Indignação e proporcionalidade
A despeito de haver muita falta de educação e trollagem em comentários de blogs, costumo na medida do possível ler todos (ou, ao menos, a maioria) a fim de verificar o que as pessoas entenderam do que escrevi. Se há mais mal entendidos do que bem entendidos, é muito provável que eu tenha cometido alguma falha na explicação. Em linhas gerais, creio que boa parte das pessoas entendeu, a partir do meu último post, o que é uma “falácia do falso dilema”. Ainda assim, creio ser pertinente abordar um ponto bastante repetido nos comentários: o problema da proporcionalidade.
Quem merece mais a nossa indignação? Um cão assassinado? Um gay torturado? Um negro vítima de racismo?
Antes de prosseguir, devo dizer que se pareço ignorar alguns pontos trazidos por outras pessoas, isso é proposital. Se eu for abordar tudo o que pode ser pensado no caso do assassinato do yorkshire, ou no caso de Alexandre Ivo (usados como exemplos), escreverei um livro com capítulos. Mas a idéia central destas postagens tem um propósito que transcende os casos apresentados. Lembrem-se: estou a falar de falácias argumentativas. Não me interessa, no presente momento, especular sobre coisas outras, ainda que eu as ache interessantes e pertinentes. O que não significa de forma alguma que eu tenha abandonado tais questões. Afirmar o contrário é exatamente a falácia do falso dilema: falas de A, mas não falas de B? A resposta é muito simples: quem disse que não falarei de B? Eu poderia falar sobre os perigos da barbárie, das reações que nos igualam aos algozes que criticamos, mas já tem muita gente boa fazendo isso. Eu poderia discorrer longamente sobre a diferença de impacto psicológico existente entre ver uma agressão e simplesmente ler sobre ela, mas deixarei este tema pra depois.
Se uma coisa o estudo da Filosofia me ensinou é a trabalhar com restrição de tema. Caso contrário, é muito fácil e tentador transformar um tema numa conversa de bar: você começa a falar em energia nuclear e, trinta minutos depois, se vê discursando sobre a queda de Atlântida.
Assim sendo, vamos aos pontos que, creio, merecem ser melhor trabalhados:
Não há erro algum em lembrar que, além de cães maltratados, vacas e galinhas, coelhos, ratos e outros animais muitas vezes sofrem em criadouros, processos de abate e laboratórios.
Não há erro algum em lembrar que, além de animais maltratados, há muita violência e descaso realizado contra vidas humanas.
Não há erro algum em lembrar que, além das passeatas por direitos humanos, as pessoas precisam se preocupar com várias outras questões.
Me parece perfeitamente razoável aproveitar a deixa da cena do cão maltratado para dizer às pessoas: “se você se indigna com isso, vai ficar mais indignado ainda se porventura vir o que alguns lugares fazem com vacas e galinhas”. Ou dizer: “gostaria de ver esta indignação contra a violência ser aplicada também a casos de violência contra negros, gays, travestis, religiosos etc”.
Não há nada de errado nisso.
O problema, eu diria, é a forma como o argumento é geralmente apresentado, e o problema da forma – ironicamente – ultrapassa a mera formalidade. A forma como apresentamos um argumento faz toda a diferença na relação com nosso interlocutor – considerando, evidentemente, que o intento é convencer o outro. E me parece razoável supor que, quando escrevemos ou falamos, queremos convencer o outro daquilo que dizemos. Todavia, a depender de como o argumento seja apresentado, ele não apenas não convence, como cria reações de defesa imediata. A idéia pode estar correta, e o argumento ser ruim.
Este é o ponto. O que eu vejo em muitos lugares são algumas pessoas dizendo: “HIPÓCRITAS! Diz que se importa com o cão, mas nem liga pra vacas e galinhas que sofrem diariamente nos abatedouros etc, etc”, ou “Meu total desprezo por quem se emociona com a morte de um cão, mas não liga para mendigos”.
A má apresentação de um argumento pode destruir totalmente a razoabilidade de uma idéia. Freud acertou esplendidamente em uma coisa: o mal entendido é a regra na comunicação humana. Ora, o que vejo em todas essas acusações e argumentos falaciosos dirigidos contra quem – por um motivo ou outro – se indigna com a violência cometida contra X ou contra Y é uma cisão entre potenciais aliados. Uma das discussões mais sem sentido que presenciei, meses atrás, versava sobre quem era mais oprimido: gays ou negros? Nem é preciso dizer como isso terminou: em briga, acusações mútuas entre bons militantes dos direitos humanos. A que serve este tipo de discussão? E se é para ela ser feita mesmo assim (já que tudo se discute), não custa muito conter os dedos e refletir antes de apresentar um argumento. Dizem que a internet faz as pessoas lerem mais. Não concordo. O que eu noto é que a internet possibilita que as pessoas escrevam mais – o que é bom, e seria melhor ainda se houvesse mais critério e ponderação em relação ao que digitamos.
Se foi preciso que um cão morresse para que nos revoltássemos contra a violência, isso pode ser aproveitado. A indignação pelo sofrimento alheio – seja um cão, um menino gay, um negro, um mendigo, uma mulher espancada – é sempre legítima. Levar o debate para quem “vale mais”, se um cão ou um ser humano, não me parece funcional. Não é o ser externo que está sendo valorado. O que está sendo valorado é a indignação, tão necessária em tempos em que a violência ainda faz parte de nossa rotina. Não vejo algumas indignações como melhores do que outras. Eu vejo o próprio ato de indignar-se como uma vacina contra a idiotia.
“Idiota” era um termo utilizado pelos gregos antigos para definir uma pessoa que agia como se fosse alheia à vida pública (nota: isso é muito bem abordado por meu orientador de mestrado, Renato Janine Ribeiro, em seu livro “Política para não ser idiota”). De fato, ainda hoje há pessoas que não se comovem com nada, não se indignam com nada, e vivem em função de seus próprios problemas. Jamais lamentam pelo sofrimento alheio, e dedicam toda emoção a coisas como “minha TV não está funcionando bem”, e isso se torna a coisa mais importante do mundo.
Quando vejo alguém se indignar contra a violência, seja ela qual for, acho fantástico, acho bom. Vejo nesta indignação um exercício de alteridade, de empatia. E penso: é possível expandir o campo de indignação desta pessoa para várias outras coisas. Ela é minha aliada. Nunca a tratarei como se inimiga fosse.
POST SCRIPTUM – uma amiga, Mônica Ismerim Barreto, transmitiu-me texto que demonstra de modo muito claro como TODAS as lutas se interligam. Leiam, é altamente instrutivo:
dezembro 21, 2011 às 3:44 am
Fatality!!
dezembro 21, 2011 às 12:50 pm
Sensacional! “A indignação pelo sofrimento alheio – seja um cão, um menino gay, um negro, um mendigo, uma mulher espancada – é sempre legítima”. Andei vendo muito isso pela net: “Ah, estão indignados com os cachorros, mas não ligam para os mosquitos” e por isso no post passado pedi para ver uma análise sobre essa “escolha dos animais que se devem proteger”. Adorei o texto em complemento!
dezembro 21, 2011 às 1:36 pm
Parabéns pelo texto! Lúcido, pertinente e muito bem escrito.
dezembro 21, 2011 às 1:44 pm
Imaginei que não teria como melhorar o texto anterior e – voilà – você conseguiu. Concordo com Freud na citação que você colocou.
Parabéns pela clareza na sua comunicação.
dezembro 21, 2011 às 2:39 pm
(Vim aqui para discordar – ou não. Para tanto, aproveitei manifestações prévias minhas sobre o tema)
Curiosidade: o que cria empatia em relaçao aos bichos nos humanos é -dentre outras coisas – a proximidade anatomo-fisiológica entre o bicho e ele (nós), bicho racional. Nos comovemos com um cão ferido ao mesmo tempo em que esmagamos uma barata sem sequer cogitar a respeito. Mesmo bovinos, os quais devoramos lambendo os dedos quase todos os dias desde os tenros tempos, nos provocam empatia enquanto vivos. São mamíferos, afinal, e poucos onivoros seriam capazes de presenciar o abate de um boi para corte. Assistimos ao peixe recém pescado agonizar no chão do barco já decidindo se frito, assado ou grelhado, entretanto. Proximidade. Identidade. De volta ao tema, parece que deixamos de nos identificar com nossa própria espécie. Distância. “the monkeys feel alone; all 6 billion of them!”.
…
(numa outra discussão a respeito do mesmo tema, levantaram a diferença entre um cão e um boi – ser crueldade espancar um cão/não ser crueldade “fabricar” bois para corte. Mesmo entendendo ser crueldade o espancamento de um cão, senti em mim uma vontade de tentar desenvolver um pouco mais minha opinião. Recomendei o documentário Earthlings para iluminar um pouco mais a mesa dos argumentos…isso explica o início do post adiante colado:)
O texto apela sem dó, afirmando que todos os terráqueos (TERRÁQUEOS) tem o direito de estar e permamecer na terra, sejam humanos, cães, peixes ou perus. Nesse meio, joga uma luz interessante nessa discussao pra que se chegue a um posicionamento menos hipocrítico. Afinal, como delimitar as categorias dos “sujeitos” desse direito de estar e permamecer na terra? Só os racionais detêm esse direito? Os bovinos nao? Os racionais e os de estimação, apenas? Estimação onde? Aqui, na Coreia ou na china?
Eu não posso me permitir a essa “masturbação” mental de ficar assistindo e divulgando um video grotesco de uma pessoa horrível (como incontáveis por ai) linchando um cão indefeso. A comoção é obvia, inevitável e….inútil. Não posso porque não tenho, enquanto humano, integridade moral pra apontar o dedo enquanto calço meu Democrata 41/42 (no cápítulo “animais para vestes” do documentário é possível observar o procedimento padrão pelo qual passam os animais de couro valioso até que se chegue nesse nosso lindo sapato que calçamos enquanto nos indignamos com a crueldade humana no Facebook).
O que aquele cão passou foi horrível, claro, e constatar isso não faz de ninguem uma pessoa melhor. As coisas estão acontecendo no mundo independentemente das câmeras, coisas muito piores, então eu rezo pra que se tenha um pouco mais de bom senso e se pondere nelhor o peso de certas coisas. A cena do cão/enfermeira, da qual assisti 7 segundos, é tão grotesca quanto banal. Longe anos luz de representar o que vem representando.
dezembro 22, 2011 às 5:57 pm
Amigo, a trollagem, o flame war, etc… são agumas das mais depresiveis formas de se argumentar que vemos na internet.
Mas quem age de maneira reacionária não enxerga um palmo a sua frente.
Nós que fazemos “filosofia para não filósofos” corremos esse risco.
Questionar a forma agumentativa de alguém não iniciado na filosofia e reacionista me parece tão pouco eficaz quanto usar argumentos racionais contra a fé de um religioso. Muitos nem sabém o sentido da palavra HIPÓCRITAS por isso gostam tando de usá-la.
“A má apresentação de um argumento pode destruir totalmente a razoabilidade de uma ideia” essa frase é ótima, eu sempre cometo esso erro, mas o texto é o experimento do filósofo, por isso posto tudo na internet,eu quero errar sempre que for preciso para poder acertar nos momentos necessários.
Por fim, embora exista um “pseudo movimento naturalista” de “pare de falar, vá lá e faça” na internet, julgo que só recorrendo a filosofia poderemos canalizar a Indignação em atitudes que possam mudar o mundo pra melhor.
Quanto ao problema da proporcionalidade acho que o caso da enfermeira assassina de cão passa bem longe dai, tal como postei no mei site.
E gostaria de lembrar que dizer que não adianta defender os animais e comer carne todo dia me parece um exemplo de “Argumentum ad hominem”… afinal isso é um ataque direto a posturo da indivíduo que protesta e não possui validade lógica para negar o que está sendo dito. http://www.filosofiahoje.com
dezembro 21, 2011 às 10:38 pm
Replico segundo post no FN Já divulguei este texto aqui no Facebook, com o comentário que repito agora: excelente, lúcido, sensato, ético, correto. Mas já vi que o texto é para poucos iluminados. As pessoas insistem em mudar ou ampliar o foco e querer medir a indignação comparando alhos com bugalhos. Ou crianças com cachorros. Já ouvi idiotas masters argumentarem que é muita indignação pra pouco cachorro. Ninguém percebe o que vem depois do cachorro. E parece que ninguém aprendeu a lição: a corrupção começa no cafezinho. Assim como os crimes hediondos costumam começar com fogo no rabo do gato. Desgusting!
dezembro 21, 2011 às 10:56 pm
Seu texto é riquíssimo e concordo com você! Parabéns pelo blog!
dezembro 22, 2011 às 12:14 am
Já estava mais do que perfeita a abordagem do tema, no post anterior, mas o complemento fechou com chave de ouro! Nada a acrescentar, só admirar…
Bj
Helô
P.s. Alexey, não tem como acrescentar o compartilhamento via Facebook, abaixo de cada postagem, aqui neste Blog?
dezembro 23, 2011 às 3:29 am
Não sei como fazer isso, Helô. Vou tentar descobrir.
dezembro 23, 2011 às 12:37 am
Alexey, conhece o livro “Ética & Animais”, do filósofo Carlos Naconecy? Nesta obra, partindo da argumentação do debate sobre a questão animal, o autorr identifica, se aprofunda e destrincha diversos tipos de falácias. É um ótimo guia de argumentação.
dezembro 23, 2011 às 3:21 am
Não conheço, Diego, obrigado pela recomendação, irei procurá-lo.
dezembro 24, 2011 às 1:37 am
Ainda há gente que pensa que animal não tem alma. Que animal não sente, que animal é apenas para ser “usado” pelo ser humano…As pessoas que fazem parte deste grupo são falsos moralistas e demagogos que, PARA RECONHECER UM FATO, NECESSITAM ANULAR UM OUTRO… Cansei bastante de ouvir e ver gente dizendo que “Fulano roubou mais que Beltrano”… Pra mim, LADRÃO É LADRÃO, como também MALFEITOR É MALFEITOR ,TORTURADOR É TORTURADOS e ASSASSINO É ASSASSINO e MANIPULADOR É MANIPULADOR. Acho muito engraçado, hoje em dia, AS PESSOAS TEREM TANTO MEDO DE DAR O VERDADEIRO “NOME AOS BOIS”…Pessoas que conheçam um pouco de psiquiatria sabem que crianças que torturam e matam animais, no futuro serão pessoas bem perigosas para se conviver. A REVOLTA NATURAL PELA TORTURA E MORTE DE UM ANIMALZINHO, que não pode falar e ESTÁ INDEFESO À MERCÊ DA PESSOA QUE O ADQUIRIU e que deveria ser sua protetora , NÃO EXCLUI A REPULSA PELAS VIOLÊNCIAS BÁRBARAS CONTRA GAYS, MENDIGOS, MULHERES OU CRIANÇAS. Só os demagogos fariseus “pensam” desta forma ignorante e tentam manipular situações para “reforçar” suas próprias crenças…