Os Exilados da República

NOTA INTRODUTÓRIA

O presente trabalho foi desenvolvido a partir de aulas da professora Yolanda Glória Gamboa, levando também em consideração as abordagens realizadas pelo filósofo Paulo Ghiraldelli Jr. num curso de filosofia da arte, ministrado em 2005. Serviu também de inspiração um excelente curso ministrado pela psicanalista e astróloga Kátia Lins, no ano de 2004, sobre filosofia da diferença – pode-se dizer que foi aí que eu “redespertei” meu interesse pela filosofia e pela psicanálise.

Em abril de 2006, “Os Exilados da República” foi apresentado em Goiânia, a convite da Associação Goiana de Filosofia Clínica, por ocasião do VIII Encontro Nacional de Filosofia Clínica. Este mesmo trabalho será apresentado no XII Simpósio Multidisciplinar, na Universidade São Judas Tadeu, em São Paulo, capital, em setembro de 2006. Fui também convidado a apresentá-lo no VIII Colóquio de Epistemologia em Bariloche, Argentina, em setembro próximo, a partir de uma seleção de diversos textos referentes ao tema “a arte como linguagem”.

O ponto focal deste trabalho envolve uma possibilidade de análise do afresco “A Escola de Atenas”, de Rafael Sanzio. Nem de longe a única análise possível, mas ao menos muito divertida e interessante.

OS EXILADOS DA REPÚBLICA

CRIADORES DE SENTIDO NO ABISMO ONTOLÓGICO

Alexey Dodsworth Magnavita de Carvalho

Expulsos por Platão de sua República, os artistas foram considerados inadequados por supostamente criarem a “cópia dentro da cópia”. Num mundo como o nosso, citado pelo filósofo como sendo tão somente a projeção sombria do mundo das essências verdadeiras, os artistas se revelaram como sendo a serpente no Éden da República, pois instigavam a emoção e faziam as entranhas humanas borbulharem. Uma ameaça, portanto, à proposta platônica de canalização da mente e da força moral em busca de uma essência absoluta. Os assim capazes de criar mundos, se não pretendem se dirigir para o mundoverdadeiro”, devem se retirar.

Os exilados,
artistas, podem ser vistos como elaboradores de novas realidades quânticas. Não estando comprometidos com a idéia de uma “verdade“, sentem-se livres para operar na direção da criação de mundos. Os artistas e os sofistas (artistas da linguagem) não estão interessados nas essências e em conceitos absolutos. Tampouco poderiam nos dias de hoje: olhando ao nosso redor, será que vemos a possibilidade de uma uniformização, ainda que a globalização insista em tal delírio aristocrático? Ao invés da verdade enquanto um conceito metafísico, artistas e sofistas estimulam a verdade do sujeito. Obviamente, tal idéia plural atemoriza Platão em sua defesa de um bem, bom e belo universais, assim como modernamente causa arrepios de terror em toda cultura que se pretende dominante e detentora da verdade. A arte sempre surge como um poder que rasga o que se mostra uniforme, rompendo com a psicose da “verdade única”. O que não permite metáfora, admitindo apenas uma interpretação, conforme nos ensina a psicanálise, beira a psicose ou se revela como tal. O absolutismo desta verdadeessencial” é a força-motriz de todos os atos de um ser ou grupo contra o outro. Enquanto humanos, ainda engatinhamos no processo de entendimento das diferenças. Contaminados culturalmente pelo platonismo, buscamos o mundo dos modelos ideais e continuamente cremos que entendemos tais modelos – o que o outro vive é que é uma cópia mal feita. Daí nascem a intolerância e a angústia.

Platão, a quem muitos se referem como o maior de todos os filósofos, fala-nos da existência de um mundo de modelos perfeitos por um lado e do nosso mundo por outro: a cópia, para ele um pálido reflexo deste plano ideal, modelar. Podemos inferir, a partir deste raciocínio, que há uma fissura ontológica entre o modelo e a cópia e, nesta fissura, um abismo. Tal abismo existencial é o espaço para onde vertemos continuamente, ao qual costumamos chamar de “angústia“. Sensações de vazio que, por mais justificadas que sejam por este ou aquele problema, jamais nos abandonam e estão muito além de serem apenas este ou aquele problema. O abismo da fissura está sempre a nos aguardar, por mais “preenchidos” que nos sintamos de modelos ideais, uma distorção da proposta platônica: o amor ideal, o trabalho ideal e todas as coisas que inicialmente se apresentam perfeitas e às quais nos apegamos, mas que fatalmente fenecem ou se revelam dolorosamente imperfeitas, vertendo de forma inexorável para o abismo da fissura entre a idéia de modelo e a idéia de cópia. O vazio, preenchido com sentidos exógenos, é apenas temporariamente preenchido. Enquanto não é sustentado, suportado e aceito, causa angústia e se deixa preencher para em seguida carcomer o que o invadiu. É o que ocorre com os que buscam respostas fáceis e “pedagógicas” para seu mal estar – a verdadeperfeita”, que vem de fora, oferece conforto temporário. Mas o abismo persevera, paciente.

Somos todos artistas e criamos nossa realidade continuamente, por mais que não nos impliquemos conscientemente neste ato de criação. Olhamos para o abismo, e ele também olha para nós. Preenchemos a fissura ontológica com nossas fantasias: encenamos os dramas míticos fazendo de nossas existências uma novela de capítulos repetidos, pois desconhecemos nosso potencial criativo e ainda carregamos a culpa histórica que nos impede de assumirmos nossa posição como artistas e criadores da realidade. Morremos de vergonha de termos sido expulsos da República. Isso pode ser constatado até mesmo dentre os artistas profissionais, uma vez que a arte parece ser, ainda hoje, menos meritória do que o mundo perfeito das ciências exatas. Para o pai de família ocidental médio, tempo vertido na elaboração de um poema ou quadro pode ser considerado mero ócio; um garoto que passa o dia tocando violão “tem um problema”, mas não aquele que nada faz além de resolver complexas equações da Física; o mesmo tempo, despendido na direção de cálculos matemáticos, configura-se, entretanto, como nobre trabalho. Não nos assumimos como artistas por uma culpa secular e, assim sendo, a tela vazia da fissura ontológica se matiza continuamente pela fúria dionisíaca que nos habita e que deseja se expressarnem que para tanto o artista interior, sufocado, precise criar umdramalhão mexicano” em sua própria vida, transformando-a numa nova de baixa categoria. Somos possuídos pela culpa, pois fomos treinados, século após século, a buscar a verdade absoluta, o “bem, bom e belo universais“. Mas mesmo Platão não se mostra tão platônico: seus escritos são poéticos e sua filosofia é mais alegórica do que as obras de muitos artistas. Como costuma citar Paulo Guiraldelli Jr., Platão tornou-se com o tempo, inclusive, mais socrático, dando-se ao direito de perguntar por perguntar, sem se sentir na necessidade de encontrar respostas.

Alguns poucos heróis da resistência ousam reagir contra o assassinato do olhar humano como criador da arte viva. Rafael, segundo o filósofo Paulo Ghiraldelli, parece ter demonstrado uma fina ironia ao “decapitar” a cabeça de Platão no afresco “A Escola de Atenas” e inserir no lugar o semblante de Leonardo da Vinci, fazendo algo similar com outros filósofos (Heráclito substituído por Michelangelo e o próprio Rafael inserido no lugar onde deveria estar Apelles, discípulo de Ptolomeu). Nãoquem veja o quadro e não note que a figura que deveria ser Platão não corresponde de forma alguma ao que se conhece como sendo o semblante do filósofo. A filosofia, ainda segundo Ghiraldelli, tem a ver com o “humor da imaginação” e, portanto, guarda grande afinidade com o modus operandi do artista. Rafael, vingativa e ironicamente, exila as “mentes sem corpo” dos filósofos arracando-lhes as cabeças, e insere os artistas no contexto, transformando a rígida Escola de Atenas numa Orgia da Criatividade. A ironia de Rafael não cessa aí: no afresco, o artista insere a si mesmo no contexto, a única figura da obra que olha para quem olhar a obra. Pura metalinguagem e, também, convocação. Uma convocação, talvez, para entendermos que criamos mundos com o nosso olhar.

Curiosamente, muitos autores, como Ubaldo Nicola, costumam compreender a retirada do rosto de Platão e a conseqüente inserção do rosto do mestre Leonardo como “uma homenagem a Leonardo”. Um eufemismo, quiçá, para embelezar uma possível crítica aberta a Platão.

Jamais alcançamos, contudo, o modelo ideal, ele sempre nos escapa; tampouco somos cópias, posto que estamos atados à glória e danação de nossa singularidade. O que nos resta? A fissura ontológica, o abismo com o qual nós ocidentais mal sabemos lidar, descendentes diretos de um pensamento cartesiano plenista, em que o vazio não pode existir. Todavia, é o espaço vazio que nos resta, uma vez que não atingimos o modelo e não somos cópias. É o espaço vazio a nossa garantia de exercício de um papel criador: ondeausência, podemos criarcada um a seu modonovos sentidos e destinos. A língua portuguesa oferece, inclusive, a possibilidade de uma brincadeira curiosa com as palavras “sentido” e “destino”: uma é o anagrama da outra. Rearranjemos a ordem do sentido e teremos um destino.

Vemos o exagero distorcido do ideal platônico em nossa sociedade contemporânea que erige modelos, imagens ideais que jamais conseguiremos atingir. Mesmo o amor parece maculado pela idéia de um modelo platônico, devendo corresponder a um estado inalcançável: o outro (ser amado) visto como um ideal, não como um ser real, o que mata a alteridade e inviabiliza a relação entre dois sujeitosnenhum reconhece o outro como umoutro“, mas como cópias do modelo ideal. Entre eles, um abismo, a frustração do amor teórico versus a realidade de duas pessoas de carne e osso, com defeitos reais, humanas que são, e eis que se apresenta o vazio da fissura ontológica que poderia – e pode – ser preenchido com arte plural. Se a alegria fecunda, a dor faz o parto, e daí podem nascer novos sentidos de nós mesmos.

Somos todos exilados da República, solitários no espaço vazio da fissura ontológica. Maldizemos o abismo, entendido por nós como ausência de sentido. Para o TAO, no pensamento oriental, é o vazio quesentido ao vaso. Vemos o sentimento de ausência como um inimigo, quando em verdade se trata de nossa garantia de humanidade. Não havendo sentidos prontos, pré-determinados, “modelares”, podemos construí-los, inventá-los a cada respiração e olhar. Sem a rígida determinação de um modelo, nos vemos diante da tela em branco de nossa essência polimórfica e podemos pintar o que quisermos no vazio libertador do abismo ontológico.

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5 Comentários em “Os Exilados da República”


  1. Espero que você tenha bastante tempo, pois creio que vou me fartar por aqui.
    parabéns por mais essa atividade pensante!!!

  2. vitor Says:

    a eu achei muito interessante esse site, por que pessoas como eu precisam dessa fonte de pesquisa, eu estou fazendo um trabalho de escola outros tambem podem prescisar dessa fonte de enformação,obrigado por ter colocado na rede este site.

  3. Rogeria Says:

    Caro Alex:

    Gostei imenso deste texto e de todos os outros q li. Espero q Plutao continue a inspirar seus filhos escorpianos para nos brindar com a mordacidade de textos como o do planeta em epigrafe.
    Saudaçoes astrologicas e sucesso em seu trabalho.

  4. MIRIAM Says:

    PARA LER

  5. Anderson Says:

    Cara, tô curtindo um trânsito de mercúro na 12 e por isso relendo umas paradas antigas. E relendo percebi como esse texto é lindo e poderoso. Quantas palavras densas bem posicionadas, quantas citações oportunas, quantas conclusões sangrentas, escorpianas. E no final ainda fica meio poético, quase musical. Acabei de ler ele todo em voz alta, so pra mim, só pra eu curtir e adorei. Congratulations!


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