A guerra nas entrelinhas

Ao final deste texto, se você acredita em astrologia vai continuar acreditando. E, se não acredita, vai continuar sem acreditar. Sobre este posicionamento pessoal da sua parte, não estou nem aí. Mas talvez você aprenda a derradeira lição: a VEJA não é uma mídia confiável. Ela tem objetivos ideológicos claros, e seu objetivo nem de longe é apurar os fatos, e sim produzi-los.

Ao longo da matéria especial sobre astronomia e astrologia desta semana, a edição de número 2201 da VEJA desaba para o sensacionalismo barato ao afirmar que a “descoberta” de um astrônomo norte-americano causou “uma revolução”, mudando o signo de todo mundo. De acordo com este astrônomo, Parke Kunkle, as constelações tiveram suas posições celestes alteradas ao longo dos séculos e, por conseguinte, ninguém é mais do signo astrológico que julgava ser.

Ora, o argumento é tolo por dois motivos que expliquei à exaustão para a jornalista Carolina Romanini, ao longo da última semana. Após diversos telefonemas, expliquei detalhadamente para ela o que irei expor neste artigo, mas todo o meu depoimento foi omitido. Devo salientar que não acredito que a jornalista em questão tenha agido de má fé. Ela me parecia verdadeiramente imbuída do desejo de saber a verdade dos fatos, caso contrário não me ligaria tantas vezes para tirar dúvidas meticulosas. Não nasci ontem, e sei muito bem o que significa escrever uma coisa e passar pela canetada da edição. Sei que ela estava imbuida do desejo de saber a verdade.

Vamos ao pontos focais do que transmiti à repórter que assina a matéria:

1. Parke Kunkle não está a dizer nada de novo. Que as constelações não ocupam a mesma posição de dois mil anos atrás, isso é sabido tanto pelos astrônomos quanto pelos astrólogos. Ele clama para si uma “novidade” que só tem “cara de novidade” porque a mídia resolveu que, bem, teria que ser “novidade”. Eis apenas uma das provas de que se trata de notícia velha e requentada, tão requentada que nem o titulo tem criatividade. A imagem comparativa que exponho abaixo, entre a Revista da Folha de 1995 e a VEJA de 2011, foi retirada do Twitter de Ivan Freitas após indicação de Elizabeth Nakata:

As memória pode ser curta, mas a internet guarda tudo!

Deste modo, entenda de uma vez por todas que a “descoberta fenomenal” de Parke Kunkle nada tem de “descoberta”, e obedece ao velho procedimento midiático de ressuscitar notícias velhas para causar polêmica. Como o próprio astrônomo Ronaldo Mourão declarou: “Não se deve confundir constelações zodiacais. De época em época surge essa discussão que não tem muito sentido. Não sei por que esse astrônomo Parke Kunkle da Sociedade Planetária de Minnesota resolveu levar a questão agora. Não será a falta de assunto? Ou desejo de se promover? Não se deve confundir astrologia com astronomia”.

[a declaração de Mourão foi dada para o jornal Extra, e pode ser lida no seguinte link: http://extra.globo.com/noticias/saude-e-ciencia/zodiaco-astronomos-afirmam-que-datas-dos-signos-estao-erradas-867027.html ]

Sim, Mourão está certo: a notícia é velha e não traz nada de novo.

2. Quer saber por que isso não muda nada para a astrologia? Porque signo astrológico não é constelação, nunca foi! A astrologia ocidental considera signos tropicais, e não siderais. Algumas constelações celestes levam o mesmo nome dos signos do zodíaco, mas os signos zodiacais estão na Terra, e não no céu.

Isso mesmo! Na Terra!

Pra você entender melhor, vamos falar do quadrivium. Este era o nome dado ao conjunto de matérias ensinadas nas universidades medievais na fase inicial do percurso educativo. As 4 matérias eram a geometria (estudo do espaço), a aritmética (estudo do número), a astrologia (aplicação do estudo do espaço) e a música (aplicação do estudo do número). Se você for pesquisar, lerá em alguns lugares que a astronomia era uma das matérias do quadrivium, mas isso não é verdade. O termo “astronomia” nem existia naquela época. Astrologia e aquilo que conhecemos como astronomia eram então uma coisa só.

O que importa, aqui, é compreender que a astrologia era a aplicação da geometria. E o que é a geometria senão o estudo das medidas da Terra?

Signos, portanto, são projeções da eclíptica terrestre, divididos em doze setores iguais e imutáveis. Para um signo astrológico mudar, seria preciso que a Terra saísse de sua órbita – e, caso isso ocorresse, a última coisa com a qual nos preocuparíamos seria com astrologia, astronomia ou com a revista VEJA.

Tudo isso foi explicado à jornalista Carolina Romanini, conforme testemunhado pela advogada Daniela Schaun, que se encontrava ao meu lado durante toda a minha conversa telefônica. Digo isso porque caso seja desmentido que eu disse o que estou expondo aqui, testemunha é que não falta. Resta saber por que tudo o que eu disse foi supinamente ignorado. Talvez por desfazer a fantasia de “noticia sensacional”? Quem vai saber?

Pronto. Quer continuar a acreditar em astrologia? Seu signo não mudou, não se preocupe.

Quer continuar a NÃO acreditar em astrologia? Tudo bem, mas fundamente suas críticas em algo que não tenha a ver com este lance de constelações e signos. Esta crítica é furada e apenas expõe ignorância sobre o tema que você critica. Repito o que sempre digo: a astrologia, como qualquer outro conhecimento humano, é passível de crítica. Mas critique direito, estude pelo menos um pouco o tema sobre o qual você quer tecer críticas, caso contrário suas palavras apenas exporão sua profunda ignorância histórica.

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24 Comentários em “A guerra nas entrelinhas”

  1. Carlos Leite Diz:

    Eu, como um bom cético, não acredito na revista Veja :)
    Também já tive entrevista para a Veja totalmente desvirtuada, porém ao lado da minha fotografia, como se eu endossasse o texto deles…


  2. [...] Para ler o texto, clique no link ao lado ou na imagem acima: A guerra nas entrelinhas [...]

  3. edmundodantê Diz:

    Penso q o q ocorre com a Veja é comum as midias q são dirigidas a um publico específico.É feita para agradar os assinantes.Então o editor concluiu q os assinantes preferem uma opinião de astrônomo do q a de um astrólogo sobre a astrologia.É uma questão economica e não de sinceridade intelectual científica.A Veja não é a Nature magazine.
    Não é uma revista científica [u]neutra e imparcial[/u].
    Pensando melhor,acho q nem a Nature é…

  4. edmundodantê Diz:

    –Taí uma excelente oportunidade de desfazer um malentendido sobre a astrologia.Basta enviarmos imeious (e-mails)explicando a confusão entre astronomia e astrologia. E pronto: acaba este mal estar…
    Alguém sabe como conseguir a lista de assinantes da Veja ?

    • devir Diz:

      A lista de assinantes da VEJA deve ser informação privada deles, de todo modo não creio que seja para tanto. Há vários outros veiculos da imprensa dirimindo este mal entendido que a VEJA fez o favor de insuflar.


  5. Ainda bem que eu não sou “ninguem” e jamais seria procurada por esta revista, que, aliás, não leio nem em consultorio de dentista.
    Quem pensa, não acredita na Veja, quem não pensa, este é o problema…

  6. Diva Diz:

    Genial, como sempre, o seu texto. Compartilhando no Facebook.
    Abraços,
    Divani

  7. Leonardo Lemos Diz:

    Olá Alexey! Como astrólogo profissional aqui em Santos, tenho recebido N perguntas e tudo mais a respeito do tema. Posso divulgar o link no meu Facebook?
    Obrigado e parabéns pela (santa) paciência!

  8. Solariswb Diz:

    Cansei de ficar pê da vida com a imprensa. Como médico homeopata, terapeuta floral, médico antroposófico, vejo constantes ataques da indústria químico-farmacêutica, cientistas, alopatas, astrônomos, jornalistas folgados e preconceituosos… O negócio é ignorá-los! São ninguéns a serviço da mentira e da calúnia encomendada.

  9. Mariana Diz:

    Cara, muito bom!

    Como sempre a VEJA dando show de “peleguice”!
    Essa é a mesma posição que tomam quando o assunto é “aquecimento global”!

    Lamentável, o pior de tudo é que esse tipo de revista fomenta discussão feita pelos pseudo cientistas!

  10. Marcelo Araujo Diz:

    Deste que a imprensa passou a existir vem causando imuneras controversias, na realidade o que se vende são informações muitas das vezes distorcidas para atizar as pessoas a comprarem jornais, revistas, tabloides e coisas do genero, a verdadeira essencia as informações não são posta, pois muitos gostam de ler tragedias.

  11. edmundodantê Diz:

    É verdade Alexey,violar esta lista privada poderia até ser usado contra a astrologia.Mas não querendo iniciar uma guerra nas estrelas, e sim algo q esclareça o real significado dela,enso q se poderia construir uma texto refutando palavra por palavra desta reportagem em revista de circulação nacional e da qual muitas pessoas formadoras de opinião lêem.
    Inclusive esclarecendo pro pessoal de astrofísica da USP q também não deve concordar em se misturar dois sistemas de conhecimentos diferentes e com efemérides distintas embora os planetas sejam os mesmos.Não sei se é trabalho de uma pessoa sozinha ou de um grupo ou da CNA…o de se organizar uma passeata… além seu blog já é um contribuição importantíssima.

  12. edmundodantê Diz:

    Assim como “antigamente” horoscopos de midia impressa eram feitos por “não astrólogos”, esta reportagem da Veja foi feita por um “não astrólogo”.
    Assim como as críticas a aquele filme noemia, q ganhou palma de ouro de Cannes,foram feitas por “não críticos”,e sim jornalistas q precisavam da reportagem e recopiaram de outras revistas…
    É um circulo vicioso da mídia…e a gente cai nele…

  13. edmundodantê Diz:

    Eu lí mensagens no Yahoo groups da CNA sobre esta questão polêmica.E não vejo outro tema mais relevante do q este para tema do circuito da CNA.Há q se esclarecer ao publico leigo e até aos astrólogos iniciantes q a separação da astrologia e da astronomia não fez com q a primeira fosse invalidada.Ou q virasse superstição e pseudociencia ou crendice baseada na fé.Mas vê-se q é uma discriminação intencional e preconcituosa da Veja.

  14. Iara Diz:

    Só li a matéria da Veja essa semana, pois esperei que a revista ficasse disponível online para poder ler. Nem trazendo um assunto de meu interesse eu compraria a revista. Sou professora e estudante de astrologia. Fiquei sabendo da matéria através desse blog e venho aqui endossar a indignação expressa pelo post e demais comentários.
    Ao ler a matéria, fiquei o tempo todo me perguntando: a serviço de quem eles estão? Qual o propósito em divulgar tanta bobagem e reduzir a astrologia a mera crendice popular? E mesmo que pudesse ser considerada como tal, que direito eles têm de demosntrar verdadeiro desdém por uma área do conhecimento digna de muitos estudiosos e acreditada por tantos? No Brasil há, pelo menos teoricamente, liberdade de culto e credo, de modo que nenhum jornal ou revista poderia criticar abertamente qualquer religião. A astrologia não é crença nem religião e por isso mesmo parece estar desprotegida de qualquer lei que impeça a imprensa de tratá-la como crendice sem fundamentos.
    Mas o pior fica para o final. A reportagem é encerrada com “chave de ouro” ao afirmar que a astrologia ajuda “(…)a confortar os feridos e solitários com a sensação de que uma estrela seria capaz de curá-los com sua luz e de guiá-los(…)”. Eu gostaria de saber em que “olimpo” vivem os responsáveis pela revista para desdenhar dos “feridos e solitários”. Oras, quem nunca se sentiu assim que atire a primeira pedra! Numa sociedade onde se vendem antidepressivos como água quem pode usar esse tipo de argumento?
    Ignorância sobre o assuto abordado, falta de ética e de propósito norteiam matérias como essa numa das revistas mais lidas pela elite desse país. Pena.


  15. A Veja ataca o que quer quando quer, pois é assim que vende. Ainda há poucos meses o alvo era a doutrina do Santo Daime, de outras vezes ridicularizaram os cultos afro… Interessa vender, formar consumidores e negar tudo que sai desta lógica

  16. edmundodantê Diz:

    Há algo importante a ser esclarecido:Há sim pessoas q sinceramente estão confusas entre signos astrológicos e as constelações astronômicas.E a atitude correta é dar uma explicação didática.Mas há pessoas (editores da Veja)q propositalmente manipulam as informações (omitem)segundo os próprios interesses e piblicam falsas conclusões (sofismas)e induzem outras pessoas (leitores)a acreditarem nestas conclusões equivocadas.Mas qual atitude tomar contra a discriminação, menosprezo,malícia e maledicência ?
    Só um esclarecer didático não será suficiente.
    E há q se separar bem a duvida sincera da confusão intencional.

  17. edmundodantê Diz:

    Penso q a diferença seja entre o cético verdadeiro e o pseudo-cético pois este está preso a seus preconceitos e fechado a novas conclusões. No caso dos editores da Veja compreende-se q há o interesse mercadológico de fidelizar assinantes.E as conclusões devem agradar a maioria destes leitores.
    A Veja não é uma revista científica.Inclusive com o deslise ético de plagiar a scientific-america magazine.

  18. Marok Diz:

    Seus sem-graça!
    Eu tinha adorado mudar de signo, já estava mais criativo e comunicativo. Agora, com essa contr-informação, vou ter que voltar a ser tímido.
    Já estava até pensando em mudar de profissão…

  19. Phill Diz:

    Acho a revista VEJA o que há de pior no jornalismo brasileiro. Ela foi desrespeitosa com os astrólogos e profundamente cínica em sua propaganda claramente contra a Astrologia. E onde fica a tolerância? Cadê a democracia, a liberdade de pensamento?

  20. EdmundoDantê (no orkut) Diz:

    Astrologia não é crendice, nem religião e nem ciencia.
    É tecnologia,pois não depende da fé e nem explica como funciona, apenas funciona.Descreve o ser humano conectado ao céu.É uma constatação prática, assim como a gravidade…q há há. mas nem a ciencia consegue explicar de q é feita a tal energia gravitacional…seriam os grávitons ?


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