Filosofia: evasão?

É deveras comum encontrarmos pessoas cujo entendimento do ato de filosofar o restringe a uma concepção abstrata e desligada da vida. Seria este, de fato, o papel da filosofia e de seus praticantes? Estaria a filosofia fadada a ser exercida por uma elite intelectual?

Sob determinados aspectos, é tentador considerar o exercício da reflexão filosófica como um escape do mundo. Para muitos, afinal, imaginar-se como pertencendo a uma aristocracia espiritual é motivo de soberba. Tal concepção, todavia, não é partilhada por todos os filósofos. Abbagnano, por exemplo, chama a atenção para o fato de que ser humano implica necessariamente em ser filósofo e que, portanto, seria inviável conceber a filosofia como um anestésico da consciência. A existência humana é caracteriza pela angústia do ser-sendo, do ser que se percebe sendo. e, deste modo, filosofar é angustiar-se, mover-se, pensar o mundo e interferir sobre ele.

Encontramos um pensamento análogo em Husserl, que vê os filósofos como seres tomados pelas chamas prometéicas da consciência, capazes de contaminar o mundo circundante com o espírito transformador sempre em ebulição. Assim como Abbagnano, Husserl evoca a imagem da filosofia como um saber que, ao contrário de evadir-se do mundo, atua sobre ele (ainda que com muitas mediações – esta parte é uma interferência do meu professor, Hélio). Husserl considera que somos limitados pelo mundo, mas ressalta que somos nós que agimos sobre este mesmo mundo. A partir do que recebemos, conferido pela realidade na qual nascemos e vivemos, também pomos a realidade em movimento. O que caracteriza a filosofia para Husserl é um olhar em busca da verdade. Se esta verdade será encontrada, não há garantias. Mas o que importa é a busca, e não descobrir a verdade. O processo de buscar garante o movimento. A evolução orgânica pode até ter causas determinadas, mas a humanidade psíquica nunca foi concluída, nem nunca o será. O telos espiritual da humanidade se encontra no infinito: é um constante vir-a-ser. Deste modo, é inviável pensar a filosofia como uma abstração ociosa (no sentido negativo deste termo, pois há o sentido altamente positivo do ócio, conforme nos lembra Domenico deMasi) ou edênica, paradisíaca. Ao contrário: a filosofia incorre em movimento, em perda da inocência, em queda do paraíso. E, conforme nos ensina Milton em seu Paradise Lost, “a inocência perdida jamais é recuperada“.

Longe de nos manter num paraíso infantil, a filosofia nos expulsa dele, como que a dizer: crie mundos.

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3 Comments on “Filosofia: evasão?”


  1. Imagino que vale transcrever aqui o texto de um blogue – intitulado “O QUE É FILOSOSFIA?” – postado em meu saite, o http://www.loganalise.com:

    “Desde início da História, podemos recolher vestígios dos anseios humanos pelo verdadeiro, pelo bom e pelo belo. Em um determinado momento histórico – ponto que, na cultura ocidental, pode ser situado por volta do fim do século VII a.C – essa busca apresenta uma derivação fundamental. Insurgindo-se contra a determinação do verdadeiro, do bom e do belo determinados por uma tradição – essencialmente mítica e religiosa – nascem os fiéis de uma nova crença: a de que todo o indivíduo humano é capaz de, mediante reflexão crítica, decidir por si e para si o que é verdadeiro, o que é belo e o que é bom, submetendo a esse juízo crítico inclusive – talvez principalmente – o que lhe oferece a tradição. Como postura, a filosofia se identifica com a disposição de questionar.

    Até o século XVII, todas as produções intelectuais derivadas dessa postura – fossem elas conclusões sobre o movimento dos astros ou sobre a conduta humana ideal – eram incluídas sob o rótulo de filosofia. Nesse especial sentido, Galileu, ao rejeitar, pela força de seu raciocínio, o geocentrismo bíblico estava sendo tão filósofo quanto Sócrates, fundado em idênticos meios, rejeitou a oferta de seus amigos para que fugisse da cicuta.

    A partir de Galileu, entretanto, os resultados da aplicação da postura filosófica aos vários setores de investigação humana passaram lentamente a serem arrolados como pertencentes aos diversos ramos do que hoje chamamos de ciência: a matemática, a física, a química, a biologia etc., de forma que, conforme o uso atual, a Filosofia recobre essencialmente os resultados da “postura crítica” às investigações voltadas:

    (a) Sobre as condições de validade do conhecimento; e
    (b) Sobre a utilização do conhecimento assim validado na orientação ética e estética da vida humana.

    Sem (a), a ciência ficaria sem os fundamentos de sua própria validação; sem (b) o homem não seria o dono de seus próprios atos, mas simples marionete do acaso ou mero escravo da tradição.”

  2. André Says:

    Alexey, é o André que acabou de te responder no orkut os votos de aniversario.

    Respondo a este texto pois é exatamente isto que foi o tal intenso que disse. To num curso na França que busca exatamente isto, eles colocam como uma démarche ergologique, inconforto intelectual diante dos fatos, diante do que seria a atividade humana. Determinismo como o grande inimigo, unica fonte de medo para o ser humano sadio, em evoluçao.

    Um dos grandes influenciadores desta “nova disciplina” (Ergologia) chama-se Canguilhem, influenciado por sua vez por Nietzsche e Comte.

    Poderia escrever mais, mas agora estou sem tempo.

    Até…

  3. André Says:

    Bom, so pra dar uma pequena desenvolvida nos autores citados; Comte entre outras, pela sua posiçao anti-estatisticas sociais para achar a média humana, indo na contra-mao do que a sociologia queria impor no sec. 19 (e ainda quer impor). Ou seja, nao vamos so aos fatos, mas obervemos os valores que encontramos no meio objeto de estudo e vivencia.
    E Nietzsche, seu conceito de potencia humana e seu inconforto intelectual.

    Resumindo um pouco esta “démarche”, é preciso sempre ir ao real onde , junto aos fatos pré-concebidos existem valores humanos, o que da movimento aos fatos, transformando-os sempre. A constante renormalizaçao dos fatos (fatos= normas), pois o ser humano saudavel nunca é passivo diante os tais fatos. Evitar que a filosofia e a ciencia morram, com o passar do tempo, em seus paraisos abstratos.

    PS.: As vezes nao sou muito claro, faltanto argumentos para melhor evitar cair no conto da falacia.


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