A vã curiosidade [filosofia de bar 1]

Agostinho de Hipona [mais conhecido como SANTO Agostinho], em suas “Confissões”, é veemente no que diz respeito à curiosidade: é através dela que o mal entra no mundo. Não consigo deixar de fazer um paralelo com o que o Budismo chama de “atenção imprópria”, que é quando dirigimos nossa mente para coisas que não têm a menor pertinência. A diferença é que, para o Budismo, há a “boa” e a “má” curiosidade, enquanto que para Agostinho toda curiosidade é pérfida. Tudo bem, Agostinho era um escorpiano radical ao estilo de um bom filho de Marte.

Mas não consigo deixar de pensar que faz todo o sentido do mundo a crítica de Agostinho à curiosidade. Quanto tempo precioso perdemos com interesses tolos? Sobretudo com o advento da internet, ao invés de lermos um bom livro, ficamos xeretando a vida dos outros via Orkut. Se formos somar todo o tempo despendido lendo bobagens na internet [como as bobagens deste blog... haha!], teríamos lido um livro por semana! E dos bons!

Brasileiros costumam, via de regra, falar muito mal dos argentinos. Pois nós temos algo a aprender com eles: em primeiro lugar, a curiosidade do argentino médio em relação à vida alheia beira o nulo. Em compensação, adolescentes costumam ler… Machado de Assis. Isso mesmo, o NOSSO Assis, lido com mais gosto por adolescentes argentinos do que por adolescentes brasileiros.

Não sei se toda curiosidade é malévola. Mas pelo menos a de algumas pessoas se dirige para a cultura e a instrução; a de outras, para a vida alheia no Orkut ou para a vida dos atores e atrizes em revistas do estilo Capricho e Contigo. E o Orkut dá mesmo esta [falsa] sensação de que somos todos estrelas de cinema. O que ninguém se tocou é que o Orkut, em verdade, é a ferramenta que permite vermos uns aos outros envelhecer… 

Recomendação do dia: ao invés de ler tolices no Orkut, compre “Confissões” de Santo Agostinho e leia. Vale a pena, sobretudo pra quem curte escarafunchar a vida alheia. Ao invés de se informar sobre a vida desinteressante do seu vizinho, aprofunde-se na vida de um dos grandes filósofos da nossa história. Filosofia patrística, cristã, muitos discordarão das coisas que lerem [eu mesmo não sou cristão], mas não é preciso ser religioso para admirar o pensamento bem elaborado de Agostinho de Hipona.

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3 Comments on “A vã curiosidade [filosofia de bar 1]”


  1. Tenho certeza que nem toda curiosidade é malévola. Por exemplo, não foi malévola a curiosidade que me fez abrir o seu blog. Grande abraço. Luís César.

  2. Janaína Says:

    Tem toda a razão, Alexey. As reflexões de Agostinho sobre o tempo são imperdíveis, assim como sua biografia. O blog tá muito bacana. Beijo.

  3. NELSÃO PRADO Says:

    AO APERTAR DOS BOTÕES

    Nos últimos anos, quer me parecer que a comunicação entre as pessoas aumentou, aumentou muito, eu até arriscaria dizer, que é bom as pessoas se escreverem, é maravilhoso as pessoas se comunicarem.

    Ressuscitaram-se alguns amigos e colegas que haviam desaparecido de nossa existência, que maravilha, e até parentes ausentes, reapareceram propondo reacender as chamas da familiaridade.

    Minha geração, num esforço homérico, por não querer ser, a primeira a ser excluída da inclusão digital, um pouco lentamente talvez, foi se adaptando, a esta realidade irreversível, foi se acostumando com estes novos tempos, muitas vezes porém, percebendo um certo vazio nesta formidável novidade.

    Logo no início, alguns “emeios” aportuguesados, chegavam tímidos até nossos computadores, dizendo coisas parecidas como estas… “oi lembrei-me de você” ou quanto tempo heim…, que bom podermos nos comunicar novamente. E eles foram chegando, nossa geração, já não era, tão analfabeta digital, mas quase.

    Aprendemos muitas novidades por estes novos tempos o que é fantástico, descobrimos por exemplo, que podíamos mandar cartas para todos amigos, de uma só vez, uma carta única que chegaria a todos e numa velocidade incrível, fosse onde fosse o domicílio de nosso destinatário, que aliás, agora tinha em seu nome e endereço, mudanças padronizadas no mundo inteiro, aqui no Brasil por exemplo, nosso sobre nome passou a ser único para todos e nossa grande família passou a assinar .com .br e breve muito breve nosso sobre nome passará por novas mudanças, todas elas em nome do aperfeiçoamento tecnológico.

    Mas a realidade também se apresentou, e implacável como sempre com seus anexos vieram os problemas vieram os vírus repassados sem a menor desconfiança, vieram as fotos, ah… as fotos umas mais linda que as outras e cada só demorando alguns minutos para serem recebidas:

    Começaram porém, a faltar assuntos, o que dizer, nas tantas cartas eletrônicas, que recebo e envio, a facilidade de comunicação criou a dificuldade de expressão, dizer o que, para tantos e como dizer estes “oques” de um modo que sirva para todos, chiii…la vão mais fotos e também cartões.

    Ainda aprendizes, fomos guardando nossos endereços eletrônicos aleatoriamente em nossos “PCES”, para usá-los em nossas respostas, no início um a um e mais tarde alguns para a seguir usar todos, de uma única vez, que fantástico, que maravilhoso.

    Passava-se a estar em dia com a correspondência abundante, os amigos “eletronicados” pelos e-mails, foram voltando e aumentando, cada um merecendo respostas para suas cartas também “eletronicadas”, começam chegar cartuns, piadas, gozações, críticas, pedidos, orações, correntes, fotos dantescas que mandam, para nos chocar, como se fossemos a única pessoa para ajudar, e estivéssemos sempre dispostos a receber de tudo o que se possa imaginar, e ainda, campanhas para que você gere recursos, apertando isso ou aquilo, rezas de diferente religiões, etc., etc., etc., e os amigos que me fizeram feliz por voltarem a se comunicar, começaram somente a apertar botões e a usar de uma nova atividade recém descoberta, o REPASSE, recebe-se nem se lê, nem se reflete, aperta-se o botão e la vai uma enxurrada de nem se sabe o que para todos de minha lista.

    No início ainda era uma novidade, mas o novelo foi aumentando, ficando pesado, difícil, desagradável de segurar, historias repetidas, piadas recontadas uma duas dez vezes, minutos e minutos de espera enquanto não se consegue “baixar”, horas e horas perdidas para mandar e para receber as antiguidades que deixaram de ser novidades, já há algum tempo.

    É só apertar os botões e repassar, pensando que todos irão adorar esta minha mensagem, nem imagino se vocês podem ou não perder tempo em le-la se gostaram da próxima vez mando com alguns cartões e fotos daquelas que demoram cerca de 60 minutos para fazer o “down-load”

    Nelson Prado


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