Mentiras sinceras me interessam [parte primeira]
Faz um bom tempo que eu pensava em trazer este assunto para a comunidade. Na verdade, trata-se de um futuro artigo para a revista Constelar, mas creio que ele pode ser melhor construído a partir de considerações do que eu vier a ler por aqui e em outras paragens virtuais.
Trata-se do problema das falácias lógicas, recursos argumentativos aparentemente válidos, todavia falsos até a medula. Estas falácias estão presentes em todas as áreas do conhecimento humano, da política às ciências, e a astrologia não escapa. Na verdade, o meio astrológico sempre me pareceu [talvez por conviver tanto nele] intensamente sujeito a valorizar falácias lógicas.
O objetivo do presente trabalho pretende ir além da mera descrição dos tipos de falácias argumentativas em Lógica Informal. A proposta do material contido nas páginas seguintes é a de refletir criticamente a respeito destas falácias argumentativas no contexto político e jornalístico brasileiro contemporâneo. Nos dias de hoje, somos postos continuamente em contato com uma série de informações, afirmações e textos que, de certa forma, formam a nossa opinião. Todavia, são poucos – para não dizer inexistentes – os veículos de informação que não apelam para as falácias lógicas em maior ou menor grau. Tal percepção só causaria assombro a alguém muito ingênuo, sobretudo no que diz respeito ao terreno político, onde a retórica assume um poder muito superior e mais sedutor do que a lógica. Como se tem percebido ao longo da história, as pessoas parecem preferir uma mentira retoricamente bem elaborada do que uma verdade lógica, todavia “insossa”. Pretender eliminar tais falácias nos parece uma tarefa quixotesca. Ao que parece, as “mentiras sinceras” nem sempre são propositais: fazem parte da dinâmica do inconsciente humano, como alerta Freud a respeito dos chistes e atos falhos. Não deixa de ser interessante observar o quanto Freud estava certo ao dizer que o ser humano dito “civilizado” apenas trocou de instrumentos, abandonando tacapes, paus e pedras e investindo na linguagem como uma forma sagaz de manipular seu semelhante, com o fito de obter algum resultado prático disto. Assim dito, é importante salientar que os exemplos modernos não são mais ou menos falaciosos do que tantos outros ocorridos no passado. A falácia, persistente que é, muda de roupa, mas continua a mesma, seja na política, nos jornais, na religião, mas também – e por que não dizer? – na ciência, conforme denuncia o filósofo da ciência Paul Feyerabend. O tema de hoje envolve os argumentos ar verecundiam.
Argumento AD VERECUNDIAM
Também conhecido como APELO À AUTORIDADE.
“A homossexualidade é errada, é uma aberração, pois assim está escrito na Bíblia”; “Você está errado em seus argumentos, pois o próprio Jung afirmou que o I Ching prevê, sim, o futuro”; “Pesquisadores da Universidade de Berkeley comprovaram que o café é nocivo à saúde, então quem é você pra contestar?”; tais exemplos, longe de serem fictícios, ilustram perfeitamente o falacioso argumentum ad verecundiam, ou “apelo à autoridade”. Este tipo de argumento é muito funcional (mesmo sendo falacioso), pois, conforme cita Sêneca: “Ununscuiusque mavult credere quam judicare” (“qualquer um prefere crer a julgar por si mesmo”).
Segundo o filósofo [e astrólogo relutante] Olavo de Carvalho, os motivos que levam as pessoas a aceitar passivamente qualquer argumento que apele a uma suposta autoridade são simples: o ato de aceitar, de simplesmente crer, é muito menos trabalhoso, não demanda investigação pessoal, é mera preguiça. Ao mesmo tempo, ceder ao argumento confere ao crente um sentimento de fazer parte de algo maior. Afinal, se Jung disse que o I Ching prevê o futuro, concordar com ele equivaleria a elevar a própria consciência ao nível perceptivo da autoridade. É errôneo, todavia, supor que apenas pessoas sem formação sejam sujeitas às manipulações do argumento de autoridade. É muito comum verificar, inclusive entre universitários e até mesmo em doutores, a submissão ao argumentum ad verecundiam. Para Ludwig Von Mises, o que caracteriza uma pessoa de mente ordinária não é sua formação, mas sua sujeição passiva à suposta autoridade. Conforme cita Von Mises, em A Ação Humana: “O homem comum não especula sobre os grandes problemas. Ampara-se na autoridade de outras pessoas, comporta-se como (…) um cordeiro no rebanho”. Por isso mesmo, citações e frases de efeito ditas por pessoas que são autoridades em suas áreas são tão repetidas pelo ser humano “ordinário”. É como se ele evocasse para si a autoridade de quem cita. Isso não seria um problema (e, de fato, nem todo argumentum ad verecundiam é falacioso, como veremos adiante), mas o que mais ocorre é que as frases, recortadas de seus contextos, podem inclusive distorcer o que a autoridade realmente disse.
Jung, por exemplo, é um dos autores mais citados entre astrólogos, todavia aqueles que o citam dificilmente leram seus livros – no máximo, a orelha. O que se faz, até onde observo, é retirar frases de efeito de Jung, algo como faz a revista CARAS.
É inevitável tecer brevemente uma comparação entre os argumentos ad verecundiam e ad hominem: no segundo caso, o sujeito é considerado uma fonte inconfiável; no primeiro, o sujeito é considerado uma fonte confiável, num sentido absoluto. Os dois tipos, apesar de diferentes, guardam semelhanças: ambos se pautam nas fontes pessoais de opinião.
O primeiro filósofo a denunciar o argumentum ad verecundiam com grande veemência foi John Locke [o mesmo que empresta o nome a um dos personagens mais famosos do seriado LOST]. Segundo Locke, uma maneira eficaz (e falaciosa) de silenciar a oposição é arvorar-se nos dizeres de uma autoridade. No caso, esta autoridade nem precisa ser necessariamente eficiente naquilo que disse, bastando-lhe que seja eminente, famosa, respeitada, que goze de estima, que seja mais velha e, portanto, teoricamente mais sábia, etc. Mas ainda que a autoridade em si seja, digamos, uma autoridade acadêmica, ela pode ser perfeitamente passível de discordância por outras autoridades em sua área de saber. Cientistas, por exemplo, costumam apresentar resultados altamente contraditórios em suas pesquisas: enquanto um comprova que o café faz mal, o outro comprova o contrário. Assim sendo, é ingênuo sucumbir a um apelo à autoridade, ainda que esta autoridade seja idônea.
Um exemplo clássico e recorrente no meio astrológico, no que diz respeito à sujeição aos argumentos ad verecundiam:
“A eminente e respeitada Associação X é a favor da regulamentação da profissão de astrólogo. Assim sendo, isso é uma coisa boa.” – não há, nesta afirmação, nenhum argumento lógico que explique o por quê da regulamentação “ser boa”. O argumento – falacioso que é – apenas parte do princípio de que se a associação [uma estrutura de autoridade] diz uma coisa, é porque tal coisa é necessariamente válida.
Um exemplo recente de argumentum ad verecundiam envolveu a desclassificação de Plutão como um planeta. Astrólogos foram questionados por jornalistas, a partir do seguinte raciocínio: “se vocês continuarem a usar Plutão em seus mapas astrais, estarão errados, pois os astrônomos já comprovaram que ele não é um planeta”. A mensagem é simples e direta: os cientistas disseram uma coisa, quem são vocês para não seguir? O argumento já começa falacioso, pois não há uma unanimidade de astrônomos a dizer que Plutão não é um planeta. Muito pelo contrário. Apenas uma pequena quantidade de membros da União Astronômica esteve presente à votação que rebaixou Plutão, e tal votação foi realizada à revelia dos demais membros. Vários astrônomos se mostraram furiosos com a decisão, como o astrônomo americano Owen Gingerich que até hoje reclama que a votação de Praga foi “sequestrada” por colegas de visão estreita. Cientistas não são tão “certos” do que dizem quanto parece. E ainda que a desclassificação fosse uma unanimidade, a astrologia nunca se prendeu apenas à interpretação simbólica de apenas planetas – considera o Sol e a Lua, por exemplo, que não são planetas. Curiosamente, nem os astrólogos [leia-se: EU MESMO, além de outros] se saíram bem em sua réplica, partindo para o argumento ad hominem abusivo: diante da descoberta de que os astrônomos mais empenhados em desclassificar Plutão por conta de seu tamanho diminuto eram uruguaios, disseram em entrevista ao jornal que isso “só pode ser coisa de quem tem um tremendo complexo de inferioridade por morar num país-anão; agora, querem chamar o planeta de anão, também”. O argumento pode até ser funcional por conta de sua carga irônica, mas é falacioso, pois se trata de um argumento ad hominem [meramente ofensivo].
Anos atrás, outra celeuma envolvendo astrônomos versus astrólogos fez sucesso: um grupo de cientistas resolveu escrever um manifesto contra a astrologia, taxando-a de “superstição ignorante”. Os nomes das autoridades desfilavam impactantes no manifesto. Coube a Paul Feyerabend, filósofo da ciência, fazer a denúncia de que o manifesto tinha um teor de bula papal, que em nenhum momento eram apontados argumentos razoáveis, mas tão somente uma definição com valor de verdade por conta simplesmente dos autores do texto serem cientistas de boa reputação. Carl Sagan foi mais intelectualmente honesto ainda ao dizer: “Nada conheço sobre astrologia, é um assunto que ignoro e não pretendo assinar um manifesto que diz que ela é falsa apenas para emprestar autoridade ao texto através do meu nome”. Note-se que nem Feyereband e nem Sagan poderiam ser acusados de fazer uma defesa por motivos pessoais, já que nenhum dos dois é astrólogo. Além do que, nenhum dos dois defendeu a astrologia. Apenas “atacaram o ataque”.
Um ponto importante a se considerar, é: até que ponto uma autoridade é especialista? Vemos o tempo todo atores e atrizes famosos dando suas opiniões sobre os mais variados assuntos: política, educação doméstica, psicologia, religião. Nenhum deles, todavia, é cientista social, psicólogo ou teólogo. Trata-se, portanto, da conhecida prática da doxa, ou mera opinião. Se Pelé elogia o presidente e sua fala causa impacto, isso se deve tão somente ao argumentum ad verecundiam: Pelé é uma eminência, assim sendo o que ele fala “deve necessariamente ser válido”. Tal raciocínio é falacioso, já que Pelé pode ter sido um excepcional jogador de futebol, mas não é um cientista político.
O que mais existe na internet, sobretudo no Orkut, são as pretensas autoridades astrológicas. A pessoa aparece, diz que entende do assunto, diz o que quiser, e muitos comprarão a idéia, porque para quem ignora um assunto, qualquer coisa é digna de nota. O Orkut é um palco onde a falsa autoridade desfila, e não apenas no que concerne à astrologia. Nenhuma área do saber está isenta dos “achistas”. Já vi até orientações médicas sendo dadas por leigos totais, pautados naquilo que, por sua vez, eles “leram num site”.
Além disso, mesmo que a autoridade seja especialista no que diz, a pergunta continua valendo: até que ponto ela é especialista? Autoridades numa mesma área discordam entre si e isso acontece o tempo todo, seja na medicina, na ciência, na filosofia… Como determinar, então, quem está certo e quem está errado? O problema, conforme nos aponta Douglas Walton, é que quando desconhecemos um assunto, qualquer autoridade nos parece boa e por isso mesmo que tanta gente cai “no papo” de charlatães astrológicos. Além do que, tendemos a crer no que está na mídia, e é sabido que os jornalistas, ao fazer uma matéria, tendem a procurar representantes (presidentes, coordenadores, etc.) e tais representantes não são, obrigatoriamente, os melhores especialistas, mas tão somente os melhores representantes (por uma questão de habilidade social, talvez). O que os jornalistas procuram, quase invariavelmente, são as pessoas que se dispõem a dar declarações e nem sempre estas pessoas são as maiores autoridades. As maiores autoridades estão ocupadas demais, pesquisando. Mas digamos que uma excelente e idônea autoridade num assunto se disponha a dar uma declaração. Ainda assim, há os riscos de distorção do que a autoridade disse, assim como os “recortes manipuladores”, em que um trecho é destacado apenas para dar valor de verdade a algo que o argumentador deseja fazer valer, mas que pouco ou nada tem a ver com o originalmente dito pela verdadeira autoridade.
O INVERSO
Nem todo argumento ad verecundiam é falacioso, muito pelo contrário. Há diversas circunstâncias em que não faz o menor sentido rejeitar um argumento, uma vez que ele foi emitido por uma autoridade idônea. Um dos exemplos mais corriqueiros é quando vamos ao médico, ou ao dentista. Seria tolice contestar a autoridade, nestes casos, muito embora outros especialistas possam chegar a vaticínios distintos na mesma área, conforme já foi explicitado. Cabe ao sujeito, portanto, procurar quem ele considere um bom especialista e confiar em sua percepção.
Outro exemplo bastante simples envolve a afirmação emitida pelas autoridades em química: o arsênico é um veneno. Não é preciso testar, para saber que é, pois se trata de uma verdade mais do que testada. Obviamente, não há nenhum impedimento lógico para a eventualidade de surgir na natureza um exemplar não-venenoso do arsênico, mas não é esta possibilidade que está em questão, mas o fato de que não é preciso contestar toda verdade estabelecida, por se tratar de puro desperdício de tempo. Não precisamos experimentar todas as coisas, para saber se elas fazem mal ou bem.
Autoridades são continuamente evocadas para dar seus pareceres em tribunais. O parecer delas não é mera opinião. A lei prevê que testemunhos de autoridades serão válidos como uma forma racional de prova. Mesmo assim, é bastante possível que uma autoridade emita seu parecer, mas outra autoridade igualmente idônea venha a demonstrar que este parecer é equivocado. Estabelecer “qual a melhor autoridade” não é tarefa fácil e por isso mesmo é que sempre devemos estar atentos aos famosos e corriqueiros argumentos ad verecundiam.
Como verificar?
Douglas Walton estabelece uma lista de questões que devem ser respondidas antes de um argumento ad verecundiam ser aceito como válido. Cita ele, em seu Lógica Informal:
1. Quem emitiu o argumento do especialista? Ele mesmo? Houve recorte? Caso o argumento seja apenas uma citação, há como verificar a fonte?
2. Foram omitidas informações importantes?
3. O que pensa outro especialista? Eles entram em contradição? Caso um confirme o outro, as citações foram feitas em separado?
4. O argumento está claro? Os termos técnicos estão explicados? Caso o argumento esteja convertido em linguagem leiga, ele se mantém realmente fiel ao que foi originalmente dito?
Fevereiro 16, 2007 at 5:24 am
Olá, Alexey
os argumentos falaciosos é um campo que tambem me agrada muito, ainda que analisar a midia é tao “chutar cachorro morto” que prefiro me centrar em argumentos “cientificos” e de economistas. Um dia juro que vou lancar um livro só comentando pesquisas como a que concluiu que usar bide dava cancer, ou que esperma é antidepressivo e comparar com as pesquisas consideradas “sérias”.
por exemplo, agora com a morte do menino esfolado vivo, já vi, aqui da colombia, que a imprensa brasileira já caiu matando com as manifestacoes de indignacao, pena de morte, etc. Brasileiro que é um povo que gosta de romantismo, dificilmente verá a hipocrisia e o desejo de sangue do noticiario… Me lembro que no dia que a menina riquinha foi morta com o namorado pelo tal de chapinha, ou sei la o que, uma menina (negra e pobre) tinha sido morta de maneira muito mais violenta, estuprada e morta com 17 facadas, da coitada que morava na favela ninguem disse um ai, a Veja nao fez capa dela, etc. Quando aquela moça (branca e rica) matou os proprios pais tambem nao teve um jornal pra dizer que a pena de morte resolvia… como eu disse, analisar a imprensa é tao fácil que dá vergonha