Pensando a ciência – parte 1 – Indutivismo

Motivado por algumas conversas que entabulei ao longo dos últimos dias com pessoas variadas de diferentes áreas, resolvi organizar meus pensamentos com o intuito de expor algumas considerações a respeito da problemática da ciência. O que vou escrever é fruto de estudos comparativos realizados a partir das obras de Chalmers, Feyerabend e Kuhn. Não deixa de ser também uma rememoração de minhas aulas de Filosofia da Ciência, quando eu era aluno da professora Sônia Dion (ela mesma uma física).

Creio que na verdade o que mais me motivou a passar os próximos dias escrevendo sobre este assunto veio de um choque que tive meses atrás quando, numa aula de Cálculo, o professor questionou aos mais de 90 alunos presentes qual era a última revolução científica de que eles se recordavam. Note-se que estamos falando dentro do contexto de uma universidade do nível da USP, que em tese reúne a nata dos bons estudantes do Brasil. Reunidos numa mesma sala estavam alunos de Astronomia, Geofísica e Meteorologia. O resultado foi o seguinte: mais, muito mais do que a metade da sala respondeu que a última grande revolução científica foi… a internet!

Seria engraçado, se não fosse trágico. A descrição desta cena serve a um propósito: demonstrar que a massiva maioria das pessoas (mesmo aquelas que estão num curso de ciências) não faz a menor, a mais vaga idéia do que são, afinal de contas, coisas como a própria ciência ou uma revolução científica. Num curso de ciências, tal noção é imprescindível. Mas mesmo para pessoas que não se encontram cursando áreas científicas, saber algumas coisas é importante até para que seja possível pensar com mais clareza e critério. Ao longo dos próximos posts, procurarei explicar por quê a internet não é uma revolução científica, e se isso lhe parece esquisito – já que a internet mudou sua vida, eu sei – garanto que é fácil de entender, mas tudo a seu tempo!

CIÊNCIA: UMA PALAVRA DE PODER COMO RECURSO RETÓRICO

Você, que está lendo este post, já deve ter percebido o quanto os termos “ciência” e “científico” possuem enorme peso no discurso geral. Reportagens usam e abusam destes termos. Religiões buscam persistentemente inserir estas duas palavrinhas mágicas em suas interpretações sobre a vida. Até mesmo áreas alternativas procuram alguma forma de validação científica. Encontraremos o termo “ciência” sendo utilizado em atividades tais quais a “ciência mortuária”, “ciências econômicas”, “ciências humanas” e, fora do contexto acadêmico, teremos também as “ciências ocultas”. A própria Astrologia, por exemplo, costuma ser um conhecimento que muitos dos seus praticantes costumam considerar “diferenciado” de outros oráculos porque, em tese, seria um conhecimento “científico” – diferente do Tarot, ou do jogo de búzios, só pra citar dois exemplos. Ao longo de vários posts, procurarei abordar a questão da “ciência” sob diversos prismas e, justamente por ser um assunto muito amplo, não caberia num único post.

Não tenho nenhum problema em dizer que, conforme observo, o termo “ciência” não passa – na maioria das vezes, com algumas exceções – de um recurso retórico que tem por objetivo emprestar autoridade a alguma coisa. Quando alguém diz que “a reencarnação é um fato científico” ou que “está provado cientificamente que o tomate faz bem para a próstata”, questiono eu: será que é assim mesmo? Para os descrentes na reencarnação, pode parecer um absurdo comparar a idéia de que as almas mudam de corpo com os estudos envolvendo os benefícios prostáticos desencadeados pelo tomate, mas o ponto que me interessa aqui não é definir se uma coisa é “mais científica” do que outra. O que me chama a atenção é o uso abusivo de termos tais quais “fato científico” e, no caso dos tomates, da afirmação “está provado cientificamente”. Será que tais afirmações procedem? O que é a ciência, afinal de contas? Poderia ela ser mais do que uma palavra da moda? Se sim, a ciência tem limites ou revela alguma verdade absoluta que a Filosofia sempre procurou e nunca conseguiu encontrar?

INDUTIVISMO – A CIÊNCIA DERIVADA DA EXPERIÊNCIA

Mesmo que você não seja fera em matemática, muito provavelmente você sabe que o número 1, se elevado ao quadrado, é igual a 1. E que se elevarmos 1 à potência de 8, ainda assim o resultado será 1. E quanto é 1 elevado à octagésima-nona potência? Não precisa usar a calculadora, a resposta é 1! Bem, você não vai ficar surpreso se eu disser que 1 elevado a um milhão, oitocentos e dezessete mil, quatrocentos e nove é igual a… 1! Temos então, por indução, que o número 1, se elevado a qualquer outro número, será sempre 1. Eis uma verdade incontestável (pelo menos por enquanto!).

Desenhe trinta triângulos diferentes, e você perceberá que a soma de seus ângulos internos será sempre igual a 180 graus. Desenhe mil triângulos, oito milhões de triângulos, e você jamais, sob hipótese alguma, encontrará algum cuja soma dos ângulos internos seja menor ou maior do que 180 graus. Temos outra verdade absoluta, ainda que seja possível falarmos em triângulos que fogem a esta regra se sairmos da geometria euclidiana. Mas dentro dos parâmetros da geometria euclidiana é impossível falarmos em triângulos com 4 lados, por exemplo, ou com ângulos internos que, somados, tenham 420 graus.

O raciocínio indutivo, portanto, é perfeitamente aplicável à matemática. A matemática é uma ciência exata. E é a única ciência que merece este epíteto.

“Como assim?”, você pode perguntar. “E a Física? E a Astronomia? E a Geofísica? Que eu saiba, pertencem ao ramo das ciências exatas!”.

Pois é, você está certo, pertencem, e quem lida com Física ou Astronomia tem que usar muito cálculo, aplicar muita matemática. Mesmo assim, nem a Física e nem a Astronomia são ciências exatas, de modo que a inserção destes saberes como “ciência exata” é muito mais um lance político do que algo real. A matemática é caso único, conforme já expliquei. A Física e a Astronomia são ciências naturais, ciências observacionais ou empíricas, mas não possuem o grau de verdade absoluta que encontramos na matemática. Entra aqui um importante aparte: não é porque um saber se vale da matemática que podemos dizê-lo exato. Note-se que alguns pretendem que a Astrologia seja “mais científica” do que jogar runas ou Tarot porque a Astrologia utiliza cálculos matemáticos precisos. Aqui, temos uma enorme confusão entre instrumento e objeto de estudo. Tanto para a Física quanto para a Astronomia ou mesmo para a Astrologia, a matemática é um recurso, é um instrumento, não é objeto de estudo. O objeto de estudo da Física e da Astronomia é a natureza, e o da Astrologia é o comportamento humano e, para muitos, a previsão do futuro.

E antes que os céticos entrem em trabalho de parto pelo fato de no último parágrafo eu ter juntado Astronomia, Física e Astrologia no mesmo balaio, peço que lembrem que o texto ainda não chegou ao seu final… E há muitos posts pela frente, ao longo dos próximos dias!

Voltemos à questão do indutivismo. Conforme abordei, o indutivismo é perfeitamente aplicável na matemática. Ele também se aplica às ciências naturais (e às humanas, às biológicas), mas com um grau muito maior de limitação. O indutivismo matemático pode usar e abusar do termo “todos” e da frase “está provado que”. Qualquer outra ciência que não seja a matemática não pode fazer o mesmo e, se o fizer, será delírio e pretensão.

O indutivismo limitado que utilizamos na Física e na Astronomia nos é suficiente, mas incorre na utilização do termo “muitos” (ao contrário de “todos”) e “até o momento, sabe-se que” (ao invés de “está provado que”). Nós sabemos, por exemplo, que organismos vivos são baseados em carbono, mas não podemos dizer que “todos” os organismos vivos são baseados em carbono, simplesmente porque… não conhecemos todos os organismos vivos! Isso é meio óbvio, mas tem gente que esquece!

No indutivismo aplicado à natureza, às relações humanas e a qualquer coisa que não seja matemática, começamos com observações e, a partir de observações, organizamos modelos e fazemos afirmações. Eis algumas afirmações como exemplo:

Astrônomo diz: planetas se movem como elipses em torno de suas estrelas.

Astrólogo diz: se Júpiter estiver dignificado no Meio do Céu e formando aspectos harmoniosos, o indivíduo será alçado à fama.

Médico diz: pessoas que fumam muito estão muito mais sujeitas a desenvolverem câncer no pulmão.

Físico diz: um corpo, uma vez posto em movimento, manterá eternamente seu movimento a não ser que seja interrompido pela ação de outro corpo.

Chef de cozinha diz: feijoada é um prato indigesto se ingerido logo antes de dormir.

Matemático diz: os ângulos internos de um triângulo euclidiano, se somados, resultarão em 180 graus.

A vovó diz: leite com manga faz mal!

O indutivista se pauta na “observação em grande número”. E é aqui que a porca torce o rabo! Vejamos o caso dos astrônomos: eles viram todos os planetas que existem no Universo? Não, né? E quanto aos astrólogos? A afirmação de que Júpiter num estado X torna as pessoas famosas se pauta em quantas pessoas observadas? E mesmo que fossem milhões de pessoas observadas, seria prudente afirmar que todas as pessoas se tornariam famosas em suas áreas? Quem garante? Médicos não podem afirmar que todo fumante desenvolverá câncer pulmonar. E entramos no terreno da Física que, não tendo o conhecimento eterno (ninguém viveu eternamente pra saber, e o tempo ainda não acabou), pode apenas supor que, muito provavelmente, a segunda lei de Newton é uma lei. Mas pode ser que não seja. Pode ser que a segunda lei seja assim:

“Todo objeto, uma vez posto em movimento, manterá seu movimento – se não for interrompido por outro corpo – por noventa bilhões de anos e então, subitamente, se desintegrará.”

Poderemos encontrar pessoas que não sofrem de indigestão ao comer feijoada antes de dormir (Hommer Simpson pode ser um bom exemplo), e a vovó pode estar simplesmente errada, afinal ela provavelmente nem observou de fato se leite com manga faz mal, e está simplesmente a repetir o que ouviu da avó de sua avó. Dentre todas as afirmações acima elencadas, a única que está indubitavelmente certa, absolutamente correta e impossível de ser contradita é a afirmação do matemático.

Chegamos então à essência da proposta indutivista: a partir da observação em grande número, estabelecer uma verdade geral. E é aqui que temos um problema sério: como podemos justificar verdades absolutas a partir de evidências limitadas, obtidas a partir de um número limitado de observações? A resposta é simples: não podemos, pois “observação de um grande número” não significa “observação de tudo”. Mesmo assim, o fazemos. E não há problema algum em fazê-lo, contanto que aquele que pretende que seu saber seja “científico” pelo método indutivo tenha senso suficiente de limite para saber que está falando acerca de uma verdade válida, uma verdade provável, até mesmo uma verdade muito provável. Mas exata? Indubitável? Absoluta? Nem em sonho! O indutivismo só funciona perfeitamente para a matemática porque a matemática utiliza conceitos apriorísticos. Todas as outras ciências e saberes se valem de conhecimentos a posteriori.

Até certo ponto da história da humanidade, conhecíamos apenas cisnes brancos. Para todos os lados que os naturalistas olhassem, encontrariam apenas cisnes de cor branca. Uma verdade então foi estabelecida: “todos os cisnes são brancos”. Mas um bom cientista, tendo noção de suas limitações, teria dito melhor: “até onde foi observado, todos os cisnes são brancos”. Este cientista teria sido mais feliz, uma vez que, após a descoberta da Oceania, constatou-se que existem, sim, cisnes negros.

Se a lógica indutiva é possível para todos os ramos do conhecimento, então todos os ramos do conhecimento poderiam ser considerados “ciência”. Até porque, note-se que o indutivista jamais estabelece o que significa “observação em grande número”, tal exigência é por demais subjetiva. Quando um tarólogo joga cartas e diz que “sempre que o Arcano 16 surge, grande desapontamento advirá”, ele está fazendo uma afirmação que se fundamenta em sua própria experiência observacional. Se ele observou isso trinta vezes ou duas mil, ou mesmo um milhão de vezes, qual o número adequado para dizermos que algo é “verdade”? Ninguém define isso, afinal! E é por isso que quase nenhum cientista oficial considera que é a lógica indutiva que torna algo “científico”. Quando chegarmos nos textos sobre falsificacionismo, isso ficará mais claro.

A questão indutivista não se encerra aqui. O indutivismo tem subvariantes: sua versão “ingênua” e sua versão “tosca”. No próximo post, abordarei algumas versões “toscas”, nascidas especificamente de algumas interpretações da Psicologia e da Astrologia, até para que você que porventura é psicólogo ou astrólogo tome cuidado para não decair na versão tosca do indutivismo. Físicos em geral não incorrem na versão tosca, mas ainda assim são vítimas do indutivismo ingênuo.

Até lá! Muito provavelmente escreverei mais sobre isso, mas como eu não sou um conceito matemático não posso afirmar com 100% de certeza.

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