra época como um modelo, pois não há um valor exemplar em um período que não seja o nosso próprio. Deleuze valida esta afirmação, ao sustentar em sua obra Conversações que Foucault detestava retornos: falamos do que vivemos. A história não diz o que somos, não estabelece a nossa identidade, diz apenas aquilo que estamos em vias de diferir. Paul Veyne emite um pensamento similar em O Último Foucault e sua Moral, ao dizer que o que se opõe ao tempo, assim como à eternidade, é a nossa atualidade.

Fazer uma “arqueologia gay”, portanto, não é necessariamente voltar- se para o passado. Deleuze aponta em Conversações para uma arqueologia do presente, em que tomamos as coisas para extrair delas as suas visibilidades. Não se trata, em absoluto, de procurar um modelo dito ideal que sirva como norma moral para os gays, mas – retomando Nietzsche – descobrir como a operação artística da vontade de potência permite a invenção de novas possibilidades de vida: um “ser gay” que se constrói, se inventa, um “ser” enquanto verbo atuante em nosso tempo, jamais como substantivo-modelo de uma época passada.

Deste modo, respondemos desde já a pergunta explicitada nos parágrafos anteriores: não, segundo Foucault, Deleuze e Veyne, não se trata de seguir um modelo, muito menos um modelo grego antigo, mas de criar um modo de vida gay que admita a pluralidade, um modo que se recrie continuamente, de forma integra e autocrítica, buscando maneiras de sabotar qualquer espécie de normatividade. Esta é uma proposta mais revolucionária do que talvez imaginemos, quando falamos em “respeito às diferenças”.

Deste modo, respondemos desde já a pergunta explicitada nos parágrafos anteriores: não, segundo Foucault, Deleuze e Veyne, não se trata de seguir um modelo, muito menos um modelo grego antigo, mas de criar um modo de vida gay que admita a pluralidade, um modo que se recrie continuamente, de forma integra e autocrítica, buscando maneiras de sabotar qualquer espécie de normatividade. Esta é uma proposta mais revolucionária do que talvez imaginemos, quando falamos em “respeito às diferenças”.

Vale ressaltar que Foucault jamais apresenta uma resposta, uma solução, nem aponta um caminho que possa ser considerado como “certo” para as problemáticas gays. Esta resposta cada um deve encontrar por si mesmo, num ativismo pessoal, numa militância do sujeito. Até mesmo porque, de acordo com o olhar foucaultiano, não existe escolha certa, e sim uma escolha entre perigos, onde devemos buscar dos males o menor. Sim, Foucault é pessimista em sua visão, mas jamais apático. Seu pessimismo deriva da consciência de que toda escolha é perigosa, e acarreta em efeitos colaterais inevitáveis. Não existe “caminho melhor” e “caminho pior”, para Foucault, e sim caminhos com problemas diferentes, com perigos diferentes, em que o perigo principal deve ser identificado.

É curioso observar que as críticas de muitos homossexuais (alguns destes críticos inclusive militantes da causa gay) acerca da afeminação de gays mostrados na TV não é muito diferente das críticas que um homem afeminado sofreria na antiga Grécia. É extremamente comum, nos tempos modernos, a afirmação “eu sou gay, mas não sou afeminado e detesto afeminados”. Além disso, saliente- se o fato de que o termo pejorativo “bicha passiva” é amplamente utilizado por muitos homossexuais para se referir a outros com sinal de evidente desprezo. Nada disso é muito novo, e quem enxerga a antiga Grécia como um paraíso da diversidade gay, se equivoca profundamente. De acordo com Paul Veyne, em sua obra “A Homossexualidade em Roma”, um homófilo pas sivo (diat ithemenos) era alvo de desprezo e de rejeição, sobretudo por parte do exército. Veyne conta que certa feita um homossexual passivo foi poupado de ser decapitado, porque o imperador não queria que a lâmina do gládio do carrasco fosse conspurcada por tão “aviltante criatura” (sic). A afeminação masculina era vista pelos antigos greco-romanos como algo desprezível. De modo análogo, muito embora por razões diferentes, muitos homossexuais modernos parecem sofrer da mesma aversão à passividade sexual masculina.

Fica evidente que existe um modelo normativo entre os próprios homossexuais, modelo que se pauta em regras e em “modos de ser” que, longe de criar sujeitos criativos, cria aquilo que Foucault chama de “clones”, ao se referir aos homens de aparência similar nas paradas gays (na época de Foucault, homens com fartos bigodes e óculos Ray-ban; modernamente, homens anabolizados e preferencialmente depilados). Na entrevista “A Amizade como Modo de Vida” concedida ao jornal Gai Pied em abril de 1981, Foucault usa o termo “clones bigodudos”, para se referir a estes homens “todos iguais”. Estes “clones”, ao contrário de criarem a obra de arte de suas próprias existências, compraram o modelo pré-existente, pré-fabricado, uma identidade de plástico, uma identidade que busca o idêntico: o modelo, o molde, o “dever ser”.

Os movimentos de militância gay demonstraram por vezes diversas uma inclinação totalitária. Ao invés de proteger os homossexuais, lutando pelos justos direitos civis, tais movimentos algumas vezes pareceram mais empenhados e ocupados em destruir radicalmente tudo o que, na sociedade, na cultura ou em sujeitos particulares, explicite discordância. A ideologia torna-se uma arma policial delirante que tenta proibir toda divergência de opinião, toda repulsa espontânea, todo pensamento que a desagrade e até mesmo as piadas, que fazem sentido dentro do contexto de uma comédia, peça ou novela. O que não faltam são ameaças de processo contra autores que, desejando fazer comédia, criaram um personagem caricato, cômico e gay.

Ao eliminar toda diferença, o que sobra? Uma montanha intransponível de concordância e subserviência à cartilha politicamente correta (e politicamente tirânica). As próprias atitudes públicas de alguns dos ditos “representantes dos gays” evidenciam isso. Tais representantes, munidos da mais intensa disposição de perseguir qualquer opinião que contrarie a deles, dizem falar em nome dos gays, mas o que isso significa? Não podemos nos furtar a citar o que Deleuze, em Conversações (p.110) chama de “indignidade de falar pelos outros”. Transportando esta fala para o presente assunto, ousamos perguntar: como é possível que uma militância que critica a existência de personagens gays afeminados em novelas e espetáculos se diga porta-voz de todos os gays? Definitivamente, não. Estes, no máximo, falam em nome de um tipo específico de gay – especificamente o gay que não fere as suscetibilidades dos heterossexuais, comportando-se de um modo domesticado, padronizado, que permita que os homossexuais sejam vistos “como pessoas de respeito” – uma priorização à moral, mas não uma ética. Nada além de uma subserviência à normatividade já vigente.

A dignidade de não falar pelos outros deveria ser parte do intelectual, para Deleuze, que denuncia em Conversações (p.110): sempre que alguém diz “ninguém pode negar”, “todo mundo há de reconhecer que”, eis uma mentira ou um slogan. A proposta deleuziana-foucaultiana é a de que cada um fale em seu próprio nome. Não devemos falar em termos de valores universais, mas em nome de nossa própria competência e situação.Se o grupo não é multivocal, onde está a ética? Guatarri, com quem Deleuze trabalhou por diversas vezes, enfatizaria a idéia de “transversalidade”, por oposição aos grupos hierarquizados onde temos um que fala em nome de todos os outros.

Vale salientar também a apropriação, por parte de algumas militâncias gays, de termos que são usados com o evidente intuito de exercer poder, de subjugar. “Homofobia” é um bom exemplo moderno. Segundo Olavo de Carvalho, este termo foi introduzido pelo psiquiatra George Weinberg, no livro “Society and the Healthy Homosexual” (New York, St, Martin’s Press, 1972) para designar o complexo emocional que, no seu entender, seria a causa da violência criminosa contra homossexuais. Observamos, contudo, uma apropriação deste termo por algumas militâncias gays, que passaram a acusar de “homofobia” uma série de fatos, atos e discursos de uma maneira exagerada que nos faz pensar: não seria, na verdade, uma forma de demonstrar poder? Uma forma clara de tentar intimidar todos aqueles que pensam diferente destes militantes? À luz do que estudamos sobre relações de poder em Foucault e Deleuze, ousamos dizer que sim.

Ainda segundo Carvalho, no livro “A History of Homophobia“, o ensaísta Rictor Norton, um apologista da homossexualidade, é bem franco sob esse aspecto: “Com muita freqüência, a palavra ‘homofobia’ é apenas uma metáfora política usada para punir.”. Sob este ponto de vista, o exagero é evidenciado quando os militantes acusam de “homofobia” toda e qualquer pessoa que não pregue a cartilha da militância e repita, tal qual foi determinado pelo alto comando de algumas ONGs e instituições, o que pode e o que não pode ser expresso como opinião a respeito da vida homossexual.

Usar o mesmo termo (“homofobia”) para definir um skinhead espancador de homossexuais e uma pessoa que diz ser contra o casamento gay por motivos religiosos parece ser uma forma injusta e cruel de nivelamento, e mais que isso: uma tentativa explícita de censurar a opinião das pessoas. De onde nos permitimos pensar: este tipo de militância gay luta efetivamente pelos direitos dos homossexuais, ou não passa de uma forma de exercer poder e ditar regras? Não seria esta forma de militância gay apenas mais uma fórmula ideológica e projeto de poder? Para Veyne, por exemplo, segundo Yolanda Gloria Gamboa Muñoz em Escolher a Montanha (p.41) a ideologia é um estilo nobre, porém vago, que idealiza as práticas, dissimulando os contornos das práticas reais: o que se faz e o que se diz. Conforme cita Muñoz a respeito de Veyne: “Por isso, em certo momento, ele poderá afirmar que ‘a ideologia não existe’” (Escolher a Montanha, pg.41, 2005)

Não obstante as declaradas intenções libertadoras da militância gay, um olhar mais apurado não deixa escapar uma ideologia normatizadora que norteia tal militância. Um militante da causa gay certa feita comentou, em entrevista, o seguinte:

“(…) que morreu de vergonha quando a família de seu namorado assistia à novela e “apareceram as bichas velhas, desmunhecando, fazendo tiranias e baixarias”. “Essa é a imagem que o povo tem da gente, e lutamos para que nos vejam como somos, homens que gostam de homens e não malucas desvairadas caricatas”. Acusado de “fundamentalista”, por querer processar o autor de televisão, X responde perguntando: “Defender nossa dignidade é fundamentalismo GLBT?”

Este discurso deixa claro, de forma deveras impressionante, que a fala militante neste caso prevê regras de conduta, modelos de comportamento e normatizações para o “ser homossexual” (“ser” enquanto verbo e não substantivo, vale salientar). Fica evidente, na fala deste dito representante da causa gay, que um sujeito pode ser homossexual, contanto que não seja uma “maluca desvairada e caricata” (leia-se: afeminado) e, ao que parece, ser “velho” é também um demérito, e não uma condição natural e inevitável da biologia. Tal discurso não dá espaço para a invenção da homossexualidade a partir de um ativismo constante e auto-questionador, conforme nos propõe Foucault. Existe, para este tipo de militante, uma forma ideal de ser homossexual, uma forma que, justamente por ser idealizada, exclui terminantemente uma realidade: efetivamente, existem homens homossexuais afeminados, quer gostem disso ou não os gays descolados, modernos e másculos. É importante salientar que a vergonha que o sujeito disse sentir está atrelada ao olhar dos heterossexuais sobre a cena: ele não sente vergonha por ver a cena, ele sente vergonha quando a família (heterossexual) a assiste, ou seja, ainda necessita da aprovação do status quo heterossexual do qual ele diz ser liberto. “Lutar para que nos vejam como somos” só faz sentido se esta luta incluir, conforme salienta Foucault, a diversidade, e também a liberdade criativa para que nos inventemos continuamente, criando novas formas de relações e de “ser”. Qualquer tentativa de uniformização não passa de trocar um modelo de regras por outro: no caso, troca-se o modelo normativo heterossexual por um modelo normativo homossexual completamente infectado pela misoginia e pelo machismo. E o que significaria “nos ver como somos?”, afinal de contas a pluralidade prevê incontáveis “jeitos de ser”, alguns inclusive que nem foram inventados ainda. O discurso militante subentende que existe um “como somos” universalmente válido para os gays do norte, do sul, do leste e do oeste.

Em sua entrevista intitulada “De l’amitié comme mode de vie”, concedida a R. de Ceccaty, J. Danet e J. le Bitoux para o jornal “Gai Pied” em abril de 1981, Foucault chama a atenção para o problema da construção da identidade homossexual. O problema, segundo Foucault, não reside no questionamento “quem sou eu?” (autoconhecimento), e sim na seguinte questão: quais relações podem ser estabelecidas, inventadas, multiplicadas, moduladas através da homossexualidade? Foucault, aqui, enfatiza a importância do “cuidar de si” sobre o mero “autoconhecimento”. Que se destaque aqui a importância do termo “invenção”, ponto chave para o entendimento do pensamento foucaultiano. A prioridade não está numa descoberta de “quem sou”, e sim uma responsabilidade ética de se inventar, se reinventar, como num devir-gay. A vida como uma obra de arte.

Deleuze, no que diz respeito à concepção da vida como uma obra de arte, salienta que a constituição dos estilos de vida (podemos aqui nos referir aos estilos de vida gay) não é somente estética, é também uma ética, por oposição à moral. Deleuze detalha esta diferença em sua entrevista a Didier Eribon:
“(…) A diferença é esta: a moral se apresenta como um conjunto de regras coercitivas de um tipo especial, que consiste em julgar ações e intenções referindo- as a valores transcendentes (é certo, é errado…); a ética é um conjunto de regras facultativas que avaliam o que fazemos, o que dizemos, em função dos modos de existência que isso implica.” (Deleuze, “A Vida como Obra de Arte”, entrevista concedida ao jornal Le Nouvel Observateur, em agosto de 1986).

A partir desta diferenciação entre ética e moral, não nos passa despercebido, diante da ação e idéias dos gays, que alguns deles – tanto quanto qualquer heterossexual – parecem estabelecer uma moral, um manual de regras de como os gays devem ser e se portar, de que é certo ser um gay deste modo, mas é errado ser de outro modo (ser afeminado; ser espalhafatoso; ser velho). Isso fica evidente nos preconceitos existentes dentro dos próprios guetos, e na repulsa a manifestações estéticas femininas dentro dos meios e paradas gays hipermasculinizadas. O discurso militante enfatiza continuamente “que os gays devem ser vistos como pessoas de respeito”. Mas o que isso significa? Qual é a “vontade” de verdade suposta por um discurso que se impõe como “verdadeiro” e que esse discurso só pode ocultar? Podemos ir além: não seriam os guetos gays verdadeiros internatos, meios de confinamento? Os próprios homossexuais parecem “se internar”, na medida em que consideram, para usar um termo coloquial, “uma queimação de filme” a demonstração de afeto homoerótico fora de lugares que não sejam considerados “apropriados”.

MILITÂNCIA GAY VERSUS MILITÂNCIA DA DIVERSIDADE

Uma cultura homossexual, para Foucault, deveria possibilitar instrumentos para a polimorfia, a variabilidade, a diversidade, evitando uniformizações e estabelecimento de regras de conduta. A simples idéia de “programas” e “proposições” estabelecidas por uma autoridade institucional, ainda que gay, feita para gays, é um perigo, pois na medida em que um programa se apresenta, ele estabelece uma lei, um mandamento, e isso bloqueia o fluxo da livre invenção. Neste sentido, Foucault é categórico ao afirmar que qualquer programa deve ser vazio (Da Amizade Como Modo de Vida, jornal Gai Pied, p.38-39). Na medida em que cavamos a história, descobrimos como as coisas foram historicamente contingentes, mas não necessárias. Qualquer coisa que seja estabelecida como uma necessidade homossexual deve ser peremptoriamente negada, pois o que existe (ou o que já existiu) está longe, muito longe de preencher todos os espaços possíveis.

Segundo a professora Beatriz Preciato, “O corpo da multidão gay aparece no centro do que poderíamos chamar, retomando uma expressão de Gilles Deleuze, de um trabalho de “desterritorialização” da heterossexualidade. Uma desterritorialização que afeta não apenas o espaço urbano, como também o espaço corporal. Este processo de “desterritorialização” do corpo implica uma resistência ao processo de chegar a ser “normal”. O fato de que haja tecnologias precisas de produção de corpos “normais” ou de normalização dos gêneros não acarreta um determinismo ou um fracasso da possibilidade de uma ação política. Uma vez que os gays trazem consigo como resíduo a história das tecnologias de normalização dos corpos, eles também detêm a possibilidade de intervir nos dispositivos biotecnológicos de produção de subjetividade sexual”.

Deste modo, segundo Preciato, identificações de teor pejorativo como “sapatonas” ou “bichas” se converteram em lugares de produção de identidades de imensa importância, que resistem à normatização, que desafiam o poder totalitário, das chamadas constantes à “universalização do modo de ser gay”, quer os gays normatizados gostem disso ou não.

Ainda conforme Preciato, “Influenciadas pela crítica do período pós-colonial, as teorias gays dos anos 90 têm utilizado os enormes recursos políticos das identificações de “gueto”, identificações que iriam ter um novo valor político, dado que pela primeira vez os sujeitos do enunciado eram as próprias “sapatonas”, as “bichas de jeito tresloucado”, os negros e os transgêneros. Ainda que muitos insistam numa “guetização” normatizadora, os movimentos e as teorias gays respondem com estratégias ao mesmo tempo hiperidentitárias e pós-identitárias., estes movimentos criativos fazem um uso radical dos recursos políticos da produção performativa das identidades desviadas.”

Destacamos, por fim, a força de alguns poucos lugares específicos, como a boate “A Lôca” de São Paulo, um espaço com decoração inspirada em deuses e seres mitológicos somados a ícones do universo sadomasoquista. “A Lôca” é referência underground em São Paulo e recebe um público que ilustra a diversidade e o respeito às diferenças identitárias, sem preconceitos: ao lado de homens gays musculosos, dançam travestis, “bichas velhas”, bissexuais, lesbian chics, “sapatonas”, góticos, e até mesmo heterossexuais sem preconceito. Internacionalmente, Beatriz Preciato cita a força de movimentos específicos como as Radical Fairies, grupo que representa as “bichas loucas” nos EUA, deriva de sua capacidade para se utilizar de suas posições de sujeitos “abomináveis” (esses “maus sujeitos”, segundo os próprios gays normatizados) para fazer disso lugares de resistência ao ponto de vista “universal”, à história branca, colonial e machista do ser humano ocidental. E é deste machismo colonialista que os gays precisam se livrar – não apenas fora de si, mas principalmente dentro de si mesmos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LIVROS

VEYNE, Paul. A Homossexualidade em Roma. Trad. de Ana Paula Faria. Editora Terramar, 1998.

MUÑOZ, Yolanda Glória. Escolher a Montanha – Os Curiosos Percursos de Paul Veyne. Associação Editorial Humanitas, 2005.

DELEUZE, Gilles. Conversações. Trad. de Peter Pál Pelbart. Editora 34, 1992.

FOUCAULT, Michel. História da Loucura. Trad. José Teixeira Coelho Neto. Editora Perspectiva, 2007.

WEINBERG, George. Society and the Healthy Homosexual. St. Martin’s Press, New York, 1972.

ARTIGOS

FOUCAULT, Michel. “Da Amizade como Modo de Vida”, jornal Gai Pied, abril de 1981, p.38-39, tradução de Wanderson Flor do Nascimento. Disponível na internet em http://www.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/amitie.html

VEYNE, Paul. “O Último Foucault e sua Moral”, 1985, p.933-941, tradução de Wanderson Flor do Nascimento. Disponível na internet em http://www.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/art11.html

NORTON, Rictor, A History of Homophobia, “1 The Ancient Hebrews”, 15 de Abril de 2002. Disponível na internet em http://www.infopt.demon.co.uk/homopho1.htm

AREDA, Felipe, “Ser gay e a possibilidade de não ser homem”. Disponível na internet em http://www.fazendogenero7.ufsc.br/

PRECIATO, Beatriz, “Multidões Queer”, tradução de Ricardo Rosas. Disponível na internet em <http://www.rizoma.net/interna.php?id=216&secao=desbunde>

CARVALHO, Olavo de, “Metáfora Punitiva”, disponível em http://www.olavodecarvalho.org/semana/070523dce.html

Este artigo foi publicado na revista Filosofia, Ciência e Vida número 22, da Editora Escala.

Link para o artigo: http://www.portalcienciaevida.com.br/ESFI/Edicoes/22/artigo87205-1.asp

Gimnosofistas: as raízes orientais do ceticismo de Pirro

Posted Setembro 27, 2007 by devir
Categories: Demócrito, Diógenes, Pirro, budismo, ceticismo, filosofia, orientalismo

SOBRE A PRETENSA ORIGINALIDADE GREGA

Em sua “Metafísica”, Aristóteles afirma que Tales e seus discípulos foram os primeiros filósofos. Alguns argumentam que as grandes questões filosóficas ocidentais foram abordadas muito anteriormente por pensadores orientais. A originalidade grega, entretanto, não estaria nas perguntas, e sim nos processos utilizados para a busca de uma resposta.

De fato, é incorreto falar em “filosofia oriental”, na medida em que o que se tem é uma teosofia, um saber pautado numa suposta revelação divina e numa explicação do mundo que se baseia em mitos, em deuses. Seria, a partir deste ponto de vista, mais adequado falarmos em pensamento oriental, em saber oriental, seria mais justo falarmos em verdade oriental. A filosofia, conforme a concebemos, é um processo que tem início quando o pensamento se torna racional e que prescinde de livros sagrados e dispensa revelações divinas. Nasce com os gregos, nasce no ocidente.

Vale salientar que, particularmente, não vejo como demérito aos orientais que o seu saber não receba a alcunha de “filosofia”. Ocorre apenas que a sabedoria oriental é essencialmente religiosa e, como toda e qualquer religião, pauta-se em verdades que devem ser transmitidas da forma mais pura aos seus discípulos, a fim de se preservar uma tradição. A filosofia grega, por outro lado, é fruto da pesquisa e nasce de um ato libertário em relação a toda e qualquer tradição. A filosofia grega busca a verdade, e esta busca se caracteriza por especulação mental. O pensamento oriental é um ato de fé, de entrega a uma verdade já existente.

Não obstante estas contradições, muitos pesquisadores defendem que a filosofia grega tem origem nos saberes orientais. A idéia de que a filosofia grega tem origens orientais retornou com força no século XIX, quando, por influência do romantismo, o Oriente ficou na moda entre nós ocidentais. Alguns dos principais sustentadores desta idéia foram Creuzer e Schlegel, que estudaram as semelhanças e a notável coincidência de idéias. Todavia, na maioria das vezes há um exagero fantasioso nessas teorias, como os de Augusto Gladitsch que, no final do século XIX, relaciona Sócrates com os chineses e realiza outras especulações que poderíamos chamar de “forçadas”, sobretudo por carecerem de conteúdo documentado. Outros pesquisadores, como os alemães Ritter e Zeller, reagiram fortemente contra tais associações forçadas.

O fator que compromete a seriedade de uma pesquisa a respeito da influência oriental sobre a filosofia grega, ao que me parece, é exatamente a empolgação (no que diz respeito aos que apreciam a cultura oriental) e, por outro lado, o preconceito e uma má vontade (no que concerne aos acadêmicos ocidentais). Na medida em que desenvolvia minha pesquisa, eu, que não morro de paixão pelas coisas do oriente e tampouco tenho má vontade em relação a elas, identifiquei não apenas a influência do saber oriental sobre os gregos, em casos específicos, mas também a influência da Grécia no saber oriental.

 

SOBRE GREGOS E BUDISTAS

A principal influência grega no saber oriental, significativa, diz respeito às alterações ocorridas no Budismo por conta da cultura helenística. Durante séculos, Buda não foi representado antropomorficamente, conforme suas próprias orientações. No lugar de Buda, ele era representado sempre por um espaço vazio, pela árvore Bodhi ou por suas próprias pegadas. Já entre 100 e 200 D.C., temos as primeiras representações antropomórficas de Buda, claramente influenciadas pela arte helenística. Nestas representações, podemos ver claros elementos helenísticos: a toga com dobras, o cabelo do Buda feito à semelhança do cabelo de Apolo Belvedere, o forte realismo da imagem, as proporções da face e as mãos da estátua, feitas de material diverso ao resto do corpo. A influência helenística não se limita, todavia, às imagens de Buda. Segundo Padma Dorje, assistente pessoal do Lama Padma Santem, há uma alteração da própria idéia da figura do Buda, por conta da influência grega: Buda passa a ser representado como uma figura humana, heróica e sábia, um modelo humano a ser seguido, e não uma idéia sem corpo.

Conforme escreve o Dalai Lama no prefácio do livro “Echoes of Alexander the Great”, (2000): “Uma das características peculiares da escola artística Gandara que surgiu no noroeste da Índia é que ela foi claramente influenciada pelo naturalismo do estilo grego clássico. Assim, embora estas imagens continuem passando a idéia de paz interior que resulta de praticarmos a doutrina do Buda, elas também nos dão a impressão de pessoas que falavam e caminhavam, etc. e dormiam tanto quanto dormimos. Estas representações são inspiradoras porque não só representam nossa meta, mas também a idéia de que pessoas como nós podem conseguir se tentarem”.

AS RAÍZES ORIENTAIS DO CETICISMO DE PIRRO

Por sua vez, quais seriam as possíveis influências orientais sobre a filosofia grega? Existem várias especulações a respeito, mas uma em específico é digna de nota e consideração, justamente por ter sido documentada. Trata-se do objetivo do presente trabalho: as raízes orientais do ceticismo de Pirro. À primeira vista, tal associação pode parecer assombrosa aos leigos da história da Índia: como poderia o ceticismo provir de uma região tão claramente religiosa? O ocidental médio costuma pensar na Índia como um lugar atrasado e supersticioso, todavia a maioria de nós nem faz idéia de como foi a história desta região. De fato, falamos isso do pensamento oriental a partir daquilo que é mais comum, mais famoso, daquilo que conhecemos e concebemos como sendo o saber oriental. Todavia, tenho observado que muitos ignoram a existência dos gimnosofistas, um especifico grupo oriental muito anterior aos primeiros filósofos gregos, um grupo que reúne todos os requisitos que os próprios ocidentais utilizam para definir “o que é filosofia”.

O termo “gimnosofista” (sábios do corpo) foi utilizado pela primeira vez por Plutarco no primeiro século da nossa era, quando descreveu o encontro de Alexandre Magno com dez gimnosofistas. Antes disso, os filósofos gregos os chamavam de “brâmanes”, o que é um pouco incorreto, uma vez que aqueles a quem Alexandre encontrou e que Plutarco chamou de “gimnosofistas” eram ex-brâmanes, dissidentes da religião hindu. Mas este grupo de indianos é mais conhecido pelos nomes de “faquires” e “iogues”.

Os hindus, à época de Pirro, já se dividiam em quatro castas: os brâmanes (a casta mais elevada, dos sábios), os kchatryas (guerreiros), os vaicyas (comerciantes) e os sudras (servos, escravos, aqueles que fazem o trabalho pesado). As pessoas não podiam se relacionar amorosamente com membros de castas diferentes, e ninguém mudava de casta. Além destas quatro castas, havia também os párias, que não pertenciam a casta alguma, e eram chamados de “intocáveis” (justamente porque não deveriam jamais ser tocados). Os párias lidavam (e ainda lidam) com o trabalho dito “sujo”: enterrar os mortos, por exemplo. Os párias não podiam se relacionar com nenhum membro das castas, pois eram considerados “poluídos”. A despeito deste sistema de castas nos parecer estranho, não creio que devamos julgá-lo a partir de nosso ponto de vista ocidental. Trata-se de uma cultura diferente da nossa, e eu só digo que a minha cultura é melhor porque é na realidade-túnel dela que estou inserido.

Os gimnosofistas surgem exatamente a partir da ruptura com esse sistema de castas. Curiosamente, não foram os membros das castas inferiores que se rebelaram, e sim alguns membros das castas superiores – os próprios brâmanes. Sobre isso, tratarei mais adiante.

Vale salientar que o próprio Sidarta Gautama, mais conhecido como Buda, foi ele mesmo por um tempo um gimnosofista. Naquela época, era extremamente comum que os jovens abandonassem seus lares para se unirem aos gimnosofistas, uma espécie de rebeldia adolescente da época. Sidarta era filho do rei Shuddhodana e da rainha Maya. O rei temia enormemente que seu filho se unisse aos filósofos andarilhos, pois desejava que Sidarta se tornasse imperador. Entretanto, os temores de Shuddhodana se cumpriram: com a idade de 29 anos, Sidarta resolveu sair de casa, chocado com a miséria do mundo fora do palácio, e juntou-se aos gimnosofistas a fim de meditar e encontrar alguma resposta para os sofrimentos do mundo. Permaneceu ligado aos gimnosofistas por seis anos, jejuando e meditando. Um dia, cansou-se daquele estilo de vida e se separou do grupo. Após manter-se por sete dias sentado debaixo de uma figueira, em profunda meditação, Sidarta disse ter descoberto a verdade eterna e passou a ser chamado de “Buda” (“iluminado”, em sânscrito) e passou a pregar sua doutrina pela Índia. Sua proposta religiosa atraiu uma grande quantidade de seguidores, que apreciaram a idéia de venerar alguém que disse ter encontrado “a verdade”, sobretudo os párias. A partir daí, fica claro que Buda rompeu completamente com os gimnosofistas, pois a idéia de uma verdade universal se choca frontalmente contra as percepções gimnosofísticas.

 

REFERÊNCIAS GREGAS AOS GIMNOSOFISTAS

Em “A Vida de Alexandre”, Plutarco escreveu:

Ele (Alexandre) capturou dez gimnosofistas, que fizeram de tudo para levar a revolta a Sabbas, causando muitas dificuldades para os macedônios. Estes filósofos tinham a reputação de serem inteligentes e concisos ao responder perguntas. Alexandre lhes fez algumas perguntas difíceis, declarando que mataria o primeiro que desse uma resposta incorreta.”

Diógenes Laércio também faz clara referência aos gimnosofistas, ao reportar que Pirro de Eléia, assunto desta palestra e fundador do ceticismo, foi influenciado pelos gimnosofistas enquanto viajava pela Índia com Alexandre Magno e que após seu regresso a Eléia, imitou seus hábitos e inaugurou o ceticismo.

Não apenas Pirro manteve relações com os gimnosofistas. Diz-se que Demócrito também estabeleceu contato com eles. Conforme descrito por Hipólito de Roma (170-265 D.C.), em sua Philosophumena, obra também conhecida pelo nome “Refutação de Todas as Heresias”, no livro I, capítulo XI:

E Demócrito foi um discípulo de Lêucipo, filho de Damásio, nativo de Abdera , tendo contato com vários gimnosofistas indianos, com sacerdotes egípcios e com astrólogos e mágicos na Babilônia. Ele faz afirmações parecidas com as de Lêucipo, concerne aos elementos, isto é, plenitude e vácuo, denominando a plenitude de “entidade” e o vácuo de “não-entidade”; e isto ele afirmou já que existem coisas se movimentando continuamente no vácuo. Ele acreditava em mundos serem infinitos, e variando em tamanho, e que em alguns não há nem sol nem lua, enquanto que em outros, maiores do que o nosso, e outros mais numerosos. E que intervalos entre os mundos não são iguais; e que em um quarto do espaço são mais numerosos, e outros menos; e que alguns deles aumentam em tamanho, mas outros alcançam tamanhos máximos, enquanto que outros definham e que em um quarto eles estão nascendo, enquanto que em outro estão acabando: que estão se destruindo em colisões um com o outro. E que alguns mundos são destituídos de animais ou plantas, e toda espécie de umidade. E que a terra do nosso mundo foi criada antes das estrelas, e que a Lua está por baixo; próximo (a ela) o Sol, e as estrelas fixas. E que (nem) os planetas nem estas (estrelas fixas) possuem uma elevação igual. E que o mundo floresce, até não poder receber mais qualquer coisa do nada. Esse (filósofo) tornou tudo ao ridículo, como se todas as preocupações de humanidade merecessem riso.”

De fato, Demócrito ria de tudo. E quando Hipócrates lhe perguntou qual a razão de tanta graça, Demócrito respondeu: “Tu pensas que existem duas coisas que provocam meu riso, as boas e as más, porém, na verdade, eu rio de uma só coisa: dos homens, cheios de insensatez, incapazes de ações corretas, viajando para os confins da terra e deparando-se com profundezas insondáveis, para conseguir prata e ouro, nunca cessando de acumulá-los e, com seu tesouro aumentando seus próprios problemas, para evitar que, por não terem essas coisas, sejam considerados infelizes“.

Os gimnosofistas foram também assunto de um romance muito conhecido de Umberto Eco, chamado “Baudolino”, do qual transcrevo um excerto em particular:

“Um belo dia entraram numa selva rica de árvores frondosíssimas, com frutos de todas as espécies, através da qual corria um rio de água branca como o leite. e na selva abriam-se clareiras verdejantes, com palmeiras e videiras carregadas de esplêndidos cachos de bagos do tamanho de uma cidra. Numa destas clareiras havia uma aldeia de cabanas simples e robustas, de palha limpa, da qual saíram homens completamente nus da cabeça aos pés, e a alguns dos varões era só por acaso que às vezes a barba compridíssima e fluente cobria as partes pudendas. As mulheres não se envergonhavam de mostrar os seios e o ventre, mas dava a impressão de que o faziam de modo assaz casto: olhavam para os recém-chegados atrevidamente nos olhos, mas sem suscitarem pensamentos inconvenientes.

Eles falavam grego e, recebendo com cortesia os visitantes, disseram que eram gimnosofistas, ou seja, criaturas que, em inocente nudez, cultivavam a sapiência e praticavam a benevolência. Os nossos viajantes foram convidados a correrem livremente a sua silvestre aldeia, e à noite convidaram-nos para uma ceia feita apenas de alimentos produzidos pela terra. Baudolino fez algumas perguntas ao mais velho deles, que todos tratavam com particular reverência. Perguntou o que possuíam, e ele respondeu: – Possuímos a terra, as árvores, o sol, a lua e os astros. Quando temos fome comemos os frutos das árvores que, seguindo o sol e a lua, produzem sozinhos. Quando temos sede vamos ao rio e bebemos. Temos uma mulher para cada um: seguindo o ciclo lunar cada um fecunda a sua companheira, até parir dois filhos, e damos um ao pai e outro à mâe.

Baudolino espantou-se por nâo ter visto nenhum templo ou cemitério, e o velho disse: – Este lugar em que estamos é também o nosso túmulo, e aqui morremos estendendo-nos no sono da morte. A terra gera-nos, a terra nutre-nos, debaixo da terra dormimos o sono eterno. Quanto aos templos, sabemos que os erigem noutros lugares, para honrar o que eles chamam de Criador de todas as coisas. Mas nós acreditamos que as coisas por caridade, na graça de si próprias, tal como si próprias se mantêm, e a borboleta leva o pólen à flor que, ao crescer, a nutrirá.

- Mas pelo que estou a entender – pergunta Baudolino – vós praticais o amor e o respeito recíproco, não matais animais e muito menos os vossos semelhantes. Em virtude de qual mandamento o fazeis?

- Fazemo-lo precisamente para compensar a falta de todos os mandamentos. Só praticando e ensinando a virtude podemos consolar os nossos semelhantes da falta de um Pai.”

 

Voltando a Pirro, assim diz Diógenes Laércio:

Pirro de Eleia (…) começou, segundo Apolodoro, por ser pintor e aluno de Bryson, filho de Stilpon. Depois acompanhou, por todo o lado, Anaxárco, seguindo-o até aos gimnosofistas da Índia e aos magos, de onde retirou a sua notável filosofia. Introduziu a ideia de que não se pode conhecer nenhuma verdade e que é necessário suspender o juízo, como o ensina Ascânio de Abdera. Sustentava que não havia nem belo nem feio, nem justo nem injusto, que nada existe realmente e de uma maneira verdadeira, mas que em todas as coisas os homens se governam segundo o costume e a lei. Pois uma coisa não é mais isto do que aquilo. A sua vida justificou as suas teorias. Não evitava nada, não se defendia de nada, suportava tudo, a ponto de ser atropelado por um carro, de cair num buraco, de ser mordido por cães. De uma maneira geral, não confiava nos seus sentidos para nada. Era, porém, protegido pelas gentes que o acompanhavam e que relatam que ele filosofava segundo o princípio da dúvida, sem agir com imprudência. Viveu cerca de 90 anos.

(Diógenes Laércio, “Vidas, doutrinas e sentenças de filósofos ilustres”)

Ainda segundo Diógenes Laércio, Pirro se atraiu à filosofia por conta das obras de Demócrito. Uniu-se a Anaxarco e a Alexandre Magno numa excursão pelo oriente, tendo permanecido e estudado com os gimnosofistas na Índia por dez anos. Após retornar a Eléia, estava completamente transformado e passou a levar uma vida com o mínimo necessário, quase como um mendigo, mas era muito bem quisto inclusive pelos atenienses, que lhe concederam cidadania. Pirro, apesar de ter inaugurado o ceticismo, nada escreveu, em concordância com os hábitos dos gimnosofistas. Suas doutrinas são conhecidas principalmente pelos escritos satíricos de seu pupilo, Timon o silógrafo.

Pirro se vale de alguns termos importantes para o ceticismo: a acatalepsia (a impossibilidade de se conhecer a própria natureza das coisas). Segundo Pirro, qualquer afirmação pode ser contradita por argumentos igualmente válidos (tal como faziam os sofistas). Em segundo lugar, segundo Pirro, é necessário preservar uma atitude de suspensão intelectual, também conhecida como epochè ou, conforme dito por Timon, seu discípulo, nenhuma afirmação pode ser considerada melhor que outra e nenhuma verdade absoluta pode ser afirmada ou negada, o que se aproxima muito do agnosticismo, e não do ateísmo, pois o ateísmo afirma peremptoriamente a inexistência de Deus ou deuses, enquanto o agnosticismo é uma postura ainda mais sofisticada do que crer ou não crer. Se eu afirmo que Deus não existe, não sou tão diferente daquele que diz que Deus existe. Em ambos os casos, estarei afirmando uma verdade. O agnóstico não sabe e, em geral, uma questão como essa não tem para o agnóstico grande importância. Deste modo, o agnóstico suspende o juízo, realiza a epochè. Por fim, estes resultados são aplicados na vida em geral. Pirro conclui que, uma vez que nada pode ser conhecido, a única atitude adequada é ataraxia, “despreocupação”. A epochè incorre, portanto, na desejada ataraxia.

Uma vez que é impossível conhecer algo, o homem sábio deve resguardar-se, evitando a excessiva emoção e apego que acompanha o debate sobre coisas imaginárias. Discussões religiosas, por exemplo, não fariam sentido. Este ceticismo drástico é a primeira e mais completa exposição de agnosticismo na história do pensamento. E o resultado disso é um resultado ético.

Conforme consta na Wikipedia, “(…) O caminho do sábio, diz Pirro, é perguntar-se três questões. Primeiro deve perguntar o que são as coisas e de que são constituídas. Segundo, como estamos relacionados a estas. Terceiro, perguntar qual deve ser nossa atitude em relação a elas. Sobre o que as coisas são, podemos apenas responder que não sabemos nada. Sabemos apenas de sua aparência, mas somos ignorantes de sua substância íntima.
A mesma coisa aparece diferentemente a diferentes pessoas, e assim é impossível saber qual opinião é a correta. A diversidade de opiniões entre os sábios, como entre os leigos, prova isso. A cada afirmação pode-se contrapor outra contraditória, mas com base igualmente boa, e qualquer que seja minha opinião, a opinião contrária é defendida por alguém que é tão inteligente e competente para julgar quanto eu. Podemos ter opiniões, mas certeza e conhecimento são impossíveis. Daí nossa atitude frente às coisas (a terceira pergunta) deve ser a completa suspensão do julgamento. Não podemos ter certeza de nada, mesmo as afirmações mais triviais.

Diz-se que Pirro era tão cético que isso o teria levado a uma prematura e infortunada morte por volta de 270 a.C.. Segundo a lenda, ele estava demonstrando seu ceticismo vendado quando seus discípulos tentaram avisá-lo de um precipício à sua frente. Recusando-se a acreditar neles, terminou sua vida abruptamente.”

De fato, com um ceticismo desses ninguém conseguiria sobreviver por muito tempo e se Pirro era realmente assim, é de se espantar que tenha vivido por 90 anos. O mais provável é que este tipo de história não passe de lenda, piadas construídas a partir de exageros. Lendas do gênero são descritas por Diógenes Laércio e é provável que se trate de uma derivação de uma má interpretação de Aristóteles em sua “Metafísica”. Aristóteles argumenta que uma vez que um cético acredita na existência de um buraco a ponto de se desviar dele, então o cético na verdade rejeita a própria doutrina. É verdade que os céticos antigos permitiam a confiança nos pequenos fenômenos cotidianos, reservando seu ceticismo para as crenças mais teóricas.

A DIVERSIDADE GIMNOSOFÍSTICA

Eles, os gimnosofistas, não eram um grupo homogêneo, mas vários grupos que receberam o mesmo nome por partilharem de alguns pontos em comum:

  1. Os gimnosofistas romperam com o hinduísmo por considerarem os deuses e mitos como invenções da mente humana – ruptura com o mito;
  2. Discordando das práticas rituais devocionais, os gimnosofistas se retiram e vão viver como ascetas: vivem nus, ou com apenas uma tanga, e vivem conforme a natureza, sem nenhuma restrição determinada por convenções sociais;
  3. É interessante observar que a maioria dos gimnosofistas é composta por ex-brâmanes, ou seja, indivíduos pertencentes a uma casta superior na estrutura religiosa hindu. A discordância ao sistema de castas, que a priori deveria ocorrer a partir dos membros das castas inferiores, ocorreu justamente a partir dos membros da mais superior das castas. Estes ex-brâmanes eram considerados instruídos e cultos;
  4. Todos os gimnosofistas conheciam técnicas que lhes permitiam um domínio assombroso de suas funções corporais: a capacidade de suprimir a dor, a indiferença em relação ao frio e ao calor, a capacidade de jejuar por dias a fio, ou mesmo de se alimentar com apenas um pouco de arroz de vez em quando, além de outras habilidades impressionantes. Em verdade, o termo gimnosofista é um nome dado pelos gregos a estas tribos de dissidentes hindus, é um termo que significa “sabedoria do corpo”. Mas também conhecemos os gimnosofistas a partir de outros termos: iogues, faquires. Alguns chamam-nos erroneamente de brâmanes, mas na verdade são ex-brâmanes, pois romperam não apenas com o sistema de castas, como também com toda a estrutura religiosa hindu.

Entretanto, a despeito de partilharem características em comum, os chamados “gimnosofistas” eram grupos filosoficamente distintos entre si. Partilhavam idéias diferentes e viviam conforme as idéias que tinham. Em cada tribo, quem escolhesse se juntar a eles tinha que aprender a partir da convivência. Não havia reuniões para ensino, não havia Paidéia, nem nada similar. E, de fato, naquela época era muito comum que os jovens, sobretudo os de família rica, abandonassem tudo para seguir os gimnosofistas, como Buda o fez. E, assim, estes grupos cresciam.

Os grupos mais famosos e que atraíram o maior número de seguidores levavam o nome de seus idealizadores ou “mestres”:

PURANA KASHYAPA – Defendiam que a realidade é composta por partículas muito pequenas e que a maior parte de tudo é simplesmente vazia. O mundo é um grande vazio. E aquilo a que chamamos de partículas pequenas nada mais são do que apenas vibrações.

MASKARIN – Defendiam o ACAUSALISMO. A idéia de causa e efeito é uma ilusão, ou mesmo uma convenção da mente humana. Um engano da mente.

AJITA KASAKAMBALA – Defendiam que a natureza da existência é o sofrimento e que o crescimento interior só se dá através do sofrimento. Deste modo, mortificavam ao máximo o próprio corpo até se tornarem indiferentes à dor e, assim, dominarem a existência.

SANJAYN – Ensinavam que nenhum caminho religioso é necessário para a evolução interior, e que as regras morais são todas relativas: o que é bom para uns não é bom para outros. Não há Bem Universal.

KAKUDHA KATYAYANA – Ensinavam tanto em termos de existência como de inexistência, dando respostas de acordo com as perguntas que lhes faziam, adotando idéias em resposta às pessoas. Se alguém lhes perguntasse se os fenômenos existem, eles diriam que existem; se lhes perguntassem se os fenômenos são inexistentes, eles diriam que são inexistentes. Para os Katyayana, nada existe. É tudo discurso, não há verdade universal, e todas as coisas podem ser definidas por uma idéia e pelo seu oposto também.

NIRGRANTHA JNATAPUTRA (grupo que deu origem ao Jainismo) – Erros e méritos, virtudes e defeitos, são todos a mesma coisa, e tudo isso nos prende à roda dos nascimentos e mortes (reencarnação).

AJIVAKA – Todos os seres progridem para a perfeição, independentemente de seus esforços. Não é preciso fazer nada, pois todos estamos num rio cuja correnteza nos conduz fatalmente a um destino.

LOKAYATA – Negavam a prática espiritual, a lei de causa e efeito e negavam a realidade espiritual. Para eles, a única coisa verdadeira seria a realidade aparente das coisas percebidas através dos sentidos.

CHARKAVA – Não existe uma moral universal e apenas o mundo material é real. Assim sendo, cada pessoa deveria agir apenas conforme sua própria vontade para satisfazer seus desejos. A única forma de acabar com o desejo que angustia os homens é ceder a ele.

AMARAVIKHEPIKA – Não afirmavam e nem negavam nenhuma doutrina ou crença. Diziam que nada pode ser conhecido, nem mesmo aquilo que se apresenta aos nossos sentidos, pois os sentidos são enganadores e, assim, suspendiam o juízo. “Crer” em qualquer coisa, segundo os amaravikhepika, implica em se tornar escravo de uma ilusão. Diziam que somos escravos de nossas crenças, e que o ato de duvidar é curativo e libertador. Não negavam, entretanto, as crenças, pois negar algo é afirmar seu oposto – o que também é uma crença. Uma curiosidade interessante é que Buda enfatiza em sua obra os perigos associados às idéias gimnosofísticas da maioria dos grupos, exceto em relação aos seguidores de Maravikhepika. Segundo o Budismo, a dúvida cética não é necessariamente um mal, e sim uma prática saudável que nos impede de nos tornarmos escravos das coisas. Um dos venenos da mente, segundo o Budismo, é a dúvida imprópria, ou dúvida desnecessária. Podemos dizer que, para Buda, um ceticismo moderado era melhor do que nenhum ceticismo, mas poderia se tornar perigoso caso o indivíduo exagerasse na dose.

Sou inclinado a afirmar, a partir da história dos gimnosofistas, que eles poderiam, sim, ser considerados filósofos a partir do que os próprios gregos definiam como “filosofia”. Temos todos os elementos: ruptura com o mito, não-comprometimento com tradições, questionamento constante e, principalmente, a idéia de que qualquer homem e qualquer mulher é inclinado à busca pelo saber, e não apenas uns poucos por serem brâmanes, conforme ensina a tradição hindu.

Segundo um livro de 1668 chamado “De Moribus Brachmanorum”, atribuído a Santo Ambrósio (muito embora existam dúvidas quanto à autoria), um certo Calanus, ligado à comitiva de Alexandre Magno, foi feito prisioneiro pelos gimnosofistas. Ocorre que Alexandre Magno, fascinado não apenas com a sabedoria destes hindus, mas principalmente com o poder que eles tinham sobre seus próprios corpos, lhes propôs irem com ele até a Grécia, mas teve seu convite prontamente recusado. Alexandre Magno então resolveu forçá-los e, a partir daí, Calanus foi capturado. Em resposta a Alexandre, os gimnosofistas enviaram os seguintes dizeres:

Teus amigos persuadiram-te a, sem sequer sonhar com as nossas obras, usar de violência contra um Filósofo Hindu. Pois tu, chamado Alexandre, podes remover nossos corpos de um lugar para outro, mas não podes forçar nossas mentes a fazer o que não estão dispostas a fazer, não mais do que podes tu fazer falar as pedras e as árvores. Um grande incêndio causa dor ardente em corpos vivos e os destrói; nós porém estamos acima disso, pois somos queimados vivos e não ligamos. Nenhum rei ou príncipe pode nos chantagear a fazer o que não determinamos fazer. Tampouco somos como os Filósofos da Grécia, que estudaram palavras ao invés de atitudes, a fim de angariarem para si nome e reputação. Conosco as coisas são companheiras das palavras, e as palavras das coisas; nossas atitudes são solícitas e nossos discursos breves: gozamos de uma bem-aventurada liberdade na virtude.”

Por fim, Alexandre captura os dez principais gimnosofistas acusados de serem os instigadores da rebelião de Sabbas e leva-os a julgamento. A cada um faz uma pergunta e a pena de morte é certa para aquele que dê uma resposta que ele, Alexandre, considerasse errada. Entretanto, Alexandre ficou bastante satisfeito com as respostas dadas. A um deles, o terceiro, Alexandre pergunta se ele sabe qual é o mais nocivo animal existente à superfície da terra. O gimnosofista responde: “um animal ainda não descoberto pelo Homem“. Os gimnosofistas eram completamente iconoclastas e não se impressionavam com nenhuma autoridade, muito menos com a de Alexandre. Neste sentido, há semelhanças impressionantes entre o comportamento destes ex-brâmanes com o comportamento de Diógenes, O Cínico.

Segundo Chandrakirti, um grande erutido mahayana e seguidor de Buda, os filósofos estão em situação pior do que os vaqueiros. Os vaqueiros possuem a mácula usual de operarem sob um realismo ingênuo, enquanto que os filósofos inventam idéias de essência, alma e assim por diante e criam uma camada adicional de mácula, o que torna a liberação mais difícil para eles.

Vale salientar que o contato de Alexandre Magno e de Pirro com os gimnosofistas não se deu “por acaso” em sua incursão pela Índia. Segundo afirmado por historiadores, Alexandre ouviu falar desses “sábios desnudos” e enviou para a Índia primeiramente Onesicritus, um filósofo grego da corrente Cínica, a fim de que este investigasse os gimnosofistas. As descobertas e relatos de Onesicritus impressionaram enormemente Alexandre Magno, que viajou para a Índia em 326 A.C. a fim de confabular com os gimnosofistas, desejando que estes fossem com ele até a Grécia.

Em seu artigo “Índia Antiga”, Paul LeValley compara os gregos com os gimnosofistas: “As razões do ascetismo nudista dos gimnosofistas e das práticas atletas nudistas da Grécia eram claramente similares. (…)(Essas razões falavam) de eficiência. Todo grupo conhecido de gimnosofistas apreciava o valor e a vida tranquila e despojada de convenções sociais que o nudismo traz; os legisladores de Esparta aconselhavam o nudismo entre seus cidadãos pela mesma razão.

Posteriormente, LeValley escreve que “Nrgrantha Jnataputra criticava os gregos, que limitavam seu nudismo ao ginásio. Jnataputra mencionava constantemente o nudismo como um método de libertação das ataduras e das convenções sociais”. Hindus e gregos concordavam que a nudez representava um estado de pureza e honestidade.”

Havia diferenças entre o nudismo grego e o nudismo hindu: enquanto os gregos consideravam a beleza do corpo humano, isso para os hindus era de nenhuma importância. Enquanto os gimnosofistas se referiam ao nudismo como um passo para se atingir a tranqüilidade absoluta e a indiferença em relação aos modelos sociais, os gregos consideravam o nudismo como uma base para a expressão da completitude do indivíduo. Além do que, os gregos davam maior ênfase ao desfrute, à música e ao prazer físico. Neste sentido, os gregos são mais parecidos com um grupo específico de gimnosofistas, os Charkava.

Paul LeValley conclui dizendo: “Quiçá o maior valor que ambos os grupos mantinham em comum era a associação do ascetismo hindu e os atletas gregos com a idéia de paz”.

OS TROPOS

Por dez anos, Pirro estudou com os gimnosofistas: de seus 31 aos 41 anos de idade. Além de um poema de louvor a Alexandre Magno, Pirro nada escreveu e todo seu pensamento só pode ser reconstituído por meio dos testemunhos de seus discípulos, como, por exemplo, Timon. O ato de não escrever é perfeitamente coerente com a proposta gimnosofística. Os gimnosofistas afirmavam que a escrita é perigosa, pois o que é escrito adquire valor de verdade absoluta, e eles não desejavam criar mais “livros sagrados” que fossem passíveis de fanatismo. O aprendizado gimnosofístico deveria se dar a partir do contato com um mestre qualificado, que mais questionava as verdades de seus discípulos do que respondia perguntas. Tratava-se de um procedimento terapêutico, pois os questionamentos libertavam as pessoas de seus dogmas e daquilo que eles chamavam de “doença da verdade”. Assim sendo, a ação dos gimnosofistas se dava a partir de argumentos em relação às verdades estabelecidas, e não de pregações de novas verdades. Os argumentos gimnosofísticos foram aproveitados por Pirro para a elaboração dos dez tropos.

Tropos são argumentos utilizados pelos céticos para demolir afirmações dogmáticas, absolutas e indiscutíveis. E é a partir destes argumentos que uma pessoa pode alcançar a epochè, ou “suspensão do juízo”.

CONCLUSÃO

  • Houve uma série de relações e inter-influências entre os povos orientais e os gregos;
  • A despeito do saber oriental em geral não ser adequado para ser denominado “filosofia”, os gimnosofistas inauguraram efetivamente uma filosofia (de acordo com os pré-requisitos que os próprios gregos estabeleceram como fundamentais para um pensamento receber este nome);
  • A filosofia cética de Pirro de Eléia decorre de sua convivência de dez anos com os gimnosofistas;
  • Os tropos (argumentos céticos) derivam diretamente do gimnosofismo;
  • A Índia, e não a Grécia, é o berço das idéias céticas.

BIBLIOGRAFIA

Wenzel, M. – “Echoes of Alexander The Great

Plutarco – “A Vida de Alexandre

Blackburn, Simon – “Verdade: um guia para os perplexos”

Hipólito de Roma – “Philosophumena

Santo Ambrosio (supostamente) – “De Moribus Brachmanorum

Laércio, Diógenes -Vidas, doutrinas e sentenças de filósofos ilustres”

Guthrie, W. K. C. – “Os Sofistas

Junqueira Smith, Plínio – “Do Começo da Filosofia e Outros Ensaios