Probabilidade de erro

Em minha última postagem, alertei para o fato de que estavam a espalhar material falso como sendo o material antihomofobia do MEC. Postei um link que mostrava o verdadeiro material, e comentei que não havia nada de errado ali. De fato, não há nada de “indecoroso”, mas pelo menos um dos vídeos parece escapar do objetivo do material: combater a homofobia.

Admito que tinha visto apenas três dos cinco vídeos do MEC, e fui na falsa confiança que a indução proporciona: se três estão bons, os outros dois também devem estar ok. Entretanto, quando assisti ao “Probabilidade”, pensei imediatamente: eis o pivô de todo este furdunço. Mas advirto: colocar toda a culpa do problema neste vídeo único é injusto. Por mais que os outros vídeos tenham qualidade técnica discutível, não se joga um cesto inteiro de maçãs no lixo porque uma delas estava um pouco estragada. Segundo notícias, a presidenta Dilma viu trechos do filme “Probabilidade” e resolveu vetar o material inteiro. Admito: se eu tivesse visto, também teria mandado vetar – não o material inteiro, mas este vídeo em especial. De todo modo, as notícias que nos chegam é que o material será refeito sem novo ônus. Fico feliz, pois tal material é muito importante em escolas. Não imagino este material “acabando com a homofobia no país”, mas é um bom passo.

Um dos argumentos mais recorrentes dos opositores ao PROJETO EM SI [entenda-se: que se opõem não a um vídeo ou outro, mas a QUALQUER material antihomofobia] é que a função de educar adolescentes é da família, e não da escola. Estou de acordo, em partes. Me parece que muita gente realmente se equivoca ao projetar para a escola e para o Estado a função educacional que cabe prioritariamente à família. Mas é delírio imaginar que um ser humano seja educado simplesmente por sua família. Ora, eu não sou mero produto da educação de meu pai e de minha mãe, longe disso. Nem eu, nem você. Somos educados pelos filmes que vemos, pelas camaradagens que fazemos, pelos livros que lemos, por nossas experiências fora do núcleo familiar. Nós somos bem mais do que o produto de nossos pais. A educação não é algo que se processa dentro de um núcleo protegido de modo que, fora de casa, nada nos afeta. A escola também tem responsabilidade no processo educacional de um adolescente.

E quanto ao Estado? Pois bem, a Constituição é clara: temos, todos, o direito ao estudo. E cabe ao Estado garantir as condições para que o estudo seja possível. Ora, o Estado deve garantir que crianças e adolescentes consigam estudar num ambiente onde exista segurança física e psicológica. Se um adolescente, por sua singularidade – seja lá qual for – não consegue frequentar o ambiente escolar em paz, um direito básico lhe está sendo negado. Daí a importância de materiais escolares antibullyig que sejam aplicados por professores bem treinados, num processo que envolve não apenas os adolescentes, mas também seus pais.

Sim, seus pais. Afinal, outro ponto que – me parece – está sendo esquecido é o seguinte: os pais têm responsabilidade jurídica pelos atos de seus filhos menores de idade. Estes pais têm que saber que existem coisas certas e erradas na convivência com outros seres humanos. É errado perseguir outra pessoa, pior ainda se o motivo for fútil. O pai tem que saber que será penalizado por eventuais agressões perpetradas por aquele adolescente que está sob sua responsabilidade.

Mas vejamos o video “Probabilidade”:

Vou me permitir avaliar o vídeo. Não, eu não me acho melhor que a UNESCO, que aprovou o vídeo. Mas tenho o direito de dizer o que acho. Além do que, dar a entender que algo que a UNESCO aprovou é indiscutível não passa de argumento de autoridade muitíssimo mal aplicado. Avaliando, portanto:

1. Um garoto supostamente heterossexual muda de cidade e faz amizade com um garoto gay.

2. Eles são alvos de chacota dos outros colegas, porque andam juntos – até aí, exemplifica o tipo de situação que realmente ocorre. Há pessoas que pensam que, por andar com homossexuais, serão alvo de humilhação pública. Se o vídeo tivesse explorado este ponto, teria sido excelente, mostrando que duas pessoas podem ser amigas, independentemente de suas preferências afetivas e sexuais.

3. O garoto supostamente hetero se percebe sentindo atração por outro garoto e dá um beijo nele.

INTERPRETAÇÃO NEGATIVA POSSÍVEL – o garoto hetero foi “contaminado” pela homossexualidade do amigo. Ou mesmo incorporou uma “homossexualidade de modinha” que, segundo muitos, ocorre por aí.

INTERPRETAÇÃO POSITIVA POSSÍVEL - o garoto não era tão hetero assim e se sentiu confiante para experimentar coisas que ele, no fundo, queria.

Então, o garoto sente atração por um homem num dia, por uma mulher no outro, ainda declara que “não é de se interessar por qualquer um” [imagine se fosse!].

O vídeo conclui com a questionável constatação de que ser bissexual é mais vantajoso, pois as chances de conseguir alguém aumentam, e ainda tece o comentário se valendo de um erro na expressão da probabilidade que qualquer pessoa com habilidade mínima para Exatas detecta facilmente. Ora, isso é meio apologético, sim! Além disso, qual o objetivo desta pequena novela? Não deveria ser falar sobre preconceito homofóbico? Pois o preconceito homofóbico no dito filme é abordado apenas por alguns segundos. Todo o resto do filme não passa de uma novelinha de um garoto movido pelo poliamor. Nada contra. Mas o objetivo do material é ser contra o bullying homofóbico. Desviou da proposta. Repito: não vejo nada de indecoroso nesta novelinha. Só não entendo onde está, no vídeo, o combate à homofobia. A duração exata de tempo de vídeo que trata de bullying é de trinta segundos. Num vídeo de mais de sete minutos? Fora de foco.

Totalmente diferente é o vídeo “Encontrando Bianca”, em que uma transexual conta as dificuldades que sofre para poder estudar num ambiente em que nem todas as pessoas a aceitam. Este vídeo, sim, trata da questão das dificuldades em sala de aula e é muito pertinente, pois transexuais costumam sofrer muito mais perseguições. Uma pessoa pode ser homossexual e ocultar sua singularidade. Já a transexualidade, por sua própria natureza, envolve transformações corporais que tornam o indivíduo exposto:

A ideia de que gostar dos dois sexos é vantajoso e aumenta as probabilidades de se dar bem é falsa. Falsa, porque qualquer bissexual do sexo masculino sabe que, quando sua bissexualidade é exposta, sua chance com mulheres diminui consideravelmente. Por alguma razão, ter uma namoradA bissexual parece ser a fantasia de 9 entre 10 marmanjos [inclusive de homofóbicos, posto que sua homofobia parece envolver apenas homem com homem, e não mulher com mulher, tema constante em filmes que fazem o maior sucesso entre empolgados punheteiros] mas conto nos dedos a quantidade de mulheres que não ligam para a ideia de ter um namoradO que já fez e aprecia fazer sexo com outros homens. Se um homem tem sua eventual bissexualidade exposta, sua chance com mulheres diminui, não aumenta.

Ainda que o vídeo tivesse por objetivo tratar da bissexualidade, um fenômeno legítimo [a despeito de muitos gays insistirem que bissexuais de verdade não existem], poderia e deveria ter abordado o preconceito que bissexuais sofrem, tanto por parte de heteros quanto por parte de gays. Por exemplo: há preconceito na afirmação de que bissexuais são promíscuos, o que não é verdade. Muitas pessoas bissexuais, a despeito de sentirem igual preferência por ambos os sexos, mantêm relacionamentos monogâmicos. Uma de minhas amigas manteve relacionamento com um homem por cinco anos, e atualmente namora uma mulher há mais de sete. Nas duas relações, ela se manteve estável e fiel. Quando estava com o namorado, gostava dele. Agora, gosta da mulher.

O video “Probabilidade” faria alguém “se tornar” homo ou bissexual? Para usar um termo do próprio video: improvável! Esta “homossexualidade/bissexualidade de modinha” que muitos dizem existir até acontece, mas mais como experiências isoladas do que como um desejo que se define estruturalmente. Se um adolescente resolve experimentar o mesmo sexo pra “ver como é”, isso não o homossexualiza, assim como gays que experimentam o sexo oposto não se tornam heterossexuais em decorrência de tal experimentação.

Muito rebu, portanto, em torno de algo que poderia ser resolvido com muito mais calma e sem a comunicação grosseira e infeliz de nossa presidenta, que deveria saber que “opção sexual” é aquilo que temos quando vamos a prostíbulos e nos oferecem um cardápio dos corpos disponíveis. O termo correto é “orientação sexual”. Mas não acho que ela tenha falado por mal. Muita gente boa e despreconceituosa, até mesmo alguns gays usam o termo “opção sexual” por força do hábito.

Por fim, não sei se está claro para muitos que existe um lado muito bom em tudo isso: nunca se falou tanto destes videos. Eles estão na internet, estão na mídia. Será que é difícil compreender que não precisamos e não devemos esperar pelo Estado para estimular uma educação não-homofóbica? Assim sendo, lhe pergunto: o que você acha que pode fazer para colaborar pelo fim da homofobia?

Não precisa responder. Simplesmente aja.

P.S. – presidenta, estou puto.

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9 Comentários em “Probabilidade de erro”

  1. Fabiane Diz:

    Realmente, esse vídeo Probabilidade é complicado… Dizer que ser bi é melhor porque você tem “duas vezes mais chances de encontrar alguém”, que a probabilidade é “quase 50% maior”… Isso me parece reduzir coisas como sexualidade, atração, interesse, a uma questão matemática. “No mínimo”, tenso!

    • Andreia Diz:

      Oi meu me amigo

      Gosto demais de suas matérias, ok? mas desculpe-me tenho q lembrar que ao se referir à nossa governante, use Presidente e não Presidenta.
      Muita gente boa como vc, tá escrevendo assim.
      Por favor, não leve isso como crítica e sim como ajuda….Eu tbm n sabia.
      Sucesso!!!!!!

      • devir Diz:

        Andreia, desculpe pela demora em aprovar seu comentário e em responder. Eu esto viajando, e quase não acesso meu e-mail.

        Devo dizer que, aqui, você se equivoca: o termo “presidentA” é tão correto quanto “presidente”, quando aplicado a alguém do sexo feminino. Isso já foi exaustivamente explicado por vários professores de português. Além disso, se você abrir um bom dicionário, verá que o termo “presidentA” existe, assim como “generalA” e “marechalA”.

        Um abraço.


  2. Alexey, eu entendo (não muito bem, mas me esforço) essa análise, mas, sinceramente, não entendo que objetivo global ela tem. Quer dizer, numa linguagem simples, ser bissexual não é mais “vantajoso” (todas as aspas devidas)? Se isso é questionável do ponto de vista da matemática-estatística ou de uma análise moral, é outro setor que me parece pouquíssimo relevante em termos de linguagem para jovens.

    E o material combate o bullying homofóbico sim, especificamente contra bissexuais. Demonstra que a bissexualidade é normal com o recurso a uma valoração positiva ou otimista dela – “olha, tenho chance de me interessar por muitas pessoas porque gosto tanto de homens quanto mulheres”. Simples.

    Eu achei todos os 3 vídeos chatos para alunos do Ensino Médio, mas acho que isso não deve entrar na questão – não estou dizendo que você ou eu ou qualquer outro não possa opinar que achamos os vídeos uma droga -, pois o que está em disputa é o projeto, não a avaliação subjetiva (no blog da Lola li vários comentários de gente que adorou os vídeos) de cada um de nós sobre os vídeos.

    Por fim, acho que tem se perpetuado um equívoco sobre o projeto todo: estes vídeos são uma parte da parte de uma parte do todo. Não são nem o material central do kit (é o caderno). Os vídeos, com o caderno e com as cartilhas constituem um material didático para o professor trabalhar o tema em sala de aula. Ele pode nem sequer passar nenhum destes vídeos.

    Eu já falei sobre sexualidade para alunos de EJA e fiz meu próprio vídeo com imagens associando preconceito contra mulheres e contra homossexuais a alguns conceitos centrais sobre sexualidade e propondo um debate ao final. Existem toneladas de possibilidades didáticas em que se pode associar conteúdos com os materiais – inclusos os vídeos.

    Acho que a despeito dos vídeos serem bons ou não – eu acho-os com uma linguagem mais apropriada para crianças entre 10 e 12 anos, como meus ex-alunos da 5ª série numa escola -, o que se disputou aqui foi um momento específico em que a Presidenta, infelizmente, cedeu a uma reivindicação que não tem nada de legítima, e sabemos disso.

    O que há de mais lamentável nisso tudo é a condução desastrosa da situação, como disse no meu texto no Bule Voador: Dilma poderia ter declarado que achava pertinentes as preocupações da bancada, podia ter convocado reunião com o Haddad, podia ter dito que ia olhar o material com calma, e aí a exposição pública disso teria sido diametralmente diferente. Infelizmente, ela fez um “parem as rotativas”, não consultou ninguém antes (MEC, as ONGs, etc.) e fez declarações desencontradas e ignorantes. Sei que você não acredita na tese de chantagem, mas há algo de “podre” aí para que ela decida atender ao pedido das bancadas religiosas(i) de modo veloz (ii) sem qualquer preparo da exposição pública disso e (iii) sem dialogoar com o Ministério responsável.

    Abraços. =)

  3. Laffayete Diz:

    Querido Alexey, não concordo sobre a questão do filme ser apologético à condição bissexual. O fato de falar da probabilidade aumentada de se interessar por alguém, nem é tão errada assim. Pode não ser precisa e ignora outra parte da questão que é realmente o pior: o aumento da possibilidade de se interessar por alguém é aumentada, mas os fatores que fazem com que esse interesse frutifique não são levados em conta. O fato de alguém por quem o menino se interessou se permitir manter um relacionamento com quem é bissexual, por exemplo,todos os problemas que podem vir daí, enfrentando as questões da fidelidade e da suposição da manutenção de relações abertas ou semi abertas etc. Tudo isso será discutido sob especulações e não sobre fatos. E toda essa discussão tenta prever – talvez melhor se dissesse – promover uma enorme campanha para a manutenção da heteronormatividade e não do entendimento de uma pluralidade que desbanca a heterossexualidade como tendência natural em detrimento de outras manifestações. Abraços

  4. Ivã Silva Diz:

    Prezado Alexey,
    não seria pedagogicamente mais eficiente se o MEC se preocupasse em fazer um grande projeto para tratar do tema preconceito na sua totalidade(uma abordagem interdisciplinar: filosófica, sociológica, histórica e antropológica), como tema transversal de pesquisa e avaliação obrigatório nas escolas públicas e particulares, inclusive com treinamento dos professores pela modalidade EAD ou semi-presencial. E mais, instituiria concurso para boas premiações de projetos realizados por professores e/ou escolas.
    Entendo que esta é uma questão que precisa ser tratada de forma integral e ontológica, e não na sua forma fragmentada e materializada apenas, como, preconceito disso ou daquilo, pois senão nada, pouco importa não ter preconceito com homossexuais, mas ter com negros, ou então, não ter preconceito com negros, porém tê-lo com obesos.
    Alexey, enquanto continuarmos pensando ao modo fractal, ainda que as partes devam ser consideradas dentro da relação com as outras partes, estaremos fadados a agirmos fractalmente, e portanto, ampliando o caos já existente na sociedade e no homem.

    Ivã Silva

  5. Regina Marinho Diz:

    Esse Alexey é perfeito. Não preciso escrever mais nada, só replicar e replicar o seu entendimento. Bjs


  6. Olá, Alexey. Um pouco tarde para comentar esse episódio, mas até acho sempre muito do momento a infeliz declaração da presidenta ao afirmar que a homossexualidade é uma opção.

    Não há como contemporizar. Ela foi cruel. Usou o código evangélico em detrimento até mesmo da verdade. Foi cruel.

    Dizer que a homossexualidade é uma opção é o mesmo que dizer que somos todos héteros que escolhemos afrontar a nossa natureza e por tabela a Natureza, já que o termo “opção” dá a heterossexualidade como única sexualidade natural.

    As consequências foram terríveis. O primeiro que li e ouvi referir-se à presidenta, usá-la como justificativa da falácia da opção, foi Malafaia num debate com Toni Reis. Daí pra frente desnecessário elencar todos os fundamentalistas que fizeram o mesmo.

    No entanto, bastava que ela dissesse que a homossexualidade não é escolha, não é opção, para desconstruir duma só vez toda a argumentação fundamnentalista usada para bloquear nossos direitos e a homofobia em todas as instâncias.

    Agora já há no Congresso projeto de lei que visa permitir que psicólogos usem da terapia de reversão da homossexualidade. Veja só as consequências da afirmação de Dilma. Ela não foi infeliz, ela nos traiu. E enquanto não retificar a afirmação, ela nada mais é que uma Traidora.


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