Pensando a ciência – parte 2 – Internet não é revolução científica!
Por conta do post de ontem, recebi alguns e-mails pedindo que eu explicasse melhor as razões de não podermos classificar a internet como uma revolução científica. De fato, no último post eu apenas introduzi a questão e não entrei no mérito de explicar o que, afinal, é uma revolução científica. Esta questão exige maior aprofundamento, mas não vejo por que não abordar a questão da internet com certa antecedência.
Vale salientar que não existe apenas uma grande revolução científica, nem existe uma que possamos chamar de “maior”. Só que revolução científica é totalmente diferente de progresso científico. A internet é um progresso científico, um progresso tecnológico, mas não é uma revolução científica. Poderíamos até dizer que a internet desencadeou uma revolução social, o que é bem diferente de falarmos em revoluções da ciência.
Você poderá dizer que a internet desencadeou grande mudança em sua vida. Ela mudou drasticamente a minha vida também, talvez até mais do que a de muitos de vocês – lembrem que eu sou uma pessoa idosa de quase 40 anos, que venho de um mundo em que não existia nada parecido com a internet. Até 1996, eu tinha um estilo de vida e passei a ter outro totalmente novo por causa das possibilidades ampliadas de comunicação e informação que os computadores e as redes virtuais forneceram. Mas o fato de a internet causar revoluções nas vidas das pessoas não significa que ela seja uma revolução científica, e sim que ela é um agente de revoluções sociais, pessoais.
Revolução científica, conforme é compreendido não só pelos filósofos da ciência como pelos próprios cientistas-não-filósofos, representa uma notável mudança na estrutura da própria ciência. A internet não causou mudanças na estrutura da ciência. Ela na verdade resulta da aplicação de modelos científicos já vigentes. Ela, a internet, é o resultado de um substancial progresso da técnica, mas progresso não é sinônimo de revolução. O fato de a internet ajudar a divulgar a ciência não é uma revolução científica, é apenas um avanço das comunicações.
Dito de outra maneira: tudo o que a internet oferece já havia no mundo. As pessoas se comunicavam a longas distâncias, recebiam informações de lugares longinquos etc. O que mudou foi a forma e a velocidade como essas coisas passaram a ser feitas. Ou seja: um progresso tecnológico que desencadeou uma revolução relacional. Mas não uma revolução científica.
Revoluções científicas envolvem quebras de paradigmas, modificações radicais na forma de ver o mundo. A revolução copernicana é um exemplo de revolução científica: pensava-se que a Terra era o centro do Universo, e eis que de repente, não mais que de repente, fomos reduzidos a um mero mundo dentre tantos outros orbitando o verdadeiro centro, uma estrela chamada “Sol”. O darwinismo é outra revolução científica, assim como a mecânica quântica. Uma possível grande revolução científica se dará nos próximos vinte anos, quando provavelmente demonstraremos que existe vida bacteriológica em Titã, Europa ou Encéladus, mudando o paradigma vigente que diz que a vida é algo raríssimo. Astrobiólogos apostam numa hipótese contrária: a atividade biológica é abundante no Universo. A vida inteligente, esta sim, é rara.
Por fim, devo lembrar que a única diferença substancial entre você ler o que eu escrevo neste blog e ter visto a propaganda dele no Orkut ou no Twitter é uma diferença de acessibilidade e de velocidade. Antes de 1997 você poderia ler o que eu escrevo, comprando uma revista, um jornal ou recebendo uma carta. Não há revolução científica contida em processos de “maior velocidade” ou “maior acessibilidade”. O que há, aqui, é um progresso referente a coisas que já existiam. Por mais mágico que possa parecer, por mais dinâmico e mais incrível que tudo isso se apresente, nada disso é uma “revolução científica”.
Literatura recomendada – “A Estrutura das Revoluções Científicas” – Thomas Kuhn, ed. Perspectiva.
Outubro 19, 2009 at 4:49 pm
Só posso concordar com você e elogiar seu estilo despojado e objetivo de escrever.
Abraço.