O Outro Eu

O DESPERTADOR E O INCONSCIENTE

Desde que me entendo por gente, despertadores me irritam. Se porventura acordo com o barulho de um despertador, fico com dor de cabeça. Entretanto, percebi que quanto mais terrível era para mim o som de um despertador específico, maior minha tendência de despertar espontaneamente em exatos dois minutos antes do despertador soar. Ao que parece, uma parte minha resolve me poupar do desagrado de ouvir aquele som desagradável, despertando-me antes da música.

Durante muito tempo, me diverti com esta fenômeno sem encontrar uma explicação plausível para ele, até que me deparei com a tese de Sigmund Freud a respeito do inconsciente. Chamava-me a atenção o fato de que, a despeito de existir um EU que precisa dormir e que demanda um instrumento para acordar na hora, um EU que precisa de um relógio para saber a passagem do tempo, havia também um OUTRO EU que aparentemente jamais dormia, e mais que isso: um OUTRO EU capaz de contar os segundos e os minutos, a fim de realizar um trabalho: despertar-me dois minutos antes do despertador soar.

Este OUTRO EU que jamais dorme me assustava pela exatidão com que procedia e por conta do poder que demonstrava. Dito assim, alguns podem achar de que EU não relaxo e durmo superficialmente, angustiado com a expectativa do toque do despertador. Mas não é o que efetivamente ocorre. O sono daquilo que defino como sendo EU é profundo e reparador, e quanto mais profundo for o sono [ou distração] deste EU, maiores as chances do OUTRO EU agir com impecável exatidão.

Obviamente, esta é uma experiência pessoal. Não estou dizendo aqui que o inconsciente de todos elimine a necessidade de despertadores. Todavia, experiências de natureza similar demonstram que o inconsciente não é apenas existente, mas, sob diversos aspectos, muito mais “consciente” do que aquilo que chamamos de EU.

A teoria do inconsciente foi um dos grandes legados de Sigmund Freud à humanidade. Acima de tudo, o inconsciente é um abalo filosófico: o EU não é o senhor de sua própria casa. Dito mais claramente, não é o que chamamos de EU que nos governa. Somos governados por um OUTRO EU.

Durante muito tempo, me referi equivocadamente ao inconsciente como sendo “uma camada mais profunda do EU”. Este erro não é apenas meu. É muito comum ler definições do inconsciente como sendo “uma camada mais profunda”, definições estas dadas pelas psicologias em geral. Uma amiga psicanalista tratou de me corrigir: o inconsciente não é a parte mais profunda do EU. O inconsciente é um OUTRO EU. E mais: ele não pode ser “mais profundo”, pois está sempre à superfície. Este OUTRO EU se manifesta em sinais corpóreos, em palavras que nos escapam, em chistes e atos falhos. Este OUTRO EU se manifesta como destino, como repetições, se manifesta como atrações, esquecimentos convenientes, etc. O inconsciente está sempre à superfície.

A ALMA COMO PLURALIDADE DO SUJEITO

A idéia da existência de eus múltiplos nos transporta para as idéias nietzschianas de uma alma não-atomista, mas de uma alma-em-tomos, em capítulos, múltiplos eus que se manifestam naquilo que chamamos de sujeito. Sustento aqui o termo sujeito, ao invés de indivíduo, pois não me parece que existam “indivíduos”. O termo “indivíduo” significa não dividido, o que pressupõe integralidade ou um “eu único”. Conforme explanado, se vários eus me perpassam, sou um divíduo, uma reunião de um conglomerado de eus que se contradizem, às vezes trabalham em concordância, etc. Cada sujeito seria, por assim dizer, uma assembléia. Nesta assembléia não haveria um “eu real” ou “essência”. Não posso dizer que o inconsciente seja o “eu real”, pois no momento quem aqui escreve é aquilo que defino como sendo EU. Mas como poderia também dizer que quem escreve é o “eu real”, se na medida em que escrevo cometo erros de digitação específicos que mais me soam como atos falhos, revelando que o OUTRO EU sabe mais do que EU?

Para Nietzsche, tudo é máscara, é tudo representação e, assim sendo, até mesmo aquilo que alguns definem como sendo “essência” nada mais é do que uma máscara, como qualquer outra. Isso é fácil de verificar, na medida em que o tempo passa e aquilo que defino como “real” em mim mesmo muda. O Alex de 1987 não é o mesmo Alex de 2007, em quase nenhum sentido, nem mesmo fisicamente falando. Estes dois Alex só são os mesmos na medida em que eu me confesso como tendo sido aquele de 1987. Alguns argumentam que há uma “qualidade essencial” que permanece. Particularmente, já acreditei nisso, mas sou inclinado a duvidar. Quando pergunto que qualidade é essa que permanece, os sustentadores da idéia de essência não sabem definir ou soltam termos de significado amplo, como “espírito”, “mônada”, etc. Pois bem, se a essência é indizível, então ela não-é, na medida em que tudo o que é humano é interpretável.

Outro contra-argumento à idéia de essência que permanece é o argumento do tempo: a tal essência apenas parece imorredoura, simplesmente porque não houve tempo para que a mudança se processasse. Aquilo que parece nuclear ou real em nós é apenas uma máscara como outra qualquer, em torno da qual as outras máscaras temporariamente gravitam.

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