União homoafetiva, STF e “pecado”

Não escrevo para os que concordam com a decisão do STF de reconhecimento das uniões homoafetivas, mas para aqueles que discordam. Não faz, afinal, muito sentido tentar convencer quem já concorda. O que me interessa, aqui, é fazer algumas considerações a partir das principais argumentações de quem não gostou da decisão do STF.

Para isso, partirei do principal argumento, que é religioso: tais relacionamentos seriam “pecado”. Em momento algum pretendo convencer o leitor de que relacionamentos homossexuais não são pecado, não é isso o que se pretende discutir aqui. Deste modo, fazendo um exercício de imaginação, admitirei as seguintes afirmações como sendo corretas:

1. Deus existe, a partir de uma perspectiva cristã.

2. A vontade de Deus se revela através do livro chamado “Biblia”.

3. Por conta das instruções contidas na Biblia, lideres religiosos cristãos sabem qual é a vontade de Deus.

Não creio que seja profícuo, aqui, discutir se deus existe ou não existe, se a visão cristã acerca de deus está ou não correta, se a Biblia é realmente a palavra deste deus ou se não é. Isso é assunto pra outro momento, além de ser discussão que vai muito além da decisão do STF.

O que me parece espantoso, dentro do universo de alguns indivíduos religiosos, é que o suposto pecado do relacionamento homossexual assuma proporções imensas, em detrimento de todos os outros “pecados” que existem. Alguns pastores dedicam seu tempo quase que exclusivamente a combater este pecado (o que me parece muito sintomático).

Por vezes, o proselitismo coloca tais pastores contra seus próprios confrades. Ontem, após a decisão do STF, o pastor Silas Malafaia fez chover uma saraivada de acusações contra pessoas que partilham de sua fé religiosa. Acusou-os de “não fazer pressão suficiente” através do Twitter. O fato é que, à parte Malafaia e alguns gatos pingados, muitos expoentes do cristianismo pentecostal pouco se lixaram para a decisão do STF, partindo de um princípio muito simples: não é a existência de leis que faz as pessoas se voltarem para deus (ou para aquilo que eles entendem como sendo o chamado de deus). É o que se passa no coração desta pessoa. Vejamos o que argumentou a cantora gospel Ana Paula Valadão, após ser acusada de “omissão” por Malafaia. Disse ela, no Twitter:

Avivamento, a volta de uma pessoa ou de uma nação para Deus e Seus princípios, a meu ver não é algo que aconteça de cima para baixo… Podem haver leis proibindo isso ou aquilo e as pessoas continuarem na prática de pecado. Creio que o avivamento vem de baixo para cima, e a mudança ou estabelecimento de leis segundo os padrões de Deus serão consequência do que se passa numa sociedade em avivamento, que quer Deus. Mais do que querer mudança ou impedimento de legislação, de cima para baixo, clamo por mudança do coração das gentes, da nação, de baixo para cima. Por exemplo, se as pessoas temerem a Deus não abortarão seus bebês, ainda que haja uma lei a favor do aborto.”

Me parece que Ana Paula Valadão compreendeu sua religião melhor do que o pastor Malafaia. Enquanto este pretende impor suas crenças a todo um grupo de pessoas que provavelmente sequer partilha delas (ou, pelo menos, não do modo como ele entendeu), Ana Paula compreende a fé como um processo pessoal, e aquilo que ela chama de “avivamento” ou revelação é um processo íntimo, um movimento estritamente pessoal, que não se impõe ao outro. Sobre isso, o filósofo Agostinho de Hipona, um dos principais pensadores cristãos, já disse bem: a fé é uma graça, e as graças vêm de deus. De nada adianta exigir do outro uma fé que ele não tem, pois será uma falsa fé. Malafaia, pelo visto, não leu Agostinho, e não leu direito a própria Biblia que diz professar. Declarou ele, no Twitter: “Avivamento não é uma ação sobrenatural de Deus independente da nossa acao“. Errado. A revelação, se considerarmos o que professa a fé cristã, é algo que vem de deus, se ele quiser.

No entender de Malafaia, impor suas crenças a toda uma população é o que deus espera dele. Ele tem todo o direito de manifestar sua contrariedade, e é o que faz, continuamente. O problema é que Malafaia demoniza quem pensa diferente, e depois reclama quando é demonizado de volta. Quer dizer: ele solicita que Ana Paula Valadão faça pressão. Ela se recusa a obedecê-lo. Então ele tem a pachorra de acusá-la de não agir como uma “verdadeira evangélica”. O que podemos concluir é que ser um “verdadeiro evangélico” é fazer o que ele, Malafaia, quer. Que eu saiba, ser um verdadeiro evangélico é agir conforme deus determina em seu coração. E, para Ana Paula Valadão, ela pode contribuir para o bem do mundo de outro modo. Independentemente do meu ateismo, me parece que Ana Paula confia em deus mais do que Malafaia…

Mas deixemos o Arauto da Verdade pra lá. Vou considerar que você pensa por si próprio, a exemplo de Ana Paula Valadão.

De acordo com o IBGE, há mais de 60 mil casais formados por pessoas do mesmo sexo em nosso país. Não creio que seja fantasioso da minha parte imaginar que o número é bem maior, considerando que muitos indivíduos devem ter declarado que vivem com seu “primo” ou “prima”, ou com “um amigo(a)”. Se você acha que o reconhecimento destes casais por parte do STF é um erro, ainda assim não pode ignorar o fato de que, mesmo que o STF não reconhecesse tais casais, eles continuariam a existir.

O reconhecimento do STF, portanto, não deveria ser encarado como uma “afronta teológica” ou uma “ofensa aos cristãos”. Se você acha que um casal – que muitas vezes nem cristão é, ou seja, nada tem a ver com sua vida e sua religião – te ofende ou ofende a deus, a “suposta ofensa a deus” já existia. O STF não está preocupado com a religião alheia. Está preocupado em dirimir injustiças, e legisla a partir de argumentos laicos. Argumentos laicos não são “argumentos ateus”. São argumentos que não se pretendem atrelados a esta ou aquela religião.

Passemos a duas histórias reais, cujos nomes foram alterados. Começo com a história de Luciana. Após ter se revelado lésbica, Luciana foi execrada por sua família, palavras duras foram trocadas e nunca mais a garota sequer ouviu falar de seus pais e irmãos. Foi expulsa de casa. Neste ponto, muita gente se choca, acham que é fantasia que uma família rejeite um filho, mas isso não é nada incomum. De ontem pra hoje, colecionei declarações no Twitter: “se meu filho se declarasse homossexual, eu o expulsaria de casa”. Em alguns casos, esta ameaça é feita da boca pra fora. Em outros, é real. Eu diria que é um presente ao filho: ele se liberta de uma família que o ama condicionalmente e está livre para criar seu novo núcleo familiar, com entes queridos que, apesar da ausência de laços de sangue, o amem como ele é. O curioso – pra não usar termos piores – é que estes familiares que execram seus filhos costumam aparecer do nada após uma eventual morte ou doença incapacitante, com o intuito claro de se beneficiar materialmente. Isso não lhe parece pecado, não lhe parece injusto? O STF não pode legislar sobre os corpos dos cidadãos, não pode impedir que pessoas estabeleçam conjunções carnais homossexuais, mas pode evitar injustiças e rapinagem patrimonial.

Continuando: Luciana conheceu Márcia, por quem se apaixonou e foi correspondida. Mantiveram relacionamento estável por doze anos. Construíram uma vida em comum, o que inclui o patrimônio. Luciana tinha um apartamento em seu nome, Márcia tinha uma casa de praia. Eis que uma fatalidade ocorre: Luciana morre num acidente de carro. Mesmo que você ache que a relação entre as duas era “pecaminosa”, tente ser justo: de quem deveria ser o apartamento de Luciana? De sua companheira, que dedicou grande parte da vida a colaborar na construção deste patrimônio, ou da família que a renegou? Pois a família biológica, que renegou Luciana e sequer apareceu enquanto ela estava internada na UTI, surgiu do nada depois de sua morte, e herdou todos os seus bens materiais. Márcia teve que lutar para provar que muitos dos móveis do apartamento tinham sido comprados por ela, e não por Luciana. Lhe parece justo?

Se suas convicções religiosas – sejam elas quais forem – ainda não lhe permitiram enxergar a injustiça desta circunstância, criarei outro cenário: e se Luciana e Márcia não fossem amantes, mas apenas amigas muito próximas que moravam juntas e criaram patrimônio em comum? Mantendo amizade próxima, elas formariam um núcleo familiar fraterno, e isso deveria ser reconhecido. Você se oporia neste caso? Márcia não teria mais direito aos bens de Luciana do que a família que a execrou e em nada colaborou para a construção deste patrimônio? Porque o que está envolvido é muito mais do que o reconhecimento de apenas casais homossexuais como um núcleo afetivo. O que está envolvido na decisão do STF é o reconhecimento do conceito de “família” como algo muito mais amplo. E esta ampliação do entendimento não influencia na sua família, que você pode constituir do jeito que seu coração, deus, o que for, determinar.

Se, para você, “família” significa um núcleo formado por marido, mulher e filhos, tudo bem. Não se pode fugir à verdade, contudo, que ninguém é impedido de se divorciar, ainda que isso seja considerado por alguns como “pecado”. A lei brasileira garante o direito ao divórcio.

Vamos a um caso mais drástico: Marcos, como Luciana, foi execrado por sua família biológica ao assumir sua orientação homossexual. Uniu-se ao namorado, André, com quem viveu por 35 anos. Certo dia, veio o diagnóstico fatal: Marcos tinha câncer em estado avançado, e apenas alguns meses de vida. André cuidou de Marcos, que terminou vivendo mais dois anos, até falecer. Assim como na história anterior, a família biológica que abandonou completamente o filho ressurgiu das cinzas, pleiteando todo o patrimônio que ele construiu junto com André. André só pôde ficar com aquilo que estava em seu próprio nome. De resto, a família biológica levou tudo, “fez a limpa”. Isso lhe parece justo?

Eu e minha irmã moramos juntos. Formamos um núcleo familiar, e por acaso temos laços biológicos. Mas ela poderia ser uma amiga, ou amigo, com quem eu teria ou não um relacionamento sexual. Isso constitui um núcleo familiar. Não é a biologia que determina familiaridade – e isso foi amplamente repetido pelos juízes no STF – e sim os afetos. Se estes afetos têm componente sexual ou não, isso não cabe ao STF legislar. Cabe, sim, reconhecer que pessoas que cuidam umas das outras precisam ter seus direitos salvaguardados.

Deste modo, espero que tenha ficado claro que o STF não “sancionou um pecado”. Afinal, se o voto fosse “não”, o tal do “pecado” continuaria a existir! Ao contrário, o STF está ajudando a impedir uma série de outros pecados: a usura, o oportunismo, a injustiça, só para citar alguns. De resto, se você estiver certo e deus existir, caberá a ele, e apenas a ele, julgar o que cada um fez de sua vida. Se você acredita mesmo em deus, confie nele. Revoltar-se é duvidar que tudo o que ocorre, ocorre segundo sua vontade. O incréu aqui sou eu, e não você.

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14 Comentários em “União homoafetiva, STF e “pecado””

  1. RUBENS Diz:

    Mais historinhas.

    As historinhas começam quase iguais, mas vamos a ela:
    - o rapazinho conta pra mãe que é gay, a mãe conta pro pai e o pai enfurecido, com o apoio da mãe, expulsa o rapazinho de casa.
    - vários meses depois, o rapazinho, andando na rua com amigos, no bairro onde vivia com os pais, ouve um amigo contar as maravilhas de seu parceiro sexual recorrente.
    - o parceiro sexual recorrente do amigo era o pai do rapazinho expulso de casa.

    Causas e causos.

    • CWR Diz:

      Realmente Rubens, o que existe de Senhores “Heterossexuais” casados, pais, avós, e etc que frequentam saunas gays (inclusive ostentando suas alianças douradas de casados) para ter relações com boyzinhos ou outros clientes, e muitos, como vc menciona, que tem casos homossexuais a anos, não está no gibi. Conheço vários, mas vááááários casos mesmo!!!


  2. É uma pena, mas me parece que a maioria das pessoas, que sustentam o tipo de discurso contra o qual você argumenta neste texto, sequer se dão ao trabalho de enxergar qualquer coisa que seja de uma perspectiva diferente da própria. É difícil fazer alguém, que se recusa a pensar, refletir a respeito de algo.

    Gosto muito dos seus textos, sempre acompanho seu blog. ^^

    Abs.

  3. Ivone Diz:

    Adorei o texto. Muito claro e objetivo.

  4. anônimo Diz:

    Você se engana ao dizer que o principal argumento é a questão do pecado, não é preciso ir tão longe.

    Essa aprovação não passou no Congresso Nacional, e este simplesmente foi atropelado, através de uma atitude ditatorial do STF, contrária à vontade do povo e de seus representantes.

    Mas essa atitude ditatorial, benéfica as duplas gays, os fazem bradar: que se dane a constituição! O seu artigo escapa do ponto legislativo e tenta entrar num campo teólogico do qual o teu conhecimento é extremamente rasteiro.

    Segundo, casamento, por definição, se refere a pessoas do sexo oposto.

    Se vo

    E o fato da maior parte da população brasileira ser contra a união civil de duplas homosexuais? Você fala tanto de intolerância religiosa mais o que mais salta aos olhos do leitor atento nas entrelinhas do texto é ódio aos evangélicos.

    • devir Diz:

      Não se trata de “principal argumento” para mim, e sim o principal argumento por parte de muitos pastores, como no caso do Malafaia. Ele não argumenta em cima dos pontos que você trouxe. Qual foi a parte do meu texto que você não entendeu quando eu anunciei que iria abordar o argumento do pecado?

      Preferia que a coisa fosse resolvida pelo Congresso Nacional mas, como este não se moveu, o STF agiu. Não desvie do ponto. Se eu quiser discorrer sobre os aspectos legais, sobre o problema de o Congresso Nacional não ter abordado esta questão, isso é OUTRO ponto, OUTRO post. O objetivo deste post é falar sobre pecado. Muito simples. E meus conhecimentos teológicos estão muito longe de ser rasteiros. Você, por exemplo, sequer contra-argumentou em relação a nada que escrevi. Simplesmente mudou de assunto. Quem está sendo rasteiro aqui?

      “Casamento por definição” – isso não existe, meu caro. As coisas só são “por definição” na matemática. Um triângulo, por definição, tem três lados. Um número primo, por definição, só é divisível por ele mesmo. Não existem “palavras por definição”. As palavras e seus significados sofrem evolução. Um triângulo sempre será um triângulo. “Casamento por definição é entre homem e mulher” só é aceitável enquanto dogma RELIGIOSO. Ninguém quer casar na igreja, meu caro. Estamos falando de direitos CIVIS.

      Quanto à maior parte da população SUPOSTAMENTE ser contra a união civil. Como você sabe que é a maioria? Você viu alguma enquete num site? Ou está chutando? E ainda que a maior parte fosse contra – desde quando o que duas pessoas fazem em suas vidas privadas diz respeito à vontade de uma suposta maioria?

      Ou seja: você sequer resvala por nada do que eu escrevi. Apenas muda de assunto. Que bobo.

      Não tenho ódio de evangélicos, nem vagamente. Este sentimento se dirige a pessoas especificas, que podem ou não ser evangélicas. O que você enxerga aqui é projeção sua.

      • anônimo Diz:

        Bem, você disse que o principal argumento que está sendo usado é religioso, eu apenas lhe trouxe o fato de as pessoas mais inteligentes não estarem nem entrando nessa questão, pois antes disso, houve um ato incostitucional.

        “como esse não se moveu, o STF agiu”.
        Epa! não é assim que a coisa funciona!

        Entrando na questão do pecado, eu concordo quando você diz que há um foco excessivo de alguns pastores na questão da sexualidade. Alguns parecem realmente obcedados com isso. Isso não tem nada de espiritual.

        Mas para quem vive dentro da cosmovisão cristã, o que está em jogo é a salvação das almas, e tomar posições firmes contra a insticionalização de algo que a população é majoritariamente contra (existem várias pesquisas indicando a rejeição em massa da união civil de duplas gays pela populacão, isso é um fato), não é nada absurdo. É um direito de defesa, de um povo religioso.

        Não vou entrar na questão do tal do estado laico aqui, se não a discussão vai parar muito longe.

        Olha, eu esqueci de apagar a parte que começa com “segundo, casamento…” saiu por desatenção minha.

        Nunca existiu uma palavra para designar “união” de pessoas do mesmo sexo na história humana.

        E casamento não deve ser a palavra escolhida. Pelo menos mudaram para “união homoafetiva”. O problema é que a união se dá apenas na introdução do órgão genital masculino na saída do tubo digestivo, as almas não se completam efetivamente, pois somente as naturezas feminina e masculina têm os elementos para formarem uma união espiritual real sob as graças de Deus.

        Mas você não aceita a realidade da alma, nem de Deus.

      • devir Diz:

        Amigo, estou perfeitamente ciente de que existem argumentos mais inteligentes contra a decisão do STF, mas repito: o meu objetivo aqui é desconstruir os argumentos imbecis de Silas Malafaia e alguns outros. Eu deixei isso claro desde o começo.

        Estou de acordo que essa decisão deveria ter sido tomada pelo Congresso, mas discordo que a atitude do STF seja inconstitucional. Este argumento é repetido à exaustão por Reinaldo Azevedo [e, note que mesmo ele, católico, se diz favorável ao reconhecimento de direitos civis para casais homossexuais]. Só que Azevedo ignora, ou parece ignorar, o artigo quarto 4o da Lei de Introdução ao Direito Brasileiro: “Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito.”

        Ora, a lei é omissa sobre direitos civis de pessoas constroem uma vida em comum, INDEPENDENTEMENTE DE SUA SEXUALIDADE. Falei sobre isso no texto: dois amigos que morem juntos, mesmo sem ter relacionamento sexual, se constroem um relacionamento fraterno e se entendem como irmãos, caso queiram optar por beneficiar um ao outro e não à familia biológica, deveriam ter este direito garantido. O que vemos, na prática, é uma lacuna legal que permite injustiças e descalabros. Esqueça por um minuto que pessoas do mesmo sexo transam entre si. Esqueça o sexo. Foque-se nos aspectos práticos e patrimoniais.

        Você fala em salvação das almas e diz que eu não aceito a realidade da alma, nem de deus. Não é bem assim, amigo. Eu considero perfeitamente a POSSIBILIDADE da realidade da alma e da existência de deus. Mas “considerar a possibilidade” não me faz crente, só não me faz obtuso, porque mesmo sem acreditar eu jamais seria tolo a ponto de “afirmar inexistência”. Mas não se pode legislar baseado numa crença inverificável.

        Você diz que nunca existiu uma palavra para designar “união” de pessoas do mesmo sexo na história humana. E daí? Isso não é um argumento razoável, é apenas insistência em preservar uma tradição. Muitas e muitas coisas nunca existiram na história humana, e passaram a existir. Você faz uso de medicamentos? Imagino que sim. O progresso não é exclusividade da ciência, ele age também sobre a lei. Você deve saber, por exemplo, que negros eram considerados “semoventes”, ou seja, entravam na mesma categoria que gado, e o casamento inter-racial era inadmissível até pouco tempo atrás. Os opositores ao casamento inter-racial também citavam a Biblia. Os opositores do divórcio também se pautaram em argumentos religiosos: “o que deus uniu, o homem não separa”. Os contra-argumentos atuais, sejam os mais inteligentes, sejam os mais toscos, são apenas repetições do mesmo.

        Não me incomodo em absoluto com o uso ou desuso da palavra “casamento”. Estou preocupado com a proteção patrimonial das pessoas. O reconhecimento social do afeto delas é feito por quem os amar. Mas devo dizer que não me oponho à adoção de crianças por casais homossexuais [nem Reinaldo Azevedo se opõe]. Acho um absurdo que crianças sejam largadas em orfanatos, quando podem ser adotadas. Via de regra, no Brasil, só adotam crianças brancas e bem novinhas. Casais homossexuais não se furtam a adotar crianças mais escuras e mais velhas – adotam o que ninguém quis! E ainda tenho um dado: a maioria dos casais homossexuais tende a adotar crianças do sexo oposto. Dois homens tendem a adotar uma menina, duas mulheres tendem a adotar um menino. Certa feita, perguntei a um casal de homens por que eles queriam adotar uma menina. A resposta me deu tristeza: “você sabe, gays são acusados de serem pedófilos, então achamos que pegaria menos mal adotar uma menina, assim ninguém vai ficar falando”.

        De resto, a sua afirmação no último parágrafo é de ordem metafísica. Você reduz a união entre pessoas ao ato da penetração sexual, como se a completitude das almas só pudesse se dar pelo contato carnal. Este argumento não tem validade jurídica, mas admito que tenha validade metafísica e, portanto, deve ser aplicado dentro dos limites da sua igreja. Você não pode obrigar um casal que não professa a sua fé a seguir os cânones da sua fé. É algo muito simples de entender, amigo. E, como eu disse no texto, mesmo que o STF não reconhecesse os direitos patrimoniais destes casais, eles continuariam a fazer sexo. Nada mudaria.

  5. Edmundo Dantê Diz:

    O lance de a igreja reprimir impulsos humanos(sexuais, afetivos), de privar o ser humano de sí próprio.Em nome do quê? De uma suposta organização social mais perfeita ? Não penso q relações homo sejam pecado, mas e se fossem ? O ser humano tem obrigação de ser santo ? O ser humano está pronto pra assumir uma atitude de santidade ?Eu concordo com o STF em aprovar essa nova lei. Corrige injustiças como demonstrado pelos 2 casos expostos.O STF só está adaptando a lei a uma situação já existente como é colocado por Alexey.

  6. EdmundoDantê Diz:

    Eu lí os posts de anônimo e argumentos de Alexey, e pensei: Esta nova lei é a constatação de q o estado tem controle econômico sobre a população ao corrigir injustiças sobre o patrimonio.Mas sobre as escolhas afetivas e sexuais não tem controle completo.E tava pensando também se essa aprovação não é uma jogada política: A presidente Dilma tava um decreto lei proibindo a união homo e ganhando uma enxurrada de votos em 2014…

  7. Altair Diz:

    Eu me pergunto sobre o real sentido do ser cristão. Ser Cristão significa seguir uma moral institucionalizada e meramente humana ou seguir os valores, ensinamentos deixados por Deus? Se ser homo é pecado também é dever do cristão amar e colher o pecador ja que cristo não veio para os sãos e sim para os doentes, não veio para os perfeitos mas para os imperfeitos. Deus ama o pecador, logo se Deus ama o pecador quem somos nós para julgarmos que o certo e errado? se você é cristão e segue os ensinamentos de Cristo tem dever de amar, de acolher e amar o homossexual. Maior pecado que ser homo, se é que é pecado, é você não amar.Quem não acolhe um homossexual não é cristão.

    • devir Diz:

      O que você expressa é condizente com a postura da Igreja Católica em geral, Altair. A orientação dos católicos é: “prática homossexual é pecado, mas não se deve agredir ou rejeitar quem peca”. Já o de muitos membros que se dizem evangélicos, homossexuais são pragas a serem eliminadas da sociedade. Evidentemente, nem todo evangélico pensa deste modo. Eu diria que não existe isso de “cristão versus gay”. Existe, pura e simplesmente, o seguinte: quem é contra a violência homofóbica e quem é passivo ou favorável a tal violência [parafraseando um amigo, que soltou esta frase no outro dia, e ele tem razão].

  8. Joyce Diz:

    Algumas vezes os comentários são extremamente longos (como o meu será agora), então vou tentar me ater ao que o “anônimo” citou ser inconstitucional e que me chamou a atenção: a união entre pessoas do mesmo sexo, já que a CRFB/88 regularia, EM TESE, apenas a união entre homem e mulher.

    Pois bem, se interpretarmos literalmente a constituição, encontraremos inúmeras coisas incoerentes com o objetivo dela. Por exemplo: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País [...]“. O legislador estava restringindo os direitos a brasileiros e estrangeiros com residência fixa no país, excluindo aqueles apenas em trânsito? Não, isso seria uma interpretação literal extremamente equivocada. Deve-se extrair da norma constitucional o que o constituinte desejava transmitir, mas esse conteúdo é muitas vezes exposto de forma que permite diversas interpretações, conforme a “preferência do cliente”. Daí surgem essas ideias equivocadas, aliadas a preferências particulares.

    O uso de “homem e mulher” foi meramente uma opção do legislador, possivelmente pelos costumes (ou a fachada, pelo menos) mais conservadora de 1988 do que de hoje em dia. E como o Direito está em constante modificação para acompanhar as mudanças de costumes da sociedade e atender às suas necessidades, nada mais natural do que o STF decidir em prol da união homoafetiva. Basta ter um pouco de sensibilidade, imaginar uma pessoa à beira da morte tendo que se preocupar se seu(ua) amado(a) terá onde morar, se passará necessidades. Cadê a misericórdia católica/evangélica/insira sua preferência? Não é preciso ter religião X ou Y, para ser capaz de se compadecer de uma situação dessas. E quanto ao “[...]as almas não se completam efetivamente[..]“, cabe ao casal dizer, não à uma pessoa de fora.

    Aliás, já que o anônimo citou a constituição, deixo aqui o inciso IV do art. 5º: “É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato.”

    OBS: Gostei³ dos seus textos, são muito bem articulados e não “atacam” nenhum dos lados, coisa que é bem rara hoje em dia. Justo na era da comunicação, as pessoas se comunicam pior do que nunca, mas parece que achei um oásis no meio do deserto (ignoro nesse comentário as observações de “leitores” que parecem não ter lido nada dos textos antes de criticarem).


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