Eu nunca disse que deus não existe

Eu disse e repito, isso sim, que não acredito em sua existência. É diferente. Há diferença entre afirmar inexistência e não crer na existência, mas nem todo mundo entende a enorme diferença entre estas duas coisas. É muito difícil afirmar a inexistência de uma coisa, o que nos resta é crer ou não crer, a partir dos critérios que elegemos. A minha descrença, entretanto, precisa ser melhor pontuada: eu não creio, de jeito nenhum, na concepção pessoal que a maioria das pessoas e religiões têm de deus. Sendo direto: fizeram de deus um gênio da lâmpada de Aladin, com quem se estabelece relação comercial. Faço promessas, e ele me atende. Bajulo a divindade, e ela cura minhas doencas. No catolicismo isso toma uma forma até mais simpática, pseudomonoteísta, em que temos mais santos a ser venerados [e para quem podemos pedir coisas] do que os antigos gregos tinham deuses. Mas ao constatar isso, não sinto o outro [meu semelhante, que assim age] como ridículo, tolo ou estúpido. Compreendo perfeitamente o conforto e bem estar que alguém pode sentir ao rezar para uma imagem, ou para várias, entendo o sentimento de segurança que a pessoa tem ao dialogar internamente com aquilo que ela mesma chama de “força superior”. Comigo é diferente. Eu reconheço uma força superior em um monte de coisas: no presidente de um país, numa estrela supernova, na Constituição, na gravidade, na polícia. Há, evidentemente, coisas que são mais poderosas do que a minha vontade. A questão é que, no meu caso, nenhuma dessas coisas é metafísica.

Mas seria possível um mundo em que pessoas que crêem em coisas diferentes pudessem coexistir? Eu gosto de apostar no sim!

Por exemplo: compreendo perfeitamente que, quando alguém me diz “deus te abençoe”, é a forma que a pessoa usa para dizer que deseja o meu bem. Respondo “obrigado”, todas as vezes. Recentemente, a namorada ateia de um amigo ateu ficou seriamente doente. Em seu Facebook, vi diversas manifestações de solidariedade, e em muitas delas as pessoas diziam que estavam orando por ela. Em momento algum, vi meu amigo reclamando do que alguns ateus mais indignados chamam de “tolice da oração”. Eu o via, sim, agradecer. E não, ele não se tornou crente, ele estava sendo educado e, pelo que conheço, sinceramente grato pela cortesia das pessoas. Sei como é isso. Se adoeço e alguém diz que ora por minha recuperação, sinto gratidão, pois reconheço ser esta uma forma de me desejar o bem. Não, não acredito que a oração dos outros vá curar minhas eventuais doenças. Acredito, isso sim, que a oração faz bem a quem sente fé neste ato. Eu extraio bem estar de outros procedimentos: ouvir música e tomar um banho quente quase que invariavelmente me faz ficar melhor de qualquer mal estar.

Há manifestações de intolerância tanto em crentes quanto em ateus [embora, honestamente, eu as veja com mais recorrência entre crentes]. Darei um exemplo de ignorância nos dois casos:

Anos atrás, eu e um conhecido ganhamos um prêmio em dinheiro num jogo televisivo de perguntas e respostas. Meu conhecido é ateu declarado. Depois que ele ganhou o prêmio, choveram mensagens em sua página do Orkut, com argumentos do tipo “como você consegue não acreditar em deus depois dessa coisa maravilhosa que te ocorreu? Deixe de ser ignorante!”. Quer dizer: deus existe porque meu amigo soube responder corretamente as perguntas de um show de TV? Deus existe porque ele, meu amigo, foi privilegiado? Isso não me parece crer em deus. Me parece ser uma crença no gênio de Aladin.

Certa feita um padre muito meu amigo ficou indignado ao ver na TV um pagodeiro “agradecer a deus” pela venda de milhões de CDs. Não é apenas porque parecia uma heresia supor que deus se dispôs a auxiliar na venda de CDs de músicas de gosto sofrível. A indignação de meu amigo padre era a mesma que eu, em minha descrença, tinha: as pessoas pegam um conceito grandioso [deus] e o convertem egocentricamente numa força mágica que existe para nos servir, nos dando carros, casas e ajudando a vender CDs de pagode. Note: não é diferente de imaginar que deus curou o seu câncer porque você lhe fez promessas. Se assim fosse, não seria deus, seria um comerciante cósmico que vive à base de venerações. Pergunta: por que curou o SEU câncer, mas não o de outra pessoa? Não responda que é porque VOCÊ tem fé e a outra pessoa não, pois tal resposta é totalmente falaciosa. Ela torna deus exatamente o que eu disse: um comerciante que precisa de veneração para escolher uns em detrimento de outros. Se você pensa assim, adivinhe só: o seu conceito religioso não é nada diferente do de povos que você chama de “primitivos”.

Além disso, acreditar que deus escolhe uns em decorrência de promessas e fé em detrimento de outros pode ser decepcionante. Muitas das pessoas que sofrem desgraças abomináveis são cristãs fervorosas. Lembro de uma senhora em Salvador que vivia em função da caridade, era católica devota, e morreu espancada depois de ser estuprada num estacionamento. E lembro de ateus que tiveram vidas felizes e morreram confortavelmente.

Já vi demonstrações de ignorância ateista [felizmente, foram poucas, comparadas ao nível de ódio que vejo em fanáticos religiosos]. Certa feita, fui criticado por um senhor que diz representar ateus. A razão da crítica? Ele descobriu que eu, no enterro de um amigo, dei as mãos para os pais dele e rezei o Ave Maria. Ora, rezei mesmo! E rezaria de novo! Se o fiz, não foi por crer na Virgem Maria, mas por estar num contexto em que tal ritual estava sendo realizado, eu ali estava e quis participar de um ato que, sei, confortaria – ainda que minimamente – os pais do meu amigo. Fui acusado de “trair meus ideais”. Mas que ideais? Eu não tenho “ideais antireligiosos”! Eu estava num ambiente religioso. Rezar o Ave Maria, para mim, tinha o mesmo significado de declamar uma poesia qualquer. E ser gentil com aquelas pessoas, naquele momento, era para mim muito mais importante do que bater pé e dizer:

- Desculpe, não vou dar as mãos para vocês e não vou rezar o Ave Maria porque vocês sabem, né? Não acredito nisso.

É preciso muito cuidado quando falamos em deus. O que significa esta palavra? Numa palestra na Escócia, Carl Sagan foi interpelado por um ouvinte que lhe disse “Deus existe e é muito fácil de perceber. Deus é amor, e o amor existe”. A frase é bonita, mas eu acho a resposta de Sagan muito melhor: prefiro chamar o amor de amor, e deus de deus. Chamar uma coisa de outra não passa de jogo de palavras, e admito que este tipo de malabarismo causa muito impacto e comove as pessoas. Eu acredito no amor. Mas dizem de deus que ele é onipresente e, lamento dizer, o amor não é onipresente. Há situações e circunstâncias em que não há amor nenhum presente, a não ser que você seja adepto do pensamento agostiniano que insiste em dizer que “há, sim, mas somos incapazes de ver”. Este argumento de Agostinho demanda fé, e aqui entramos num círculo vicioso que não é diferente do conto da roupa inexistente que deixava o rei nu, mas que – em tese – apenas os honestos podiam vê-la, de modo que todo mundo fazia de conta que via, para não passar por desonesto. Mas o rei estava ali, peladão. Perdão, mas se uma criança é estuprada, eu não vejo amor algum presente e me recuso a dizer que “deus tem desígnios que desconhecemos”. Acho ofensivo, acho de uma resignação repugnante. Tampouco as outras explicações metafísicas me atraem: karma expiado de vidas passadas me parece a mais enrolada desculpa para aceitar as misérias desta vida. Não serve para mim, lamento.

Espinosa, por exemplo, dizia que “deus é a natureza”. Notem que ele foi excomungado por dizê-lo, e foi considerado ateu por isso, mesmo falando que deus existe. É porque “ateu”, durante grande parte da história, significou simplesmente “aquele que não acredita em deus do mesmo jeito que eu acredito”. Bem, devo dizer que se deus é a natureza, como dizia Espinosa, então eu acredito em deus. Mas ainda prefiro o posicionamento de Sagan: chamemos a natureza de “natureza”. Já está de bom tamanho.

Notem que a todo momento estou falando de ideias que sei que existem, e a todo momento digo que elas não servem para mim. Estou ciente de que muitas pessoas crêem nestas ideias, inclusive alguns amigos muito queridos meus. Eles sabem que não os acho ridículos ou burros. E eles também não me infernizam com a obsessiva insistência de que eu devo crer, aceitar tais ideias.

Algumas pessoas se angustiam muito com a possibilidade da inexistência de deus. Dizem que se nada tem sentido, não faz sentido viver. Discordo. Na verdade, esta é a minha mais profunda alegria: se nada tem um sentido a priori, eu – como ser racional – tenho o dever ético de construir sentidos. Se não existe um “bem supremo metafísico”, nós – na condição de “animais inteligentes” – temos a oportunidade de discernir o certo do errado [nem sempre é tarefa fácil], e procurar fazer deste mundo um lugar que valha a pena existir. E a longa jornada começa com a recusa em mergulhar no sentimento do ódio pelo outro que crê [ou não crê] em coisas diferentes das suas.

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16 Comentários em “Eu nunca disse que deus não existe”

  1. Marta Vaz Diz:

    Adorei o texto! Não só por ir ao encontro do que penso a respeito de Deus e religiões, mas também pela forma como o tema é conduzido sem intolerância. Pois se por um lado discursos intolerantes de fanáticos religiosos são comuns e por vezes bastante agressivos, por outro lado muitos ateus e agnósticos sustentam uma falsa ideia de superioridade, como se a religião fosse algo que conforta quem é fraco, menos inteligente etc.
    Um livro que adoro sobre o tema é ‘Em que creem os que não creem’ do Umberto Eco. Nem é bem um livro, mas sim uma série de textos que foram publicados em uma revista cuja proposta era Eco, ateu, ‘dialogando’ com Carlo Maria Martini, cardeal. Eles focam a questão ética, mas falam também sobre outros assuntos.

    • devir Diz:

      Boa dica de livro, Marta. Outro excelente livro é “O Espirito do Ateismo”, de Comte-Sponville. É o livro mais espiritual e religioso que conheço. E escrito por um ateu.

  2. Guilherme Diz:

    Primeira vez comentando aqui no blog…

    Concordo com cada palavra que você disse. Minhas ideias eram perecidas, mas não tão trabalhadas. Obrigado por me propiciar uma outra visão.

    Até mais!


  3. Ateu inconscientemente dando aula do que são falsas ideias cristãs e de como não ser um ateu idiota.

  4. Bira Leal Diz:

    Parabéns Alexey! Seu texto caiu como uma luva no meu modo de pensar!


  5. Perfeito, Alexey!
    Exatamente o que venho pensando de uns tempos pra cá, mas não saberia explicitar de forma tão inteligente e cheia de conteúdo, como o fez e sempre faz, tão lindamente!
    Bj
    Helô


    • O texto de Alexey é tão pueril que mais se parece a uma criança justificando uma arte! Muitos querem se aproximar de Deus, confirmar sua existência, mas o procuram de forma errada. Querem vê-lo, compreendê-lo sentì-lo através dos sentidos, isso é impossível pois sendo imaterial (no sentido de matéria densa), não se pode apreendê-lo através dos aparelhos(órgãos) físicos. Somente através da instrospecção, (meditação), pois somente quando acalmamos nossa mente física é que passamos a sentí-lo, isso mesmo, sentí-lo! Mas claro isso não é crível e também impossível àqueles que procuram Deus como se ele fosse um duende! A alma humana é o princípio anímico (energía mantenedora da vida), o espírito é a essência divina em nós, assím é entendido a divindade no homem, isso desde os pré-socráticos e em quase todas as religiões universais. Para se chegar a Deus basta interiorizarmos, pois em nosso no âmago de nosso espírito reside a divindade. Enquanto procurarem fóra do corpo nada encontraram, porém, quando se voltarem para dentro de sí começaram a ver o que Santo Agostinho via, pois ele tinha a qualidade mais importante para ver: a fé! Feliz Natal….

  6. Daniel Diz:

    Opa, primeira vez tb.

    Olha, para chegar a esse tipo de raciocinio tive que passar por um bocado de coisas, diveras religioes, etc… Mas, somente a ciencia me trouxe a luz. Aleluia! hehehe, brincadeirinha…

    Sobre o ultimo paragrafo: realmente, depois que deixei de crer, `as vezes, me pego duvidando do sentido de nossa existencia. Acho que, por termos sido acidentes no universo (ou não), pode não haver um objetivo geral em viver cada vida isoladamente. A unica razão que me parece mais razoavel é perpetuar e manter nossa especie, preservando a vida e o planeta para as proximas geracoes. Sei lá…

    Abcs

  7. Alberto Costa Diz:

    Sou ateu, mas acredito na fé. Se voce direcionar suas orações para um poste, com certeza se acontecer alguma coisa não será o poste, mas a tua fé…
    E por que não rezar? Mal não faz, e isso não implica voce acreditar em deuses!


    • Não há problema algum em ter fé. O problema é quando se tenta impor a sua fé aos demais, sobretudo como se isso tivesse algum valor legal.

      • Denise Diz:

        Achei um texto que diz tudo que penso, e sou criticada, também tentam me fazer crer que sou uma espécie estranha de humano, no meu aniversário ganhei uma bíblia de presente de umas amigas, tenho duas ou tres em casa, uma grande ilustrada, linda, mas sinto , até tentei, não compreender nada daquilo que está escrito, pois quantas traduções, interpretações teve ao longo dos séculos.Entretanto nunca teremos certeza de nada , apenas gostaria de ser respeitada pela minha não crença em deus, pois como li num post como explicar a maldade do ser humano em todos os campos, viver em mansões luxuosas , explorando o pobre, viajar pelo mundo e muitas vezes morrer serenamente…Parabéns pelo seu texto, já guardei como meu favorito.

  8. Mauricio Diz:

    Muito bom texto, ponderado. Sou religioso e me sinto mau por muitos religiosos que não sabem ser ponderados, que por acreditar em uma “verdade superior” tentam as impor, acredito que os “crentes” ou “cristãos” (não vou entrar no mérito do significado de cada um) estão divididos em muitas religiões, muitas delas quase que declaradamente estão “sugando” seus bolços, e muitas vezes de quem nem tem o que ser “sugado”. Muito por isso o cristinismo tem sido olhado com outros olhos, mesmo pelos cristãos (como eu). Também acredito que a grande maioria desses religiosos fervorosos são ignorantes, sem estudo suficiente para um debate, apenas sabem repetir versos biblicos, por outro lado os ateus que conheço são pessoas intelectualmente mais preparadas (obvio que existem cristãos muito inteligentes e ateus “burros”). Se todos ateus pensassem como você e todos cristãos tivessem essa mesma perspectiva, teriamos menos problemas. Mas como crsitão acredito no livre arbitrio, assim cada um faz o que bem entender, assim que eu explicaria toda maldade no mundo, se Deus interferir em nossas atitudes para que não exista maudade, o livre arbitrio não existiria.

  9. lorena Diz:

    amo seus textos.

  10. Marcelo Amor Diz:

    Excelente texto. Se Deus realmente existe, ele tem senso de humor e noção de justiça bastante duvidosos.

    Infelizmente, somos condicionados desde pequenos a aceitar que Deus é a explicação para tudo que aquilo que é inexplicável e acabamos por não formar nossa própria opinião e seguimos com a crença por completa falta de interesse (vulgo preguiça) de pensar, pesquisar e indagar algumas das questões que os religiosos se enrolam para responder.

    O que quero dizer é que acreditar em Deus, é mais fácil que encontrar o porquê algo acontece, e que é difícil simplesmente aceitar que não tenho missão alguma no mundo, que eu nasci, vou viver e morrer. Como um peixe, uma mosca, um leão ou qualquer outro animal.

    Acredito que a crença, pra quem crê, pode até ajudar a atingir algum objetivo. E já foram realizadas pesquisas que em um agrupamento de pessoas orando, a leitura de atividades elétricas aumenta. Afinal, nossos pensamentos são feitos de atividades elétricas. Agora, se isso pode levar algum tipo de bem à outra pessoa (no caso da amiga enferma por exemplo) já são outros quinhentos.

    Um abraço…


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