O que é a vida, afinal?
Pretender definir de forma realista o que é a vida nos apresenta à tentação ingênua de considerar esta como sendo uma questão cuja resposta é óbvia, sobretudo se nos limitarmos a definições de dicionário, ou pior, a definições simplistas fornecidas por alguns livros de biologia. Encaremos os fatos: nenhum cientista sabe apontar exatamente o que a vida é ou, melhor dizendo, qual a diferença efetiva entre um dito “sistema vivo” e um “sistema não-vivo”. É possível discordar disso e argumentar que nós sabemos intuitivamente se algo é vivo ou não, mas consistiria ingenuidade crassa se nos detivéssemos na observação limitada e confundente dos nossos sentidos, que mal sabem distinguir entre uma pedra e sapo mimetizado. Na prática, todas as definições aplicadas ao conceito “vida” nos servem num âmbito local, pragmático, mas não podemos garantir que tais definições sejam válidas num contexto cósmico.
Considerar, conforme aprendemos no colegial, que “ser vivo” é “todo ser que nasce, cresce, reproduz e morre”, seria preguiça intelectual. Afinal, nem todo ser vivo é capaz de se reproduzir [asnos são estéreis, assim como algumas pessoas e animais e, não obstante isso, são seres vivos]. Por outro lado, é irônico constatar que cristais e fogo podem se reproduzir e não são considerados, stricto sensu, como “seres vivos”.
Chamamos os processamentos químicos e a liberação de energia de “metabolismo”. Mas há seres vivos que passam longos ciclos de tempo com suas funções metabólicas completamente suspensas [algumas bactérias, por exemplo], e então de repente voltam aos usuais processamentos químicos.
Poderíamos assumir como bem fundamentada a idéia de que a distinção entre algo vivo e algo inorgânico reside no fato de que algo inorgânico é imensamente previsível, se comparado a algo orgânico. Se atirarmos uma pedra para cima, poderemos determinar onde e quando ela cairá, mas a mesma previsão não pode ser feita se tentarmos realizá-la até mesmo num organismo simples como uma ameba. Simplesmente não podemos ter certeza de para onde uma ameba decidirá ir. Ou seja, a vida seria a afirmação daquilo que Schopenhauer chamava de “vontade” ou “ímpeto”. Mas ainda que assumamos tal definição como sendo correta, teremos de considerar que determinados programas computacionais capazes de gerar padrões fractais aleatórios são, portanto, vivos!
Ou seja: não há absolutamente nenhuma definição simples que permita distinguir algo vivo de algo não-vivo. Até mesmo cientistas de orientação totalmente materialista e negadores das teorias do vitalismo são tácitos em afirmar que não existe uma linha divisória nítida entre sistemas vivos e não-vivos. Não existe um “algo” vivo, e sim uma série de processos desconhecidos que permitem que algo seja vivo. Termina sendo tentador apostar nas teorias vitalistas clássicas, que pregam a impossibilidade de determinar a vida apenas a partir de processos físico-químicos. Haveria, então, uma “alma” ou algo incorpóreo a animar as coisas vivas? Esta é uma possibilidade, e ainda que aparentemente seja pouco “científica”, vale aqui lembrar que o terreno da ciência não é o terreno da negação. Mais interessante ainda é considerar que a alma exista, mas não como algo “descolado” da matéria, e sim como uma conseqüência natural da própria matéria. Pode ser que esta dita “energia que anima” os corpos ditos vivos seja a emergência de complexidade, uma espécie de “situação-cúmulo” que surge espontaneamente – como uma lei física – a partir de relações e organizações especiais. Neste sentido, a vida seria uma autopoiesis, definição que implica numa radical mudança de perspectiva epistemológica. Seria inútil, numa perspectiva autopoiética, analisar as partes em busca da “coisa em si” que revela a vida. Ela, a vida, só poderia ser compreendida como uma rede relacional. Mas se admitirmos a vida como uma grande teia autopoiética, não seria possível então afirmar que o Universo é, inteiro ele, um super-ser vivo? Tal perspectiva demandaria uma radical mudança de paradigma para a ciência.
Não existe, portanto, uma definição científica aceitável para “o que é a vida”. Num sentido local, terrestre, até poderíamos assumir que sim. Mas num contexto cósmico, as coisas ficam mais complicadas. Há teóricos que consideram que as estrelas são vivas, afinal elas nascem, crescem, geram planetas, morrem, apresentam metabolismo. A vida insiste em ser mais do que uma definição científica: ela ainda é, para nós humanos, um problema filosófico.
Setembro 1, 2009 at 3:38 am
Dada a falta de um parâmetro absoluto para definir o vivo do não vivo, a quintessência mítica se transmuta em élan, prana ou ki, em cada uma das culturas que procuraram de alguma forma compreender o que seria vida.
Estou trabalhando atualmente em um conto que faz paralelos míticos com toques de devaneio ao que seria realmente uma vida e como poderia uma vida ser criada.
Não há absolutismo que consiga permanecer em paz enquanto a incerteza reina dando margem às possibilidades.
Setembro 2, 2009 at 2:13 am
Eu fico com a pureza da resposta das crianças: é a vida. É bonita, é bonita. rsrs – belo texto, Alexey.
Setembro 3, 2009 at 3:22 pm
Legal enfim, achar algum escrito que corrobore com que estava na minha cabeça. Tinha chegado nos mesmos pontos, baseado na incompatíbilidade da definição de vírus como ser “não-vivo”, oque me indignou, estive a pensar que a definição de “vontade” seria uma ideal. O vírus pode não ter célula ou raciocinar, mas ele tem um impulso, uma pulsão de vida. Me indago até se existe alguma definição religiosa para estes não-seres: uma pulsão de desejo parasita deveria ser considerado algo puramente maligno.
E no mesma lógica, pensei nos números, exatamente na aleatoriedade. Dízimas não-periódicas tambem. Se voce fizer um calculo que de como resultado um numero aleatório, numa máquina, significa que um número infinito pode ter sido criado e que esta fora de seu controle. Enfim, um numero que se libertou, acordou para sua existencia e esta em algum lugar do espaço tempo.
Só resta uma grande gargalhada mesmo ehehe… quanta bobagem!