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Ariadna Thalia e o monstro da Verdade

janeiro 11, 2011

Você não gosta do Big Brother. Já entendemos isso, pois você repete esta frase sem parar, de janeiro a março, todos os anos nos últimos onze anos. Já entendemos que você diz que lê Dostoievski* e acha o BBB um lixo cultural.

Eu te entendo, pois em geral eu também não gosto do BBB, me dá uma angústia, um constrangimento em tantas cenas, que prefiro não assistir, muito embora eu tenha assistido – com gosto – o BBB em que Jean Wyllys concorreu.

O BBB11 me interessa especificamente porque traz em sua dinâmica uma série de questões éticas relevantes para quem estuda Direitos Humanos. E a grande protagonista destas questões é Ariadna Thalia, nascida “Tiago”. Ariadna é transexual e realizou uma muito bem sucedida cirurgia de readequação genital na Tailândia. Cortou fora seu pinto de jegue pênis de proporções avantajadas e, ao que parece, tem atualmente a aparência física de uma mulher muito bonita, do tipo que muitos homens desejam.

É sabido que dispomos, atualmente, de uma muito eficiente tecnologia para readequações genitais, sobretudo no caso de transexuais que nasceram homens. E se você tem dinheiro para operar na Tailândia, sai de lá não apenas “mulher”, mas uma mulher muito bonita. Sem pênis, sem “gogó”, com cordas vocais alteradas, em suma, mulher.

O lance é: ao que parece, Ariadna Thalia (adoro esse nome, essa mescla de heroina grega com cantora brega) NÃO irá contar que é transexual para seus parceiros no BBB11. E eu aprovo. Bem faz ela. Custo a entender por que diabos uma pessoa transexual, depois de resolver seu problema, tem que sair se apresentando o tempo todo da seguinte maneira:

- Oi gato, você tá me paquerando? Eu gostei de você. Meu nome é Ariadna, e eu sou TRANS.

Ora, quem é transexual ou tem amigos transexuais, sabe como é intenso o sofrimento de uma pessoa que se vê num corpo absolutamente dissonante em relação à sua identidade de gênero. Não se trata de frescura ou melindre, como dizem alguns. É algo tão estrutural na pessoa, que beira o desespero. Se a pessoa não tem o apoio e tratamento adequados, desenvolve problemas sérios de autoestima. Alguns chegam a tentar amputar o próprio pênis, e é muito comum a tentativa de aplicação de silicone industrial, entre transexuais provenientes de classes pobres. Um transexual típico olha para seu órgão genital e sente repulsa. Agora imagine se você é transexual, como no caso da Ariadna, que nasceu não com um mero pênis, mas com uma piroca PRIÁPICA no meio das pernas? Ela deve ter sentido grande alivio ao se livrar daquilo. E virou uma mulher aparentemente bem fornida.

BBB11: o primeiro Big Brother que já começa com um membro eliminado.

Por conta deste sofrimento, tudo o que a pessoa quer é esquecer, deixar seu pinto passado para trás. A Medicina avançou, o Direito ficou pra trás, e é mais fácil fazer a cirurgia de readequação do que modificar algumas complicações burocráticas, como o lance do nome. Alguns juizes dão ganho de causa e liberam a alteração dos documentos do cidadão. Outros, intransigentes, não aceitam o pedido, e fica lá a figura, um mulherão, com um documento onde se lê JOÃO PEDRO ou outro nome supermacho.

Não é, entretanto, consensual que Ariadna tem o direito de não sair por aí se apresentando como transexual o tempo todo. Há quem diga que ela tem a obrigação moral de dizer, sempre. Não concordo. Acho que isso é querer torturar a pessoa sem necessidade. Pra que ela tem que carregar este estigma pro resto da vida? Fez a cirurgia, se readequou? Pra mim, é mulher.

O primeiro argumento contra a omissão de Ariadna é o mais comum: num relacionamento, é preciso dizer a verdade. Também acho, muito embora algumas coisas sejam totalmente desnecessárias e até possam ser ditas num contexto de maior intimidade. Além disso, é questionável o que significa “dizer a verdade” o tempo todo. Significa relatar pormenores de problemas médicos que eu já tive? Devo me apresentar às pessoas dizendo que já sofri de REFLUXO GASTROESOFÁGICO?

Se você discorda, me explica o seguinte: você arranja uma namorada magrinha, uma gata. Só que ela já foi obesa mórbida, fez uma cirurgia para redução do estômago, ou seja, cortou um pedaço de si e ficou do jeitinho que você gosta.

Com o transexual não é diferente. Ele corta um pedaço de si – o pênis – e readequa seu corpo, virando uma mulher gostosa. E aí? Por que a ex-obesa não tem a OBRIGAÇÃO MORAL de sair por ai o tempo inteiro se apresentando como ex-gorda, mas Ariadna tem obrigação de se apresentar como transex? Por que esta “colagem” na identidade não é cobrada da ex-gorda, mas é cobrada do ex-homem?

Aí você pode vir com o segundo argumento: porque Ariadna não pode ter filhos, e tem que ser sincera com seu namorado.

Concordo. E se ela disser que não pode ter filhos porque tem um problema genético, vai estar mentindo?

Note bem: não estou defendendo que Ariadna (ou qualquer outra pessoa) NÃO deve dizer que passou por cirurgia de readequação genital. Estou dizendo que ela diz SE ELA QUISER, isso é algo que faz parte do desejo DELA, e ela não deveria se submeter ao desejo ALHEIO. E eu acho até bom que ela diga que já foi homem, pelo motivo simples de que não devemos ter vergonha de nossas biografias, e nossas origens fazem parte de nós, ainda que não estejamos escravizados por elas. Mas existe hora pra tudo, principalmente para dizer as coisas, sejam elas quais forem. O Brasil inteiro já sabe que Ariadna nasceu Tiago. Em teoria, seus colegas de confinamento não sabem. No mundo real, não é muito diferente: tem muita mulher por aí que não nasceu mulher, é paquerada pelos homens, por eles desejada, e isso não é nenhum embuste. O desejo é real, lide com isso. Se seu desejo vai mudar depois que você descobrir que aquela gostosona já foi macho um dia, isso é problema seu, e não dela.

Ariadne é o nome de uma heroina mítica que ajuda seu amor, Teseu, a desvendar o labirinto do Minotauro. A nossa Ariadna tem um labirinto muito mais complexo para enfrentar e um monstro pior do que o Minotauro pela frente: o monstro do preconceito, também ele um hibrido: corpo de gente, cabeça de jumento. Desde já, torço por ela aprioristicamente, porque por ela, e só por ela, TALVEZ o Big Brother Brasil traga questões interessantes à baila.

*Eu tinha escrito “Dostoievski” com y, e minha amiga Ana Sivieri me chamou a atenção. Esta é a prova inconteste de que, apesar de me chamar ALEXEY, não, eu NÃO leio Dostoievski – desculpa, papai, você bem que tentou.

A Utopia Aquariana

novembro 27, 2010

Este texto foi originalmente escrito para a disciplina de pós-graduação “Utopia e Realismo” na Universidade de São Paulo

When the moon is in the Seventh House

And Jupiter aligns with Mars

Then peace will guide the planets

And love will steer the stars

This is the dawning of the Age of Aquarius!

Harmony and understanding

Sympathy and trust abounding

No more falsehoods or derisions

Golden living dreams of visions

Mystic crystal revelation

And the mind’s true liberation

Aquarius!  Aquarius!

Let the sun shine, Let the sun shine in

(“Aquarius” – Hair)

SUSTENTAÇÃO METAFÍSICA DA UTOPIA ASTROLÓGICA

A suposição de que existe um relógio cósmico e de que a vida na Terra é governada por ciclos bem definidos é antiga e se faz presente tanto na filosofia ocidental quanto na teologia oriental. Vale citar Pitágoras (570-500 A.C.), expoente da tese de uma harmonia macrocósmica que se reflete na vida ordinária. Enquanto a escola filosófica de Mileto identificava a arché num elemento físico, Pitágoras acreditava que o fundamento das coisas residia no número. Números, para Pitágoras, não eram entes abstratos, mas elementos essenciais da realidade. Por esta razão, o aspirante à escola pitagórica deveria já ter estudado Aritmética, Geometria, Astrologia e Música, as 4 ciências fundamentais que permitiriam a compreensão da Tetratkys, ou harmonia das esferas. Para a metafísica pitagórica, a alma humana se inclina ao bem, mas o mundo material a corrompe. A superação da corrupção se daria por intermédio de disciplinas ascéticas, meditações e alimentação específica.

Por todo o exposto, Pitágoras poderia ser classificado como um utopista. Sua filosofia tinha por objetivo a reforma moral da sociedade, por intermédio de práticas semelhantes às das tradições órficas. Defendia a possibilidade de alcançar um nível de consciência que tornaria o adepto acima de toda corrupção. Ele, contudo, não deixou um legado escrito, de modo que é difícil discernir o que é realmente autoria dele do que foi criado pela geração posterior de seguidores.

Outro expoente de uma metafísica pautada na idéia da sociedade como um reflexo da harmonia macrocósmica foi o italiano Campanella (1568-1639). Diferente de Pitágoras, Campanella deixou uma detalhada obra escrita, a “Cidade do Sol”. Seu objetivo era construir nas montanhas de Sila uma comunidade exemplar, de acordo com os princípios definidos em sua obra. Em sua proposta, Campanella se vale de teorias de geometria sagrada para desenhar uma cidade definida a partir de 7 círculos sobrepostos que atuariam como uma antena capaz de captar influências astrais positivas. O nível de detalhamento da proposta urbanística da utopia de Campanella só é superado pelo detalhamento das normas comportamentais impetradas aos cidadãos. Campanella defende claramente a eugenia, ao afirmar que é possível melhorar a raça humana a partir de acasalamentos definidos não pelo desejo dos parceiros, mas por determinação sacerdotal. A Cidade do Sol, portanto, exerceria férrea vigilância estatal sobre seus habitantes, para que a procriação só se desse entre parceiros que se equilibrassem a partir de critérios astrológicos e biológicos aparentes: uma pessoa muito alta deveria ter filhos com uma pessoa muito baixa, por exemplo. A homossexualidade é considerada criminosa e teria como pena a morte. O momento da concepção deveria ser marcado antecipadamente para que o feto recebesse benéficas influências astrais. Resgatando uma tese elaborada por Platão em “A República”, Campanella preconiza que a propriedade privada e o conceito de “família” deveriam ser abolidos da Cidade do Sol, dando lugar a um estilo de vida estritamente comunitário. Temos aqui a enunciação clara de que os males sociais têm origem na propriedade privada, sendo a família uma manifestação das idéias de posse. Todos os jovens coetâneos na Cidade do Sol seriam irmãos uns dos outros, e chamariam de “pai” todos aqueles que fossem quinze anos mais velhos.

Citamos Campanella e a Cidade do Sol para sustentar a tese de que sua utopia retorna em diversas comunidades alternativas brasileiras e, apesar de algumas diferenças, o norte destes agrupamentos é o mesmo. Para estas comunidades, existiria um modelo ideal de cidade e política e, para tal ideal ser viabilizado, três coisas são fundamentais: 1. Abolição da propriedade privada; 2. Uma estrutura que reproduza em escala mundana a harmonia macrocósmica; 3. Uma ética sexual, sendo que na quase totalidade das vezes o que se verifica é uma norma disciplinar sexual derivada de determinações metafísicas, sem liberdade individual e subseqüente sujeição do corpo individual ao corpo maior do Estado. Cabe salientar que esta terceira peculiaridade é duramente criticada por Reich em seu livro “Psicologia de Massas do Fascismo”. Ao contrário de criar uma utopia, tal inculcação mística constituiria, para ele, o mecanismo certeiro de elaboração de um Estado fascista. A submissão sexual dos indivíduos a tais regras metafísicas seria o exemplo de uma distopia perpetrada por um governo totalitário orwelliano.

INDIOS BORORO: UMA CIDADE DO SOL

É notável verificar que a metafísica de uma política astrológica teorizada por Campanella pode ser encontrada entre tribos indígenas brasileiras. No Brasil, temos os índios Bororo, para os quais as constelações são consideradas elementos norteadores fundamentais para a construção e estabelecimento de suas aldeias. O fato é que, partindo de hipóteses lógicas ou de percepções intuitivas, todas as culturas do mundo se defrontaram com a questão do tempo, do espaço e do céu como elementos interativos na construção de um espaço urbano e político. Dentre as culturas brasileiras existentes, o estudo dos bororos merece destaque pelo fato de que, para eles, praticamente toda a cidade e sua estrutura social se pautam em fundamentos astronômicos. O povo Bororo sempre se valeu de tais observações tanto para contar a passagem do tempo quanto para organizar o espaço tribal e a estrutura social, com seus clãs. Tal fato foi constatado em 1936 por Claude Levi-Strauss (1908-2009), numa visita realizada à aldeia Kejara, no sul do Mato Grosso. Em 1982 e 1983, um pesquisador da Universidade de Princeton, Stephen Fabian, patrocinado pela Comissão Fullbright e afiliado à USP, também realizou excursão às aldeias Bororo.

As aldeias Bororo são, à sua maneira, a realização prática (com diferenças, evidentemente) da tese sustentada por Campanella: uma cidade governada pela harmonia das esferas celestes, não apenas no âmbito arquitetônico, como também – e principalmente – no âmbito das relações sociais. Não se limitando a criar uma mitopoética a partir das observações estelares, o povo Bororo tem a peculiaridade de planejar e orientar os desenhos de suas aldeias, assim como as relações sociais, de acordo com padrões estelares. Assim como na obra de Campanella, o povo Bororo crê na possibilidade de captação de forças estelares a partir das estruturas arquitetônicas. O calendário Bororo é pautado pelos posicionamentos estelares, que marcam eventos culturais importantes. Assim como na Cidade do Sol, os membros da tribo não podem realizar casamentos com quaisquer outros membros, e sim com indivíduos específicos, de acordo com a classificação estelar de seus clãs.

O povo Bororo se localiza no centro geodésico da América do Sul, onde hoje se localiza o Estado do Mato Grosso. Dispersos numa grande área ao sul da bacia de drenagem amazônica, a oeste do rio Araguaia, na área de drenagem do rio Paraná, os bororos foram a tribo mais numerosa deste território. O território Bororo original atingia a Bolívia, e era trezentas vezes maior do que o atual. Stephen Fabian constatou as seguintes implicações das observações astronômicas na vida dos bororos: 1. Contagem diurna do tempo, de acordo com a posição de Meri (Sol); no turno noturno, contagem do tempo de acordo com a posição de Ari (Lua), quando esta aparece. Quando Ari não surge, o tempo é contado de acordo com estrelas mais visíveis; 2. O calendário deriva do ciclo sinódico da Lua; 3. A contagem das estações é realizada de acordo com as Plêiades, batizadas Akiri-doge, importantes por conta de seu brilho singular. O momento em que as Plêiades nascem, antes da aurora, representa um marco especial para atividades culturais significativas, como ritos de maturidade e ritos funerários; 4. Os elementos constituintes da aldeia são dispostos em conformidade com o trajeto solar; 5. As posições de um clã na circunferência da aldeia dependem de posições estelares. Exemplo: no caso do clã Paiwoe, a estrela Ceti (chamada de Tugiga Kiwu) ascende por sob a casa deste clã. Assim sendo, qualquer casa do clã Paiwoe deve ser erigida de modo a respeitar a ascensão reta de Tugiga Kiwu, a fim de receber suas energias;

Os bororos são um relevante exemplo de comunidade cuja organização estrutural é realizada em função direta do relógio cósmico, e que visa a respeitar os atributos simbólicos estabelecidos em torno dos astros. Para os bororos, a aldeia não se limita ao espaço terrestre, mas é um reflexo do espaço celeste. As pessoas que habitam a aldeia não se dispõem aleatoriamente nos espaços geográficos. As casas, assim como as disposições dos clãs obedecem fielmente aos posicionamentos estelares. Levi-Strauss e Fabian descrevem em diferentes relatos os bororos como sendo um povo extremamente amigável, desprovido de malícia e agressividade. E ainda que seja tentador utilizar o exemplo dos bororos para exemplificar a idéia do “bom selvagem” de Rousseau, é improvável que tal associação fosse crível para o este filósofo. Mais provavelmente, ele defenderia que os bororos seriam algo próximo do seu conceito de “bom selvagem”, mas estariam eles também corrompidos. Afinal, a ordem social, mesmo próxima à natureza, não seria natural. É um erro comum considerar que o “bom selvagem” de Rousseau possa ser encontrado em tribos indígenas, por mais amistoso que seja o povo. Em verdade, o “bom selvagem” se localiza perdido no tempo, sendo antes uma lembrança mítica do que uma entidade identificável, histórica ou espacialmente.

O CONCEITO DE ERAS E O RELÓGIO CÓSMICO

No que concerne às comunidades orientalistas contemporâneas em território brasileiro, é essencial compreender o conceito metafísico basal que as norteia, igualmente astrológico: o relógio cósmico. Vale ressaltar que tanto o ocidente quanto as tradições orientais, de diferentes modos, discorreram sobre grandes ciclos cósmicos. A partir do entendimento deste conceito, sustentamos que tais comunidades podem ser classificadas como “utopistas”, dentro dos critérios estabelecidos em nossas reuniões de pós-graduação no segundo semestre de 2010.

Para os orientalistas, o relógio cósmico tem quatro tempos, chamados yugas. Os 4 yugas são equivalentes às Eras, conforme denominadas pela tradição helênica: a Era de Ouro (krita), de Prata (treta), de Cobre (dwapara) e de Ferro (kali). Para as comunidades orientalistas, é consensual a tese de que a humanidade atual se encontra no kali yuga, sendo esta a mais degenerada de todas as Eras. A passagem de krita para kali ilustra um processo de degeneração, que vai do momento mais luminoso e elevado ao momento mais decadente. Ao final da degeneração máxima, o processo é reiniciado a partir de krita. A oscilação, portanto, não se daria como uma onda que decresce e cresce, mas sim como uma onda que decresce até seu ponto de arrebentação, dando lugar a outra onda que subitamente surge do ponto mais alto. Ou seja, a passagem de máxima iluminação para máxima treva é gradual, mas a passagem de máxima treva para máxima iluminação é súbita.

Há uma diferença de durabilidade entre os diferentes yugas. Apesar de o processo degenerativo ser inescapável, quanto mais inferior for o yuga, menor a sua duração. A junção de todos os yugas forma um Manvantara, cuja representação numérica é o 10, como na Tetraktys pitagórica. Cada Era que compõe o Manvantara representa uma parcela do número 10, na seguinte proporção: 4 para krita, 3 para treta, 2 para dwapara e 1 para kali. De acordo com a tradição shivaísta, o tempo total do Manvantara é de 64800 anos, sendo kali o período mais curto, cuja duração é de 6480 anos. O tempo dos outros períodos é definido de acordo com os múltiplos de 2 (12960 anos, dwapara), 3 (19440 anos, treta) e 4 (25920 anos, krita). Há outras versões para a duração dos yugas, considerando períodos dez vezes maiores do que todos os aqui listados. A versão shivaísta, contudo, é a mais aceita pela comunidade estudada, Nova Gokula.

Curiosamente, o tempo total do Manvantara shivaísta equivale a quase exatamente duas vezes e meia o ciclo de precessão dos equinócios estudado pelos antigos astrólogos ocidentais. O ciclo precessional tem duração aproximada de 25800 anos e decorre da mudança gradual do eixo de rotação terrestre em relação às estrelas. Deste modo, uma precessão inteira seria marcada pela Era de Ouro,  enquanto os demais yugas marcariam uma precessão e meia. A astrologia ocidental também defende a tese das Eras, mas de modo diferente dos orientalistas. Para a astrologia ocidental, cada ciclo precessional de 25800 anos pode ser dividido em 12 Eras astrológicas. Seria possível identificar em qual Era estamos, de acordo com a constelação celeste para a qual o ponto vernal do eixo terrestre aponta. Para a tradição ocidental, a Era é algo fisicamente mensurável, e o ponteiro é o ponto vernal: origem de contagem da ascensão reta, uma coordenada azimutal equatorial. No presente momento (2010), o ponto vernal aponta para a constelação de Peixes, e aproximadamente no ano 2160 passará a apontar para a constelação de Aquário. Vale aqui ressaltar que o movimento precessional é retrógrado, ou seja, o ponto vernal aponta para as constelações no sentido horário.

Comparando os conceitos orientalistas com a astrologia ocidental, é possível compreender de onde deriva a crença utópica de que a Era de Aquário será a Era da sociedade ideal. Isso deriva menos das características simbólicas atribuídas ao signo em si, já que todos os signos possuem lados luminosos e trevosos, e mais ao fato de que a Era de Aquário em tese ocorreria simultaneamente ao final do kali yuga. Em seguida, entraríamos num novo Manvantara, quando durante mais de 25800 anos viveríamos no paraíso, mesmo com a mudança das Eras da astrologia ocidental.

Quanto à comunidade orientalista “Nova Gokula”, assim como em relação a outras comunidades alternativas, constatamos que todas sustentam que: 1. Os males da humanidade são produzidos, e não inatos; 2. A causa dos males da humanidade tem razão única, isto é, o movimento do relógio cósmico, contra o qual não é possível lutar, mas é possível administrar; 3. Caminhamos inexoravelmente para uma iminente mudança de Era, em que a humanidade retornará a uma existência áurea e libertará sua verdadeira essência, que é boa.

Há, contudo, ao menos um elemento realista nestas comunidades, já que elas afirmam não ser possível – no yuga atual – fazer mais do que um controle de danos, administrando os males, sendo impossível eliminá-los. Tal idéia se apóia num lastro determinista, pois se o Cosmo é um relógio preciso e tais yugas são inescapáveis, resta à humanidade submeter-se à passagem das qualidades do tempo. A despeito de a humanidade como um todo estar submetida à irrevogabilidade do relógio cósmico, seria possível criar agrupamentos humanos que, estando idealmente isolados da sociedade comum e praticando técnicas disciplinares, seriam capazes de administrar os efeitos degenerativos de kali. Por essa razão, Nova Gokula se vê como um núcleo preparatório para o retorno de krita. Tais comunidades demonstram ter consciência de que também se encontram contaminadas pelos efeitos degenerativos de kali, muito embora numa intensidade menor, justamente por conta dos procedimentos disciplinares adotados: alimentação específica (vegetariana), abolição da propriedade privada e políticas de controle da sexualidade.

A comunidade Nova Gokula, localizada no Estado de São Paulo, ocupa uma área de 119 hectares na Serra da Mantiqueira e é uma área de preservação ambiental. Deriva o seu viver comunitário a partir do orientalismo importado para o ocidente por seu líder maior, Prabhupada (1896-1977), nascido em Calcutá. A primeira comunidade ocidental pautada nos ensinamentos de Prabhupada se localizava no oeste da Virgínia, nos EUA, criada em 1968. Rapidamente a comunidade conseguiu adeptos, sobretudo entre os hippies, identificados com a proposta do flower power – por uma sociedade sem violência, e baseada no amor. O sucesso das comunidades orientalistas de Prabhupada no final dos anos 60 pode ser explicado pelo fato de que tanto os orientalistas quanto os hippies ocidentais acreditavam numa idéia comum: a de que a sociedade ocidental é distópica, mas a humanidade vive um momento de transição para uma Nova Era e que o fim da miséria é inexorável. Os orientais crêem no advento de krita, e os ocidentais esperam pelo advento da Era de Aquário.

Todavia, não tardaram a surgir conflitos. Ao contrário do estilo de vida hippie, que preconiza a liberdade sexual e até mesmo o uso de substâncias alucinógenas como instrumentos de expansão da consciência, os ensinamentos orientalistas de Prabhupada gravitam em torno de práticas ascéticas em que o controle da energia sexual é fundamental. À parte algumas crenças em comum, a incompatibilidade insolúvel é a política sexual, que no caso de Nova Gokula guarda similaridades com a proposta da Cidade do Sol de Campanella: o sexo é para a reprodução, e os sacerdotes indicam casais compatíveis a partir de parâmetros metafísicos. Assim como na proposta de Campanella, todas as mulheres acima de determinada idade são chamadas de “mãe”. Já para os hippies, a utopia é reichiana, preconizando a liberdade sexual. Como ponto comum, ambos os grupos se aproximam de Marx: a propriedade privada seria abolida na sociedade ideal.

Qualquer cidadão pode se tornar um residente de Nova Gokula, contanto que compreenda e aceite as seguintes condições extremamente rígidas e detalhadas, que podem ser lidas na íntegra a partir do seguinte link:

http://novagokula.com.br/informacoes/estatuto.html

A alimentação vegetariana constitui clara convergência incidental com uma das propostas de Rousseau, que se refere ao carnivorismo como incondizente com a verdadeira natureza humana. Tal observação se encontra na nota H de seu Discurso, onde ele afirma: “(…) me basta haver mostrado, nesta pequena parte, o sistema mais geral da natureza, sistema que fornece uma nova razão de tirar o homem da classe dos carnívoros e de o colocar entre as espécies frugívoras.”

Rousseau em momento algum prega o retorno ao estado de natureza, mas afirma que o cultivo de hábitos alimentares vegetarianos possibilitaria maior proximidade com tal estado. Segundo a teologia védica, é impossível retornar voluntariamente ao estado perfeito de krita, ao menos não enquanto não for a hora, pois tudo se sujeita ao relógio cósmico. Contudo, é possível cultivar um “estado de aproximação” por intermédio de práticas alimentares vegetarianas, pois a ingestão de carne animal instigaria a crueldade já tão intensa em kali yuga. O estilo alimentar faz, portanto, parte da ética da comunidade, assim como fazia também parte da proposta de Rousseau.

Na parte III do estatuto, “Da Residência”, verifica-se também uma série de exigências muito específicas que visam a eliminar o que é chamado de “ilusão da individualidade”: vestimentas padronizadas, raspagem dos cabelos para os homens, penteados que ocultam os cabelos para as mulheres, além da prática de cânticos de mantras por horas a fio, a fim de que a mente mundana se conecte com Deus. Todas as pessoas que fazem parte da comunidade, nela entram por livre e espontânea vontade, mas estão sujeitas a um regimento interno que pode excluí-las do grupo em caso de reincidência de contravenções. Os residentes parecem muito felizes, e o agrupamento demonstra quase ausência de individualidade, não havendo traços peculiares de caráter que distinguem uma pessoa da outra. Apenas nos recém-egressos é possível verificar traços comportamentais distintivos.

Por todo o exposto, é possível concluir que Nova Gokula é um ilustração real, contemporânea, de um pensamento utopista com convergências incidentais com Campanella, Rousseau e Marx, todavia distópica e com inclinações fascistas a partir de uma perspectiva reichiana.

BIBLIOGRAFIA

Campanella, Tommaso – A Cidade do Sol – Editora Ícone, 2002.

Darsanam, Kaivalya – A Ciência Sagrada – Self-Realization Fellowship, 1949.

Guénon, René – Formas Tradicionales y Ciclos Cósmicos – Editora Obelisco, 1984.

Lanzi, Claudio – Ritmi e Riti: Elementi di Geometria Pitagorica – Simmetria, 2008.

Marx, Karl – Manifesto Comunista – Boitempo Editorial, 2007.

Reich, Wilhelm – Psicologia de Massas do Fascismo – Martins Fontes, 2001.

Rousseau, Jacques – Discurso Sobre A Origem e Os Fundamentos da Desigualdade Entre Os Homens – Martins Claret, 2009.

http://www.novagokula.com.br/, em 26 de novembro de 2010.

VÍDEO SOBRE NOVA GOKULA:

http://www.youtube.com/watch?v=up-jJ1yMWuc

[Má] ficção científica a serviço do charlatanismo

setembro 10, 2010

Há quem comece pensando “epa, como alguém que gosta de astrologia e
tarot pode falar do charlatanismo alheio?”. Afinal, muita gente vê a
própria astrologia, o tarot e outras coisas como charlatanismo puro. É
que quem pensa assim não percebe a diferença entre saberes
não-científicos [no sentido contemporâneo do termo] e
charlatanismo. Uma coisa não ser parte do corpus da ciência oficial
não converte esta coisa em engano, engodo. Engodo é tudo o que tenta
passar algo que não é, que nem aquele[a] gostoso[a] com quem você
teclou na internet, que depois se revela um tribufu que te enviou
fotos falsas.

Se você não entendeu a diferença, não me incomodo em explicar
novamente: charlatanismo é tudo aquilo que se diz uma coisa que não é.
Mentira deslavada. Um bom astrólogo não é charlatão, não vende seu
peixe como algo referendado pela ciência moderna, mas pode se tornar
um se começa com um discurso do tipo “a ciência comprovou que energias
são enviadas dos planetas, causando ressonância na glândula
pituitária” [já vi este tipo de argumento], pois isso evidentemente é
mentira. Ops! Eu disse “evidentemente”? Desculpem, não é evidente,
não. Ao que parece, uma grande quantidade de pessoas acredita em
qualquer bobagem que vê na internet, principalmente se vier ao lado
das seguintes palavras mágicas: A FÍSICA QUÂNTICA COMPROVA, NASA, e
outras coisas que no momento me escapam.

Se um astrólogo entende seu corpo de conhecimento como não-científico
[no sentido popperiano do termo] e compreende que não há problema
algum nisso [ademais, nem tudo precisa ser "ciência popperiana" para
ter valor], não há como dizê-lo um “charlatão”. Vou repetir só mais
uma vez: charlatão é quem diz ser uma coisa que não é. Conhece um
astrólogo que diz que a ciência oficial comprovou a astrologia? É
mentira dele. A astrologia precisa da validação da ciência oficial?
Não, não precisa, a astrologia é outra ordem de discurso, é uma forma
de representar o mundo. Goste de astrologia ou não, acredite nela ou
não, você há de concordar que um bom astrólogo jamais se vende como
algo que deveras NÃO é. Alguém que procura um astrólogo pra fazer seu
mapa astral ou um pai de santo para jogar búzios é geralmente uma
pessoa adulta, em domínio de suas faculdades mentais, que dificilmente
procura tais profissionais por achá-los validados pela ciência
oficial.

Há inclusive uma certa frase falsamente atribuida a Albert Einstein,
onde ele fala de quão maravilhosa é a astrologia. Já adverti vários
amigos queridos, que usam ingenuamente tal frase, que ela é um engodo.
Einstein jamais se posicionou a respeito da astrologia, nem positiva e
nem negativamente. Como se vê, às vezes o charlatanismo se manifesta
de forma não-intencional.

O problema é quando você insere falsidades no discurso de propósito.
Isso não é “se enganar”, como ocorreu com alguns amigos astrólogos no
caso da frase de Einstein. Isso é enganar os outros, com conhecimento
de causa!

O que dizer de um lixo como este no link abaixo?

http://www.permutalivre.com.br/289532/a-pulseira-bioquantica-e-um-novo-produto-que-usa-alta-tecnologia-foi-desenvolvida-por-um-cientista-da-nasa-ela-consiste-num-holograma-quantico.html

Ora, quem vende tais “pulseiras bioquânticas” a partir das informações
contidas na publicidade do site, sabe muito bem que nenhum cientista
da NASA jamais criou algo deste tipo. E pior: esta pulseira não tem
absolutamente nada a ver com nada das teorias quânticas. É puro
embuste, charlatanismo grosseiro com a finalidade de arrecadar
dinheiro de gente ingênua e mal informada. Não vejo diferença nenhuma
entre esta “pulseira bioquântica” e o “óleo milagroso” que pastores de
igrejas evangélicas costumam vender, prometendo a cura do câncer no
pâncreas. Ah, ok, tem diferença de preço: o tal óleo ungido custa 300
reais, e a “pulseira bioquântica” custa apenas 120. Só fico na dúvida
se quem preconiza tamanhas palhaçadas o faz porque acredita mesmo
nisso, ou se é safadeza. No caso da “pulseira bioquântica”, trata-se
de safadeza indubitável, já que associar a criação deste engodo
colorido com cientistas da NASA é mentira cavernosa. Já falei sobre
isso em outras ocasiões: volta e meia recebo e-mails de pessoas
conhecidas, a maioria delas bem inteligentes, que me repassam
maluquices sem-fim supostamente ditas por “cientistas da NASA”. Em
geral, elas ficam desapontadas quando eu digo que é mentira. É porque
o mundo tedioso e ordinário parece pedir teorias conspiratórias,
mistérios e milagres que os cientistas supostamente escondem. Até
travesseiro hoje em dia é vendido como sendo “travesseiro da NASA”,
apesar de, no caso do travesseiro, haver uma razão de ser: trata-se,
efetivamente, de uma tecnologia originalmente criada por cientistas da
NASA. O que muita gente não sabe é que tal travesseiro foi descartado
por não cumprir adequadamente o fim a que se destinava. De todo modo,
o travesseiro em si não oferece propriedades medicinais especiais. É
até confortável, eu tenho um.

Está na moda, pelo visto, usar o termo “quântico” em tudo. Anos atrás,
recebi a propaganda de um curso intitulado O SABRE DE LUZ QUÂNTICO.
Curioso, pensando em espadas jedi, liguei para a escola e pedi para
falar com a ministrante do curso. Deu-se o seguinte diálogo:

- Olá! Você poderia me dizer o que é o curso do sabre de luz quântico?
- É uma série de técnicas que ajudarão você a dar um salto quântico em sua vida!
- Mas o que é um salto quântico?
- É a mudança total de sua qualidade de vida! Você melhorará seus
hábitos, sua autoestima, vai se sentir mais bem disposto…
- E como a gente aprende a dar este salto quântico no curso?
- Você aprende técnicas de meditação e de mentalização.
- Ah, entendi! Então o curso na verdade é um curso de meditação e de
visualização criativa, que vai me deixar mais relaxado e mais bem
disposto?
- Isso mesmo!
- Obrigado!

Eis o fato: quer vender um produto no mercado? Basta inserir o termo
QUÂNTICO, que não significa absolutamente nada no contexto do produto,
e uma legião de pessoas aderirá ao que você tem para vender, só por
conta da moda.

Mas vejam, eu não sou um sequestrador de palavras! Admito que uma
mesma palavra possa significar coisas distintas, afinal o que são
homônimos não é mesmo? Podemos então definir “quântico” como algo, num
sentido científico, e “quântico” como outra coisa, um balaio de gatos
onde se mistura autoestima, energia positiva, etc. E dá pra colocar
isso no dicionário, deixando claro que existem dois sentidos para
“quântico”.

Só que não existe malabarismo da retórica que dê conta da mentira
descarada que é vender um produto, dizendo-o “criado por cientistas da
NASA” a partir da física quântica. A única palavra adequada para isso
é “charlatanismo”.

Seu kit de defesa contra a Astrologia Malvada

março 6, 2010

Traduzido originalmente como “Seu kit de defesa contra a Astrologia” pela Sociedade Brasileira de Astronomia, o artigo de Andrew Fraknoi merece ser lido por servir de exemplo ilustrativo de como um cientista, por mais inteligente que seja, pode incorrer em ignorância. Andrew Fraknoi, se tivesse se dado ao trabalho de ler um só livro de Astrologia, não teria elaborado uma crítica tão deficitária.

O artigo, versionado para o português, pode ser lido aqui:

http://stalbertus.com/?page_id=418

Comecemos pelo título pretensioso: a Astrologia é maligna, e demanda um kit de proteção. Quiçá seja radioativa!

Agora vamos ao pior: aquilo que Fraknoi chama de “dez perguntas embaraçosas”. Estas tais perguntas chegaram a ser publicadas na Superinteressante quando eu não tinha nem 20 anos de idade. Na época, respondi a cada uma das questões, pois se tratam de perguntas que qualquer pessoa que tenha estudado Astrologia minimamente sabe responder. Não há nada de embaraçoso nestas perguntas, salvo o embaraço em que Fraknoi se coloca, ao demonstrar que critica algo sobre o qual jamais leu.

Em sua primeira pergunta, Fraknoi pergunta qual a probabilidade de 1/12 das pessoas do mundo estarem vivendo o mesmo dia. Fraknoi já começa demonstrando que o conhecimento dele a respeito de Astrologia se resume a horóscopos de jornal, que estão longe de serem um bom exemplo do que seja o conhecimento astrológico. Astrólogos estudam mapas astrais individualizados, que consideram a data de nascimento, a hora, a latitude e a longitude do local de nascimento. Signos solares, abordados em horóscopos de jornais e revistas, não são mapas astrais. Os horóscopos atendem a uma necessidade comercial: o público exige a existência de um setor horoscópico, e os jornais pagam para que alguém os escreva. Mas horóscopos de jornal representam apenas o aspecto mais superficial da Astrologia. Eu, particularmente, os detesto. Há quem os faça porque ache que eles ajudam a estimular o interesse pela Astrologia. Pode até ser. Mas é fato que eles, os horóscopos de jornal, estimulam também o preconceito contra a Astrologia. Não sou tolo, contudo, de imaginar um mundo sem horóscopos de jornal. O público os exige. Se um astrólogo não os escrever, alguém os inventará para que o jornal possa suprir esta demanda.

Na segunda pergunta, Fraknoi questiona por que astrólogos usam o horário do nascimento, e não o da concepção. Existiu uma corrente astrológica antiga, chamada “genetlíaca”, que procurava analisar o mapa da concepção. Este, contudo, revelou-se menos eficiente do que os mapas de nascimento. Além disso, o surgimento do ser separado de sua mãe, ao menos biologicamente falando, é no nascimento, e não na concepção.

Em sua terceira questão, Fraknoi pergunta como é possível que o ventre materno possa manter as “influências astrológicas” afastadas do bebê. Mas que “influências”? Os astrólogos, salvo alguns que defendem a idéia estranha de “influência astral”, não defendem que a Astrologia se explique por relações causais, em que o astro X influencia um corpo Y. O que melhor explica o funcionamento da Astrologia, na minha opinião, é o conceito de sincronicidade, conforme exposto pelo psicólogo austríaco Carl Jung. Diga-se de passagem, Jung não foi original em sua idéia. A idéia de analogia (que nada tem a ver com concepções causais) é um dos princípios esotéricos mais antigos: “Aquilo que está em cima é como aquilo que está embaixo”, diz a Tábua Esmeralda de Hermes Trismegisto. Vejam que o paradigma não diz que “aquilo que está em cima CAUSA aquilo que está embaixo”. Os acontecimentos terrestres seriam, portanto, um espelho dos movimentos celestes, e não uma decorrência destes movimentos.

Sobre a quarta questão de Fraknoi, sem comentários – ele nunca me conheceu, pelo visto :) Todos os grandes acontecimentos da minha vida foram guiados pela Astrologia, que foi utilizada como um instrumento de estratégia para elaborar planejamentos. E eu conto nos dedos as vezes em que fui mal sucedido em algum empreendimento.

Na quinta questão, Fraknoi pergunta se a Astrologia estava errada, antes da descoberta de Urano, Netuno e Plutão. Esta é a questão mais estranha, ao ser pronunciada por um cientista. A ciência pretende ser uma eterna busca, estamos sempre descobrindo coisas novas, por que com a Astrologia deveria ser diferente? Descobrir novos corpos celestes e investigar seus significados simbólicos me parece fazer parte natural do desenvolvimento do saber astrológico.

Na pergunta de número 6, Fraknoi questiona se a Astrologia não é uma forma de discriminação. Ora, qualquer coisa pode ser usada como forma de discriminação, mas isso não é um problema do instrumento, e sim do discriminador! Já li artigos de “cientistas” que usaram a cor da pele como forma de discriminação. Canso de ler artigos “científicos” que tentam provar que o cérebro feminino é menos habilidoso para as ciências exatas. Se a Astrologia se converterá ou não num instrumento de preconceito e discriminação, isso depende de quem maneja o instrumento, e não do instrumento em si.

A sétima questão de Fraknoi é de matar de rir. Ele pergunta por que as escolas de Astrologia discordam tão fortemente entre si. Alô? Estou mesmo lendo um cientista? Eu frequento o meio científico, e em nenhum outro lugar as pessoas discordam tanto entre si. E por que a discordância de opiniões seria um problema? Astrologia não é uma religião, é um conhecimento. É natural que seus praticantes discordem em diversas coisas. Seria esquisito, isso sim, se houvesse um acordo uníssono e uma concordância infinita – o que sempre me cheira a despotismo.

As três últimas questões de Fraknoi se resumem ao mesmo conceito equivocado de “influência planetária”. Estou ciente de que alguns astrólogos acreditam em influência invisível dos planetas. Mas a tendência maior dos astrólogos é a de considerar o Universo a partir de uma perspectiva holística: todas as coisas estão interrelacionadas, uma espelha a outra. Sintetizando: não acredito em influência planetária. Não acredito que é “por causa de Saturno” que uma pessoa é deste ou daquele jeito. A Astrologia, para mim, é como um grande relógio cósmico simbólico. E não é POR CAUSA dos ponteiros do relógio que agora são 18h19m. O relógio apenas indica o que há. Relógios não causam as horas.

Por fim, Fraknoi fala de várias pesquisas e testes que demonstraram o quanto a Astrologia é explicada pelo fenômeno da leitura fria. Falei sobre isso num tópico anterior. De fato, o problema da leitura fria existe, mas este não é um problema da Astrologia, é um problema de algumas pessoas que não têm muito critério nem para tecer interpretações, nem para avaliar se tais interpretações REALMENTE têm a ver com elas. Além disso, a maioria destes experimentos é encomendada por grupos que têm o interesse específico e direto de demonstrar que a Astrologia não funciona. Ou seja, são pesquisas viciadas, que já nascem com uma intenção muito definida, pesquisas cujo comprometimento não é com a verdade, e sim com a confirmação do pensamento do pesquisador. Uma pesquisa assim já nasce comprometida até a raiz do cabelo.

Por fim, devo reiterar o que sempre digo: a Astrologia é passível de críticas. Eu mesmo faria várias. Essas do Fraknoi são fraquinhas de doer… Se a Sociedade Brasileira de Astronomia quiser, um dia eu elaboro as críticas difíceis. Mas se eu fosse presidente da Sociedade Brasileira de Astronomia, muito honestamente, eu sugeriria que meus associados fossem se preocupar com coisas mais importantes e deixassem o saber dos outros em paz e parassem de pensar que as pessoas são retardadas mentais ou crianças que precisam ser “protegidas” contra o monstro malvado da Astrologia.



Estrelas variáveis

outubro 23, 2009

Em Astronomia, damos o nome de “estrelas variáveis” a alguns tipos específicos de estrelas cujo brilho varia consideravelmente num intervalo inferior a cem anos. As razões desta variabilidade são muitas, destacando as seguintes:

Estrelas variáveis pulsantes apresentam variabilidade em decorrência da pulsação de sua camada superficial. Tais pulsações modulam sua luminosidade, desencadeando variações periódicas em escalas de tempo que variam de minutos a até mesmo séculos. Um exemplo é a estrela Delta Cephei. É importante não confundir as variáveis pulsantes com pulsares – são coisas diferentes!

Estrelas variáveis rotacionais apresentam distribuição superficial de brilho não-uniforme. A variabilidade decorre da rotação axial da estrela em relação ao observador. A distribuição não-uniforme pode ser desencadeada por vários fatores, tais quais a presença de manchas ou mesmo pela falta de uniformidade termoquímica na estrela.

Estrelas variáveis eruptivas apresentam variabilidade em decorrência de erupções que ocorrem na cromosfera estelar. As mudanças de luminosidade, neste caso, são acompanhadas da ejeção de matéria na forma de vento estelar. Um exemplo muito “famoso” é a estrela Eta Carinae.

Estrelas variáveis eclipsantes apresentam variabilidade por conta de fatores externos à estrela. A variabilidade pode ser decorrente de um eclipse, e tal eclipse pode ser desencadeado por uma estrela próxima que forme um sistema binário ou mesmo por uma superterra, que oblitere periodicamente o brilho de sua estrela-mãe. Algol é uma estrela variável eclipsante.

Fontes de Raios-X são sistemas binários estelares em que um dos componentes é uma estrela compacta quente (exemplos: anãs brancas, buracos negros ou estrelas de nêutrons) que são fontes emissoras de raios-X.

Estrelas variáveis cataclísmicas são sistemas compostos por uma estrela próxima da sequência principal (ou seja, uma estrela cujo raio é parecido com o do nosso Sol), uma anã branca e um disco de acréscimo. A interação entre tais elementos desencadeia explosões constantes que fazem a nossa percepção do brilho variar.

Semeando Filosofia – Evento aberto ao público

agosto 9, 2009

O projeto “Semeando Filosofia” é uma iniciativa de ex-alunos do tradicional curso de Filosofia da Universidade São Judas Tadeu. Cada palestra expõe os resultados dos trabalhos de pesquisa como condição fundamental para a conclusão do curso de Bacharel em Filosofia. Entrada franca! Ocorrerá no auditório da Livraria Cultura, no Shopping Bourbon, nos dias 29 e 30 de agosto [respectivamente, sábado e domingo].

Ao final do evento, teremos uma palestra de encerramento com a participação das professoras Sônia Dion (USJT) e Glória Muñoz (PUC-SP).

Confira abaixo a programação. Divulgue, apareça e leve seus amigos!

INSCRIÇÕES PRÉVIAS NÃO SÃO NECESSÁRIAS.

PROGRAMAÇÃO – 29 de agosto [sábado]

14h45m – ABERTURA – Apresentação do evento “Semeando Filosofia” – Alexey Dodsworth e Alessandra Batista.

15h – ENTRE KUHN E FEYERABEND, O DESAFIO DE EXPLICAR A MUDANÇA CIENTÍFICA
Palestrante: Rita Foelker

15h40m – O TOLERÁVEL E O INTOLERÁVEL EM PAUL RICOEUR
Palestrante: Felicidade Muñoz

16h20m – O PROBLEMA DA NATUREZA INTRÍNSECA DOS FENÔMENOS MENTAIS – OS DEBATES ENTRE NAGEL E RORTY
Palestrante: Pablo de Araújo Batista

17h -  FÍSICA DE NEWTON E DEUS: UMA CONCILIAÇÃO POSSÍVEL?
Palestrante: Marcus Vinicius Russo Loures

17h40m – O TEMPO EM MERLEAU-PONTY
Palestrante: Clio Francesca Tricarico

18h20m – FILOSOFIA E LITERATURA: UMA REFLEXÃO ACERCA DA OBRA DE PIRANDELLO
Palestrante: Jean Gaspar

19h – COMO ENCARAR A MORTE ATRAVÉS DA FILOSOFIA DE PLATÃO
Palestrante: Tarcísio Oliveira

PROGRAMAÇÃO – 30 de agosto [domingo]

15h – CAMINHOS DE PENSAMENTO EM HEIDEGGER – ÉTICA E TÉCNICA MODERNA
Palestrante: Roberto Rocha

15h40m – CONHECIMENTO METAFÍSICO EM SCHOPENHAUER
Palestrante: Rodrigo Braga Alonso

16h20m -  HUME E A POSSIBILIDADE DA CRÍTICA DO GOSTO
Palestrante: Eleni Carvalho

17h – DIDEROT E A VIRTUDE SEM DEUS
Palestrante: Wellington Martins

17h40m – SOBRE A EXISTÊNCIA DE DEUS – ARGUMENTOS E CONTRA-ARGUMENTOS, SEGUNDO DAVID HUME
Palestrante: Alexey Dodsworth

18h20m – O QUE SIGNIFICA EFETUAR UMA LEITURA FILOSÓFICA DE OBRAS CLÁSSICAS?
Palestrantes: Yolanda Glória Muñoz (PUC-SP) e Sônia Dion (USJT).

A moral política segundo Maquiavel

junho 25, 2007

Afirmar a política maquiavélica como algo que exclui a moral seria válido apenas a partir de uma perspectiva cristã e, efetivamente, tudo gira em torno disso: perspectivismo. De fato, se pensarmos sob o ponto de vista cristão, seria acertado dizer que o caráter político é destituído de moral. Vale salientar que, contemporaneamente a Maquiavel, vários autores escreveram diversos manuais do estilo “espelho dos príncipes”, cujo objetivo era fornecer um norteamento comportamental (ou seja, um espelho) para aquele que governa, e tais manuais se pautavam necessariamente numa moral cristã.

Rompendo com as tendências de sua época, Maquiavel choca a sociedade ao apresentar ele mesmo a sua proposta de um “espelho”, caracterizado por seguir uma moral pagã. Diante do pensamento cristão, o pensamento pagão de fato se torna algo próximo do mal, ou que é visto como um mal, mas seria um total etnocentrismo considerar que “moral” é apenas aquilo que segue princípios cristãos.

O próprio termo “moral” é auto-explicativo: a palavra vem do latim mores – “relativo aos costumes”. E, obviamente, costumes variam de época para época e de cultura para cultura, assumem valor de verdade só para depois serem substituídos. A única coisa constante no mundo é a inconstância e, deste modo, podemos afirmar que a vida efetiva da política demanda adaptabilidade, o que implica em não seguir um modelo que esteja comprometido com apenas um valor ético. Defender o modelo cristão como a única moral e definir tudo o que fugir a este modelo como não-moral não passa de etnocentrismo. Ainda que imperativos categóricos com leis morais não-relativizáveis, como o estabelecido por Kant, sejam atraentes e até mesmo belos enquanto conceitos teóricos, revelam-se pouco efetivos para a vida pública. Maquiavel demonstra, a partir de exemplos históricos, que não existe uma moral a priori no que diz respeito à administração pública, e que tudo depende das circunstâncias. Isso é, obviamente, herético a partir da visão cristã, onde há mandamentos claros a respeito de como devemos ou não nos portar. Entretanto, que fique claro que Maquiavel não nega a moral cristã, ao menos não para a esfera privada, para o indivíduo. Pessoas, enquanto indivíduos e na esfera privada, devem se nortear por princípios de bondade, compaixão, compromisso com a verdade, etc. Tal coisa não é negada por Maquiavel. O príncipe (governante), todavia, ao observar processos históricos, sendo realista, percebe que, se agir o tempo inteiro com bondade, compaixão e for sempre verdadeiro, será destruído. Não se trata de uma verdade criada por Maquiavel, mas de uma verdade observada por ele.

A vida política e o homem público, segundo Maquiavel, não deveriam buscar externamente a própria moralidade, seja em imperativos, seja em livros sagrados ou em tábuas de mandamentos. A política é autonormativa, justificando seus meios em prol de um bem maior, que é a estabilidade do Estado. E o príncipe, não sendo indiferente ao bem e ao mal, e ainda que valorize os princípios morais cristãos, compreende que o que para o indivíduo particular é ruim (como a mentira, por exemplo), é fundamental para o funcionamento da política. Afinal, a relação entre a moral e a política só se sustenta a partir do que é efetivo, e não a partir do que é afetivo: as realidades de fato, e não belos e espirituais conceitos abstratos. A esfera política é, gostemos ou não, relativista: o que para nós individualmente é definido como vício ou virtude, na política assume roupagem de vício benéfico e virtude perniciosa.

A segunda parte deste artigo pode ser lida em:

http://devir.wordpress.com/2009/09/03/a-moral-politica-segundo-maquiavel-parte-2/


Filosofia: evasão?

novembro 17, 2006

É deveras comum encontrarmos pessoas cujo entendimento do ato de filosofar o restringe a uma concepção abstrata e desligada da vida. Seria este, de fato, o papel da filosofia e de seus praticantes? Estaria a filosofia fadada a ser exercida por uma elite intelectual?

Sob determinados aspectos, é tentador considerar o exercício da reflexão filosófica como um escape do mundo. Para muitos, afinal, imaginar-se como pertencendo a uma aristocracia espiritual é motivo de soberba. Tal concepção, todavia, não é partilhada por todos os filósofos. Abbagnano, por exemplo, chama a atenção para o fato de que ser humano implica necessariamente em ser filósofo e que, portanto, seria inviável conceber a filosofia como um anestésico da consciência. A existência humana é caracteriza pela angústia do ser-sendo, do ser que se percebe sendo. e, deste modo, filosofar é angustiar-se, mover-se, pensar o mundo e interferir sobre ele.

Encontramos um pensamento análogo em Husserl, que vê os filósofos como seres tomados pelas chamas prometéicas da consciência, capazes de contaminar o mundo circundante com o espírito transformador sempre em ebulição. Assim como Abbagnano, Husserl evoca a imagem da filosofia como um saber que, ao contrário de evadir-se do mundo, atua sobre ele (ainda que com muitas mediações – esta parte é uma interferência do meu professor, Hélio). Husserl considera que somos limitados pelo mundo, mas ressalta que somos nós que agimos sobre este mesmo mundo. A partir do que recebemos, conferido pela realidade na qual nascemos e vivemos, também pomos a realidade em movimento. O que caracteriza a filosofia para Husserl é um olhar em busca da verdade. Se esta verdade será encontrada, não há garantias. Mas o que importa é a busca, e não descobrir a verdade. O processo de buscar garante o movimento. A evolução orgânica pode até ter causas determinadas, mas a humanidade psíquica nunca foi concluída, nem nunca o será. O telos espiritual da humanidade se encontra no infinito: é um constante vir-a-ser. Deste modo, é inviável pensar a filosofia como uma abstração ociosa (no sentido negativo deste termo, pois há o sentido altamente positivo do ócio, conforme nos lembra Domenico deMasi) ou edênica, paradisíaca. Ao contrário: a filosofia incorre em movimento, em perda da inocência, em queda do paraíso. E, conforme nos ensina Milton em seu Paradise Lost, “a inocência perdida jamais é recuperada“.

Longe de nos manter num paraíso infantil, a filosofia nos expulsa dele, como que a dizer: crie mundos.


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