A intolerância religiosa como arma política

Publicado outubro 22, 2012 por Alexey Magnavita
Categorias: Religião

Não sou cidadão de Campina Grande. Não voto neste município. Mas nutro um carinho especial por esta cidade do interior da Paraíba, pois ano após ano sou convidado para integrar o corpo de palestrantes do tradicional Encontro da Nova Consciência. Este encontro, de natureza multicultural, reúne anualmente pessoas das mais diversas religiões: católicos, umbandistas, budistas, espíritas, evangélicos, hinduístas, dentre tantos outros. Reúne também pessoas que não têm religião – o também tradicional Encontro de Ateus e Agnósticos faz parte da pauta da Nova Consciência.
Justamente por integrar este grupo de pessoas que defende o direito à crença (e à não crença), não posso me calar diante de mais uma tentativa asquerosa de usar o discurso da intolerância religiosa como recurso político. Já faz um bom tempo que este tipo de procedimento tem sido utilizado como recurso desesperado de ataque contra adversários políticos. E isso em nada beneficia a cidade, a população ou mesmo as religiões – quaisquer que sejam.

Num vídeo postado recentemente no youtube, vemos uma candidata à prefeitura, a médica Tatiana Medeiros [PMDB], visitando uma comunidade de uma religião afro-brasileira [não sei se Umbanda ou Candomblé, apesar de o vídeo afirmar que se trata de um terreiro de Candomblé]. Em 1 minuto e 18 segundos, surge uma legenda que diz: “Ela quer ser mãe de Campina. Mas o que ela é, é mãe de santo”. Eis o link para o vídeo:

O objetivo deste vídeo é claro: tentar prejudicar a imagem da candidata à prefeitura, Tatiana Medeiros, diante dos eleitores evangélicos, abundantes em Campina Grande. Sobre isso, tenho a dizer o seguinte:

1. Eu conheço Tatiana, e ela não é mãe de santo. Está VISITANDO uma comunidade religiosa, como visitaria qualquer outra que a convidasse. Mas e se ela fosse, e daí? A religião é uma escolha de foro íntimo, e um prefeito não governa para evangélicos ou para católicos ou para espíritas ou umbandistas. Um prefeito administra a cidade, e a cidade é composta por indivíduos das mais diversas religiões. E por indivíduos sem religião, também. O que importa, na avaliação de um candidato, não é a religião que ele professa. Não estamos elegendo pastores ou mães de santo. O que interessa, na avaliação de um candidato, são suas propostas e projetos para a cidade.

2. Se você é evangélico, não caia neste tipo de manipulação. Saiba que alguns políticos pensam que os evangélicos são todos uns idiotas manipuláveis. Estes políticos usam o discurso da intolerância religiosa para manipular vocês, criando situações de ódio religioso. Muitos se dizem evangélicos, mas apenas usam vocês como forma de adquirir poder neste mundo mesmo.

3. Não tenho a menor ideia de quem é o responsável por este vídeo caluniador. Não se pode afirmar que seja obra do rival de Tatiana. Mas eu não estranharia, considerando que ela cresce a cada dia nas pesquisas de intenção de voto. O desespero faz as pessoas jogarem sujo e tentarem de tudo para derrubar os adversários.

A Campina Grande, meu carinho e admiração, e aos cidadãos (religiosos ou não), meus respeitos. Que Campina Grande continue a ser este símbolo do respeito à liberdade religiosa neste nosso país tão vasto e rico.

Carta Aberta aos Guerreiros Verdes

Publicado janeiro 5, 2012 por Alexey Magnavita
Categorias: Ambientalismo, Ecologia

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Pessoal,

Começa em breve nossa aventura que é mais do que um passeio na Amazônia. É uma aventura de transformação da consciência pela qual muitos deram o sangue antes de nós e vários se dedicarão depois que todos formos pó. Nesta aventura, nossa eventual autoimportância é diminuida pela grandiosidade daquilo pelo qual lutamos: um mundo melhor para aqueles que vêm a seguir. Jogamos o melhor dos jogos: aquele em que todos ganham, principalmente quem nos assistir. Isso pode não ser evidente para muitos, que ainda jogam no velho paradigma e só conseguem enxergar padrões binários, em que um perde e o outro vence. Mas é esta a lição que viemos aprender e ensinar, a de que existem outros modos de batalhar e que vence não aquele que é o mais forte, nem o mais inteligente, nem o mais bonito, nem o que se expressa melhor, nem o mais calmo. Vencem todos por serem o que são e estarem abertos a cooperar com quem tem virtudes diferentes. Nesta aventura, sem cooperação estaríamos todos fadados ao mais redondo fracasso. Felizmente, aprendemos a beleza de um novo estilo de jogo. A floresta nos tocou, cada qual de um modo, seria impossível não tocar.

Sei que há medo: num mundo em que a baixaria dá audiência, será que nosso programa tão diferente irá agradar? Gosto de pensar que sim. Se serve de consolo, mesmo que não agrade (coisa que duvido), saibam de uma coisa que pouca gente sabe: ondas de rádio e TV viajam pelo Universo infinitamente. Estima-se que nossos programas de TV já tenham atingido mais de CEM estrelas (algumas das quais eu mostrei pra vocês na nossa saudosa prainha). Imaginem que daqui a milhares de anos uma civilização extraterrestre captará nossos programas e, dentre notícias de desgraça, violência e corrupção, eles se depararão com algumas pessoas lutando uma boa luta. Mesmo que extraterrestres nunca nos vejam, não lhes parece emocionante a idéia de que estaremos viajando eternamente para outras estrelas, e ainda por cima fazendo o bem?

Mas, saindo das estrelas e voltando para nosso pequeno mundo, tenho algo a dizer. Em muitos momentos nos zangamos uns com os outros, afinal estávamos num ambiente quente, em situações de stress. Podemos eventualmente ter falado coisas feias uns sobre os outros. Entretanto, passado o afã da emoção, temos ciência de que éramos todos pessoas de muito bom caráter com o coração cheio de entusiasmo. Em alguns casos, colocados de lados opostos, o que não significa nada, já que os dois grupos lutavam pelo mesmo ideal de um mundo que cuide melhor de nossas florestas. Pessoas com defeitos, pessoas que erram, mas, acima de tudo, gente disposta a aprender. Quando as eventuais raivinhas passam, o que sobra é a saudade. Saudade que eu aprendi a sentir com vocês! (por alguma estranha anomalia emocional, eu pouco me prendo ao passado, mas com vocês foi diferente).

Se eu tenho favoritos nesta aventura? Claro que tenho, não vou mentir dizendo que não. Se eu me incomodo com os defeitos de alguns de vocês? Evidentemente que sim, mas não sou tolo a ponto de ignorar que meus defeitos não incomodam idem. Só que, vejam que coisa, é sem esforço algum que eu lembro das virtudes de vocês. E é assim que eu quero lembrar de todos: do lado bom. E é sobre isso que falarei, do que percebo de mais belo em vocês – em ordem alfabética, por uma questão de mania minha.

Victor e Skaf, eu vou me permitir sair da ordem alfabética e colocar vocês no topo da carta por um motivo bem concreto: vocês foram mais do que um apresentador e um consultor. Diria que vocês foram (e são) duas espécies de anjos da guarda sem nada de diáfano ou etéreo: são de carne e osso. Victor, não consigo nem imaginar um apresentador melhor do que você, de tão enfiado até a alma que você é em questões ambientais. Não me escapou a percepção de que em vários momentos você queria estar ali conosco enfrentando os desafios ao invés de ficar só olhando e apresentando. E por mais de dez vezes todos nos pegamos pensando “o que o Victor faria?”. Veja só o que você fez conosco, virou referência de consciência! Skaf, pode até não ter parecido, mas eu só não me borrei de medo em várias ocasiões por conta da profunda segurança que você transmitia. Confiar em sua experiência foi o primeiro passo para que eu pudesse enfrentar vários demônios. Há poucas coisas mais valiosas no mundo do que professores. Tenho imenso orgulho de ter sido, de vocês, aluno.

Bianca, não sei se você se dá conta das implicações matemáticas do que você fez. Havia milhares de formas de você organizar as duas equipes com nós doze. Se duvida, pergunte a um matemático sobre arranjos em análise combinatória :D Dentre todas estas possibilidades, uma em especial emergiu: a que você fez acontecer. Eu não tenho palavras para expressar minha gratidão por sua sensibilidade. Debora, você como co-mãe fez nosso sofrimento ficar mais suportável. Galera que coletou depoimentos, como vocês nos aguentaram? Isso é vocação sacerdotal!

Voltando então para a ordem alfabética com meus parceiros de aprendizado:

Allen, meu velho, sua determinação é inspiradora. Se eu um dia tiver que estar em qualquer desafio muito difícil, quero ter você ao meu lado. Você é uma pessoa que veio ao mundo para fazer acontecer, e não para esperar que as coisas sejam feitas. Gente assim muda o mundo. E sorte nossa que você está do lado do bem!

Carol (Magalhães), você foi a primeira a entrar no meu coração. Talvez por irradiar tão poderosa baianitude que me fazia sentir em casa. Você tem virtudes óbvias: é sincera, diz tudo o que pensa na cara da pessoa. Forte você é, sem dúvida. Mas eu não me deixo enganar por qualidades óbvias, que qualquer um vê. Sua maior virtude eu vi: é se importar com os outros e ser sensível ao sofrimento alheio. Num mundo como o nosso, nenhuma compaixão será pequena. Seu pai, estou certo, explodiria de orgulho ao constatar o que você se tornou. E eu, então, estou todo vaidoso por ter me tornado seu amigo.

Carolzinha (Zoccoli), acho que você é uma das figuras mais importantes deste programa por várias razões. Eu poderia fazer uma lista, mas vou me ater a dois aspectos. Em primeiro lugar, você dispõe do instrumental correto para fazer as pessoas pensarem: o humor. Há tão pouco humor na Filosofia, e você neste sentido é uma lufada de ar puro. Em segundo lugar, você é sempre profundamente honesta consigo mesma. Se não somos honestos conosco, como seremos com os outros? Esta é a mais poderosa lição que você me ensinou.

Martha, nunca um corpo foi tão adequado ao espírito de uma pessoa. Você é alta, mulher, em todos os sentidos! Sua energia e entusiasmo são contagiantes. Por mais de uma vez você me tirou da lama – em vários sentidos, e sei que você vai entender. Assim como o Picuruta, você é puro coração, e isso já é sabido, pois se vê como você se importa com crianças carentes. Toda pessoa que se importa com os outros traz consigo mais do que si mesma. Traz o futuro.

Mateus, mano, a parada foi sinistra! E por mais de uma vez eu me vi de queixo caído diante de sua dedicação e concentração silenciosa, sua capacidade de esforço dedicado, de persistência quando diante dos grandes desafios. Você é o tipo de pessoa que encara e faz o que precisa ser feito, se guiando por sua voz interior e por mais nada que não seja a sua convicção do que é correto. É senhor de seus caminhos. E, sendo assim, nos ajudou a desbravar trilhas bem difíceis. Nunca vou esquecer.

Mel! Nem sei o que seria da gente sem a sua presença notavelmente calma, serena como as águas profundas de uma boa escorpiana. Dentre todos nós, apesar de ser a mais nova, foi a que demonstrou mais maturidade em diversos momentos. É como se você fosse um calmante natural e ambulante, trazendo paz onde eventualmente houve discórdia. Eu achei que iria sentir muita saudade de você, mas felizmente isso não se revelou verdade, já que só sentimos saudade do que se foi, e você veio pra ficar!

Natália, você é a prova viva de que a beleza vem acompanhada de inteligência, elegância… e astúcia. Ao contrário do que pensam os mais caretas, a beleza não é uma “virtude menor”. Veja você que o próprio Budismo nos lembra que pessoas belas são melhor ouvidas, e que isso é altamente meritório. Agora imagine o tamanho do seu poder e de sua responsabilidade. As pessoas ouvem o que você diz. Nunca duvide disso. Use isso. Mude o mundo.

Pampa, lembro bem que você foi a primeira pessoa que eu elogiei num depoimento. Repito aqui o que eu disse: por mais de uma vez, você demonstrou generosidade em momentos que o esperado seria que você se portasse como um competidor. E, a despeito de ter sua convicção religiosa, respeita claramente as crenças alheias. Você sintetiza o espírito cristão de acordo com o que Jesus esperaria, coisa rara neste mundo cheio de proselitistas. É um exemplo sob diversos sentidos. Estar ao seu lado é a prova viva de que um ateu e um evangélico podem trabalhar juntos.

Picuruta, por mais de uma vez você me chamou carinhosamente de “Google” e de “cérebro” do grupo. Mesmo que isso possa ser um pouco verdade, não me escapa que você é o coração do grupo. Dos dois grupos. E, creia-me, após muitos e muitos anos convivendo com gente muito inteligente, aprendi que gente de bom coração vale mais do que muitos cérebros juntos. Você talvez tenha sido a pessoa que mais me ensinou nesta aventura, e lhe sou muito grato por isso. Conte comigo sempre.

Tarso, pode parecer surpreendente, mas a sua capacidade de observação silenciosa está muito longe de ser antipática. Você é o tipo de pessoa que a gente saca que está prestando atenção em tudo e que consegue facilmente acertar alvos. Se este reality tivesse um paredão, você não seria o primeiro emparedado, pelo menos não por mim. Ao contrário: você seria aquele para quem eu pediria alguns conselhos.

Vivi, uma pessoa que se dispõe a lutar todas as batalhas que você luta só pode ter de mim o mais profundo respeito. Que me desculpe o Raul, mas acho que está na hora de ele ser conhecido como “o pai da Vivian”. Brincadeiras à parte, saiba que não me escapou a sua capacidade de se superar em vários momentos e em diversos sentidos. Você tem vibe de vencedora, e poder de remixar a vida, fazendo-a mais dançante. Precisamos de você.

Por fim, lembrem-se: o prêmio em dinheiro é o de menos. Neste reality, diferente de todos os outros, todos vencem. Vencemos no momento em que pusemos o pé na mata, no momento em que nos achamos. E é este encontro que viajará para as estrelas a partir de domingo, espalhando um pouco de amor neste Universo tão imenso e solitário.

Boa viagem pra todos nós!

Por que assistir o programa “Amazônia”?

Publicado dezembro 27, 2011 por Alexey Magnavita
Categorias: Ambientalismo, comportamento, Ecologia

Ao longo da última década, a televisão foi tomada por uma profusão de reality shows os mais diversos e imagináveis. Na verdade a própria vida comum se tornou um grande reality, em que pessoas postam em tempo real o que estão fazendo, o que estão comendo, o que estão sentindo. O Big Brother não é nada perto do Facebook, onde – se a pessoa não se dá limites – é possível acompanhar inícios e fins de romances, brigas, acordos, triunfos, doenças e o que mais puder ser partilhado. Percebo que muitas pessoas torcem o nariz para o formato de realities, pois têm a idéia imediata de um programa que reúne gente sem conteúdo que se torna célebre apenas em decorrência da ingestão excessiva de álcool, ou por causa de namoros, intrigas e disputas. À parte esta imagem ter lá suas verdades, não creio que seja justo jogar o bebê fora com a água da bacia. Foi um reality show que nos permitiu conhecer, por exemplo, Jean Wyllys, Grazi Massafera e algumas outras pessoas que talvez não conhecêssemos melhor sem esta oportunidade.

Estréia no próximo dia 8 de janeiro às 23h30m o programa Amazônia, produzido pela Endemol e exibido pela TV Record. Eu, assim como onze outras pessoas, fomos convidados a participar desta experiência, que consiste na inserção na floresta amazônica com o objetivo de aprender lições importantes sobre sustentabilidade e diversidade cultural/ambiental. Não, não se trata de uma imitação de No Limite, a proposta não era “sobreviver na selva” e ninguém comeu nojeiras. Trata-se do primeiro reality show em que o personagem principal não são as pessoas.

O personagem principal é o lugar.

Da esquerda para a direita: Alexandre Salazar (campeão de surf), Pampa (campeão olímpico de vôlei), eu, Victor Fasano (apresentador de "Amazônia"), Marcelo Skaf (biólogo e consultor do programa), Natália Guimarães (apresentadora e Miss Brasil 2007), Mel Ravasio (cantora da banda Lipstick), Martha Sobral (campeã de basquete), Vivian Seixas (DJ), Tarso Marques (piloto), Carolina Magalhães (atriz)

Esta é a primeira vez que um reality aposta num formato de jogo em que todos ganham. Evidentemente, haverá um vencedor que ganhará um prêmio em dinheiro. O “ganho”, contudo, é mais amplo: não importa quem seja o vencedor, metade do prêmio será doado para uma fundação ambientalista e para uma comunidade ribeirinha. Além disso, a Amazônia, sua importância e os perigos que enfrenta serão mais conhecidos não apenas pelo povo brasileiro, como também por pessoas de outros países (o programa será exportado).

Este conhecimento constitui um ganho inigualável. E, por isso, digo que todos nós que participamos deste reality já ganhamos: o que aprendemos ficará conosco para o resto da vida. Os espectadores também ganharão – em cultura, informação, aprendizado. Um dos maiores choques ao adentrar na floresta não foram os desafios naturais de temperatura, animais etc. Um dos maiores choques, sem dúvida, foi a constatação da ignorância que temos em relação a quase tudo o que envolve a floresta Amazônica. Mal temos noção de sua biodiversidade, pouco conhecemos realmente do estilo de vida das tribos indígenas e das populações ribeirinhas. O povo brasileiro em geral conhece mal a Floresta Amazônica.

Diante de todo o exposto, convido meus leitores a assistir Amazônia todo domingo às 23h30m, na TV Record. Creio que o programa satisfará diversos gostos: tem sua quota de desafios e “estresses” que caracterizam os realities, mas acima de tudo é um programa educativo como há muito não se fazia na TV aberta.

Para quem torcer? Vamos torcer pelo décimo-terceiro personagem: a Amazônia.

Mas quem quiser torcer por mim, eu não reclamo  :)

http://entretenimento.r7.com/amazonia/participantes/alexey-magnavita/

Indignação e proporcionalidade

Publicado dezembro 21, 2011 por Alexey Magnavita
Categorias: comportamento, Direitos Humanos, filosofia

A despeito de haver muita falta de educação e trollagem em comentários de blogs, costumo na medida do possível ler todos (ou, ao menos, a maioria) a fim de verificar o que as pessoas entenderam do que escrevi. Se há mais mal entendidos do que bem entendidos, é muito provável que eu tenha cometido alguma falha na explicação. Em linhas gerais, creio que boa parte das pessoas entendeu, a partir do meu último post, o que é uma “falácia do falso dilema”. Ainda assim, creio ser pertinente abordar um ponto bastante repetido nos comentários: o problema da proporcionalidade.

Quem merece mais a nossa indignação? Um cão assassinado? Um gay torturado? Um negro vítima de racismo?

Antes de prosseguir, devo dizer que se pareço ignorar alguns pontos trazidos por outras pessoas, isso é proposital. Se eu for abordar tudo o que pode ser pensado no caso do assassinato do yorkshire, ou no caso de Alexandre Ivo (usados como exemplos), escreverei um livro com capítulos. Mas a idéia central destas postagens tem um propósito que transcende os casos apresentados. Lembrem-se: estou a falar de falácias argumentativas. Não me interessa, no presente momento, especular sobre coisas outras, ainda que eu as ache interessantes e pertinentes. O que não significa de forma alguma que eu tenha abandonado tais questões. Afirmar o contrário é exatamente a falácia do falso dilema: falas de A, mas não falas de B? A resposta é muito simples: quem disse que não falarei de B? Eu poderia falar sobre os perigos da barbárie, das reações que nos igualam aos algozes que criticamos, mas já tem muita gente boa fazendo isso. Eu poderia discorrer longamente sobre a diferença de impacto psicológico existente entre ver uma agressão e simplesmente ler sobre ela, mas deixarei este tema pra depois.

Se uma coisa o estudo da Filosofia me ensinou é a trabalhar com restrição de tema. Caso contrário, é muito fácil e tentador transformar um tema numa conversa de bar: você começa a falar em energia nuclear e, trinta minutos depois, se vê discursando sobre a queda de Atlântida.

Assim sendo, vamos aos pontos que, creio, merecem ser melhor trabalhados:

Não há erro algum em lembrar que, além de cães maltratados, vacas e galinhas, coelhos, ratos e outros animais muitas vezes sofrem em criadouros, processos de abate e laboratórios.

Não há erro algum em lembrar que, além de animais maltratados, há muita violência e descaso realizado contra vidas humanas.

Não há erro algum em lembrar que, além das passeatas por direitos humanos, as pessoas precisam se preocupar com várias outras questões.

Me parece perfeitamente razoável aproveitar a deixa da cena do cão maltratado para dizer às pessoas: “se você se indigna com isso, vai ficar mais indignado ainda se porventura vir o que alguns lugares fazem com vacas e galinhas”. Ou dizer: “gostaria de ver esta indignação contra a violência ser aplicada também a casos de violência contra negros, gays, travestis, religiosos etc”.

Não há nada de errado nisso.

O problema, eu diria, é a forma como o argumento é geralmente apresentado, e o problema da forma – ironicamente – ultrapassa a mera formalidade. A forma como apresentamos um argumento faz toda a diferença na relação com nosso interlocutor – considerando, evidentemente, que o intento é convencer o outro. E me parece razoável supor que, quando escrevemos ou falamos, queremos convencer o outro daquilo que dizemos. Todavia, a depender de como o argumento seja apresentado, ele não apenas não convence, como cria reações de defesa imediata. A idéia pode estar correta, e o argumento ser ruim.
Este é o ponto. O que eu vejo em muitos lugares são algumas pessoas dizendo: “HIPÓCRITAS! Diz que se importa com o cão, mas nem liga pra vacas e galinhas que sofrem diariamente nos abatedouros etc, etc”, ou “Meu total desprezo por quem se emociona com a morte de um cão, mas não liga para mendigos”.

A má apresentação de um argumento pode destruir totalmente a razoabilidade de uma idéia. Freud acertou esplendidamente em uma coisa: o mal entendido é a regra na comunicação humana. Ora, o que vejo em todas essas acusações e argumentos falaciosos dirigidos contra quem – por um motivo ou outro – se indigna com a violência cometida contra X ou contra Y é uma cisão entre potenciais aliados. Uma das discussões mais sem sentido que presenciei, meses atrás, versava sobre quem era mais oprimido: gays ou negros? Nem é preciso dizer como isso terminou: em briga, acusações mútuas entre bons militantes dos direitos humanos. A que serve este tipo de discussão? E se é para ela ser feita mesmo assim (já que tudo se discute), não custa muito conter os dedos e refletir antes de apresentar um argumento. Dizem que a internet faz as pessoas lerem mais. Não concordo. O que eu noto é que a internet possibilita que as pessoas escrevam mais – o que é bom, e seria melhor ainda se houvesse mais critério e ponderação em relação ao que digitamos.

Se foi preciso que um cão morresse para que nos revoltássemos contra a violência, isso pode ser aproveitado. A indignação pelo sofrimento alheio – seja um cão, um menino gay, um negro, um mendigo, uma mulher espancada – é sempre legítima. Levar o debate para quem “vale mais”, se um cão ou um ser humano, não me parece funcional. Não é o ser externo que está sendo valorado. O que está sendo valorado é a indignação, tão necessária em tempos em que a violência ainda faz parte de nossa rotina. Não vejo algumas indignações como melhores do que outras. Eu vejo o próprio ato de indignar-se como uma vacina contra a idiotia.

“Idiota” era um termo utilizado pelos gregos antigos para definir uma pessoa que agia como se fosse alheia à vida pública (nota: isso é muito bem abordado por meu orientador de mestrado, Renato Janine Ribeiro, em seu livro “Política para não ser idiota”). De fato, ainda hoje há pessoas que não se comovem com nada, não se indignam com nada, e vivem em função de seus próprios problemas. Jamais lamentam pelo sofrimento alheio, e dedicam toda emoção a coisas como “minha TV não está funcionando bem”, e isso se torna a coisa mais importante do mundo.

Quando vejo alguém se indignar contra a violência, seja ela qual for, acho fantástico, acho bom. Vejo nesta indignação um exercício de alteridade, de empatia. E penso: é possível expandir o campo de indignação desta pessoa para várias outras coisas. Ela é minha aliada. Nunca a tratarei como se inimiga fosse.

POST SCRIPTUM – uma amiga, Mônica Ismerim Barreto, transmitiu-me texto que demonstra de modo muito claro como TODAS as lutas se interligam. Leiam, é altamente instrutivo:

‎”A primeira organização no mundo dedicada a combater maus-tratos na infância de que se tem notícia é a New York Society for the Prevention of Cruelty to Children – NYSPCC (Sociedade de Prevenção da Crueldade contra Crianças de Nova York), criada em 1894. A história desta instituição registra que para remover a menina chamada Mary Ellen, de 9 anos de idade, da casa dos pais adotivos, que a estavam maltratando severamente, o promotor responsável pelo caso teve de solicitar a ajuda da Sociedade de Prevenção à Crueldade aos Animais de Nova York. Como na época não existiam leis que dessem às autoridades o poder de retirar da guarda dos pais fi lhos que fossem maltratados, o promotor foi obrigado a apelar para o fato de a menina também pertencer ao “reino animal”, conforme relatam os fundadores da instituição. Toda essa ação resultou na retirada da menina da casa dos pais adotivos, na colocação de Mary Ellen em um abrigo e na criação da Socievenção à crueldade contra as Crianças de Nova York (NYSPCC).” Guia escolar: métodos para identificação de sinais de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes (p.12) http://itsbrasil.org.br/sites/itsbrasil.org.br/files/infoteca/uploads/Guia-Escolar_parte1_0.pdf

O cão, o garoto gay, o político corrupto

Publicado dezembro 18, 2011 por Alexey Magnavita
Categorias: Direitos Humanos, filosofia, retórica

Dentre as incontáveis falácias argumentativas que se infiltram em nossos discursos, uma em especial merece toda nossa atenção e carinho: o falso dilema. Ou, como prefiro chamar, a falácia da falsa escolha. Ela sempre surge quando, no discurso falado ou escrito, alguém insiste ou insinua que duas opções são mutuamente excludentes. Trata-se de um recurso muito utilizado no jogo político, quando se tenta cooptar a população a fazer uma escolha entre A ou B, ainda que A e B não sejam as únicas opções reais.

Vale destacar, contudo, que as falácias argumentativas, sejam elas quais forem, não constituem necessariamente um procedimento intencional. A pseudológica se infiltra em nossa comunicação cotidiana, e mesmo o mais treinado dos filósofos pode incorrer em erro. Independentemente da intencionalidade, é sempre importante avaliar se um discurso é lógico. Trata-se da diferença entre ser ou não ser manipulado.

A estrutura do falso dilema é simples:

Ou A ou B. Se não A, logo B.

O senso comum aceita esta estrutura com bastante facilidade. Ela é totalmente falsa, entretanto.

Vamos a um exemplo real muito simples:

“Os paulistas são palmeirenses ou corintianos. João não é palmeirense. Logo, João é corintiano”

Notem que a estrutura seria válida, se de fato todos os paulistas fossem apenas palmeirenses ou corintianos. Mas não é verdadeira, pois existem paulistas santistas, flamenguistas, paulistas que não gostam de futebol e não torcem para time algum etc.

“Ou mantemos armar nucleares, ou seremos atacados”

Falsa escolha evidente: não ter armas nucleares não implica necessariamente em ser atacado.

Recentemente, por ocasião do vídeo que mostra uma enfermeira torturando e matando um cão yorkshire, viu-se uma comoção pública geral, em que muitas pessoas clamavam a importância de punir aqueles que maltratam animais.

É quase uma lei da natureza: sempre que alguém fala da importância de cuidar dos animais ou milita em prol dos direitos animais, surge alguém questionando por que as crianças de rua não são importantes, ou por que os militantes de direitos animais não se importam com racismo, homofobia, misoginia, ou [insira aqui a causa de sua preferência].

Trata-se de clara falácia do falso dilema:

Ou direitos animais ou direitos humanos. Alessandra escolheu direitos animais, logo não escolheu os direitos humanos.

Este argumento é totalmente falso. O fato de uma pessoa sentir mobilização para lutar pela causa dos animais não significa que ela não se importe com os direitos humanos (e vice-versa). Qualquer tentativa de insistir nisso é maldosa e não tem lógica nenhuma.

Ainda na ocasião do assassinato do yorkshire, vi algumas pessoas lembrando que ano passado um adolescente (Alexandre Ivo) foi assassinado por motivação homofóbica. Estas pessoas reclamavam que, na ocasião, não houve a mesma comoção. Aqui, é preciso ter alguns cuidados: 1. Será que não houve a mesma comoção? Como quantificar isto? 2. Ainda que não tenha ocorrido a mesma comoção, isso não invalida (ou não deveria invalidar) a indignação contra o assassinato cruel do yorkshire.

Em essência, a afirmação poderia ser resumida da seguinte forma:

“Ao invés de se indignar com o assassinato do cão, vocês deveriam se indignar com o assassinato do garoto gay.”

ou

“Ao invés de se indignar com o assassinato do cão, vocês deveriam se indignar com o fato de que crianças estão nas ruas, morrendo de fome ou fazendo trabalho escravo.”

A charge abaixo foi uma das que mais vi ser publicada dias atrás, tanto no Facebook quanto no Twitter:

Se A, então não-B = FALSO

Ora, não é verdade que quem se importa com animais abandonados não liga para injustiças sociais. Insinuações em contrário, ainda que engraçadas, são maldosas. O que acontece é bastante simples de entender: as pessoas, por motivações diversas, são mobilizadas com mais intensidade por algumas coisas.

Há quem sinta especial mobilização pelos direitos dos animais. Há quem sinta especial mobilização pela causa gay. Há quem sinta especial mobilização para lutar contra o machismo, o racismo etc. Uma coisa não exclui a outra, e não são os outros que devem determinar (sobretudo a partir de argumentos coercitivos e falsos) as causas pelas quais nos importamos.

Vamos voltar no tempo. Quando Alexandre Ivo (um garoto de apenas 14 anos) foi assassinado em decorrência de homofobia, vi um sem-fim de pessoas denunciando o caso, falando sobre a importância da criminalização da homofobia etc. Eu fui uma dessas pessoas. Foi sem surpresa alguma que vi algumas pessoas postarem argumentos de falsa escolha. Diziam elas: “a homofobia é um problema, mas é um problema menor. As pessoas deveriam se preocupar mais com a corrupção, com políticos corruptos”. Diante de um anúncio que conclamava as pessoas a marchar contra a homofobia, várias outras postavam: “por que não fazem uma marcha contra a corrupção?”.

Notem que este tipo de discurso não é – estruturalmente falando – nada diferente do que está implícito na charge que postei aqui. Se fossemos desenhar uma charge baseada no discurso “ou homofobia ou corrupção”, ela seria mais ou menos assim: de um lado, pessoas fazendo passeata contra a homofobia. Do outro, um político roubando a todos e ninguém ligando.

Mas por que lutar contra a homofobia implica em não ligar para a corrupção? E quem disse que militantes anti-homofobia não se importam com a corrupção? O que mede o “se importar”? Xingar muito no Twitter?

O fato é que, além da falsa escolha, somos acometidos por um tipo muito sinuoso de narcisismo. Achamos – perdão, fui delicado, na verdade nós temos certeza – que nossas escolhas, militâncias, atitudes são as melhores e mais importantes do mundo. E que o outro, seja lá quem for, não procede do “jeito certo” [evidentemente, o "jeito certo" é sempre o nosso].

Não me espanta, contudo, que o oprimido possa se converter em opressor, mas não deveria ser assim. Quem se lembra [eu lembro] das cobranças injustas que ocorrem sempre que se milita contra a homofobia, o machismo ou o racismo, não deveria fazer as mesmas cobranças injustas quando outras pessoas [por motivações pessoais e vontade real] militam pelos direitos animais.

Outro tipo de falso dilema é continuamente criado também por alguns militantes dos direitos animais. Vi alguns vegetarianos postarem que aqueles que se indignaram com o assassinato do yorkshire são hipócritas, já que comem carne de vaca, porco, galinha, peixe etc.

Notem o falso dilema:

Ou você é vegetariano, ou não se importa com animais. Alex não é vegetariano, logo ele não se importa com os direitos animais.

Há alguma verdade quando se diz que quem se importa com os direitos animais deveria, sim, se importar com vacas, porcos, peixes, galinhas. O fato é que não necessariamente as pessoas se importam com os direitos de todos os animais, mas tão somente com os animais domésticos, com os quais estabelecemos vínculos afetivos. Neste caso, ainda assim não é verdadeiro se valer do argumento do ou/ou. Trata-se de uma diferença de grau de importância, e este grau de importância é passível de ser expandido com o tempo.

O que fica saliente, em todas estas celeumas, é o poder de afastar possíveis parceiros de luta a partir de discursos maldosos. Falácias lógicas costumam ter poder intimidatório, mas dificilmente se revelam funcionais quando queremos convencer alguém de algo. Qualquer pessoa minimamente inteligente percebe que está sendo sacaneada, e ergue defesas naturais, ainda que não consiga localizar exatamente onde está o erro no argumento do outro.

Eu nunca disse que deus não existe

Publicado setembro 6, 2011 por Alexey Magnavita
Categorias: filosofia, Religião

Eu disse e repito, isso sim, que não acredito em sua existência. É diferente. Há diferença entre afirmar inexistência e não crer na existência, mas nem todo mundo entende a enorme diferença entre estas duas coisas. É muito difícil afirmar a inexistência de uma coisa, o que nos resta é crer ou não crer, a partir dos critérios que elegemos. A minha descrença, entretanto, precisa ser melhor pontuada: eu não creio, de jeito nenhum, na concepção pessoal que a maioria das pessoas e religiões têm de deus. Sendo direto: fizeram de deus um gênio da lâmpada de Aladin, com quem se estabelece relação comercial. Faço promessas, e ele me atende. Bajulo a divindade, e ela cura minhas doencas. No catolicismo isso toma uma forma até mais simpática, pseudomonoteísta, em que temos mais santos a ser venerados [e para quem podemos pedir coisas] do que os antigos gregos tinham deuses. Mas ao constatar isso, não sinto o outro [meu semelhante, que assim age] como ridículo, tolo ou estúpido. Compreendo perfeitamente o conforto e bem estar que alguém pode sentir ao rezar para uma imagem, ou para várias, entendo o sentimento de segurança que a pessoa tem ao dialogar internamente com aquilo que ela mesma chama de “força superior”. Comigo é diferente. Eu reconheço uma força superior em um monte de coisas: no presidente de um país, numa estrela supernova, na Constituição, na gravidade, na polícia. Há, evidentemente, coisas que são mais poderosas do que a minha vontade. A questão é que, no meu caso, nenhuma dessas coisas é metafísica.

Mas seria possível um mundo em que pessoas que crêem em coisas diferentes pudessem coexistir? Eu gosto de apostar no sim!

Por exemplo: compreendo perfeitamente que, quando alguém me diz “deus te abençoe”, é a forma que a pessoa usa para dizer que deseja o meu bem. Respondo “obrigado”, todas as vezes. Recentemente, a namorada ateia de um amigo ateu ficou seriamente doente. Em seu Facebook, vi diversas manifestações de solidariedade, e em muitas delas as pessoas diziam que estavam orando por ela. Em momento algum, vi meu amigo reclamando do que alguns ateus mais indignados chamam de “tolice da oração”. Eu o via, sim, agradecer. E não, ele não se tornou crente, ele estava sendo educado e, pelo que conheço, sinceramente grato pela cortesia das pessoas. Sei como é isso. Se adoeço e alguém diz que ora por minha recuperação, sinto gratidão, pois reconheço ser esta uma forma de me desejar o bem. Não, não acredito que a oração dos outros vá curar minhas eventuais doenças. Acredito, isso sim, que a oração faz bem a quem sente fé neste ato. Eu extraio bem estar de outros procedimentos: ouvir música e tomar um banho quente quase que invariavelmente me faz ficar melhor de qualquer mal estar.

Há manifestações de intolerância tanto em crentes quanto em ateus [embora, honestamente, eu as veja com mais recorrência entre crentes]. Darei um exemplo de ignorância nos dois casos:

Anos atrás, eu e um conhecido ganhamos um prêmio em dinheiro num jogo televisivo de perguntas e respostas. Meu conhecido é ateu declarado. Depois que ele ganhou o prêmio, choveram mensagens em sua página do Orkut, com argumentos do tipo “como você consegue não acreditar em deus depois dessa coisa maravilhosa que te ocorreu? Deixe de ser ignorante!”. Quer dizer: deus existe porque meu amigo soube responder corretamente as perguntas de um show de TV? Deus existe porque ele, meu amigo, foi privilegiado? Isso não me parece crer em deus. Me parece ser uma crença no gênio de Aladin.

Certa feita um padre muito meu amigo ficou indignado ao ver na TV um pagodeiro “agradecer a deus” pela venda de milhões de CDs. Não é apenas porque parecia uma heresia supor que deus se dispôs a auxiliar na venda de CDs de músicas de gosto sofrível. A indignação de meu amigo padre era a mesma que eu, em minha descrença, tinha: as pessoas pegam um conceito grandioso [deus] e o convertem egocentricamente numa força mágica que existe para nos servir, nos dando carros, casas e ajudando a vender CDs de pagode. Note: não é diferente de imaginar que deus curou o seu câncer porque você lhe fez promessas. Se assim fosse, não seria deus, seria um comerciante cósmico que vive à base de venerações. Pergunta: por que curou o SEU câncer, mas não o de outra pessoa? Não responda que é porque VOCÊ tem fé e a outra pessoa não, pois tal resposta é totalmente falaciosa. Ela torna deus exatamente o que eu disse: um comerciante que precisa de veneração para escolher uns em detrimento de outros. Se você pensa assim, adivinhe só: o seu conceito religioso não é nada diferente do de povos que você chama de “primitivos”.

Além disso, acreditar que deus escolhe uns em decorrência de promessas e fé em detrimento de outros pode ser decepcionante. Muitas das pessoas que sofrem desgraças abomináveis são cristãs fervorosas. Lembro de uma senhora em Salvador que vivia em função da caridade, era católica devota, e morreu espancada depois de ser estuprada num estacionamento. E lembro de ateus que tiveram vidas felizes e morreram confortavelmente.

Já vi demonstrações de ignorância ateista [felizmente, foram poucas, comparadas ao nível de ódio que vejo em fanáticos religiosos]. Certa feita, fui criticado por um senhor que diz representar ateus. A razão da crítica? Ele descobriu que eu, no enterro de um amigo, dei as mãos para os pais dele e rezei o Ave Maria. Ora, rezei mesmo! E rezaria de novo! Se o fiz, não foi por crer na Virgem Maria, mas por estar num contexto em que tal ritual estava sendo realizado, eu ali estava e quis participar de um ato que, sei, confortaria – ainda que minimamente – os pais do meu amigo. Fui acusado de “trair meus ideais”. Mas que ideais? Eu não tenho “ideais antireligiosos”! Eu estava num ambiente religioso. Rezar o Ave Maria, para mim, tinha o mesmo significado de declamar uma poesia qualquer. E ser gentil com aquelas pessoas, naquele momento, era para mim muito mais importante do que bater pé e dizer:

- Desculpe, não vou dar as mãos para vocês e não vou rezar o Ave Maria porque vocês sabem, né? Não acredito nisso.

É preciso muito cuidado quando falamos em deus. O que significa esta palavra? Numa palestra na Escócia, Carl Sagan foi interpelado por um ouvinte que lhe disse “Deus existe e é muito fácil de perceber. Deus é amor, e o amor existe”. A frase é bonita, mas eu acho a resposta de Sagan muito melhor: prefiro chamar o amor de amor, e deus de deus. Chamar uma coisa de outra não passa de jogo de palavras, e admito que este tipo de malabarismo causa muito impacto e comove as pessoas. Eu acredito no amor. Mas dizem de deus que ele é onipresente e, lamento dizer, o amor não é onipresente. Há situações e circunstâncias em que não há amor nenhum presente, a não ser que você seja adepto do pensamento agostiniano que insiste em dizer que “há, sim, mas somos incapazes de ver”. Este argumento de Agostinho demanda fé, e aqui entramos num círculo vicioso que não é diferente do conto da roupa inexistente que deixava o rei nu, mas que – em tese – apenas os honestos podiam vê-la, de modo que todo mundo fazia de conta que via, para não passar por desonesto. Mas o rei estava ali, peladão. Perdão, mas se uma criança é estuprada, eu não vejo amor algum presente e me recuso a dizer que “deus tem desígnios que desconhecemos”. Acho ofensivo, acho de uma resignação repugnante. Tampouco as outras explicações metafísicas me atraem: karma expiado de vidas passadas me parece a mais enrolada desculpa para aceitar as misérias desta vida. Não serve para mim, lamento.

Espinosa, por exemplo, dizia que “deus é a natureza”. Notem que ele foi excomungado por dizê-lo, e foi considerado ateu por isso, mesmo falando que deus existe. É porque “ateu”, durante grande parte da história, significou simplesmente “aquele que não acredita em deus do mesmo jeito que eu acredito”. Bem, devo dizer que se deus é a natureza, como dizia Espinosa, então eu acredito em deus. Mas ainda prefiro o posicionamento de Sagan: chamemos a natureza de “natureza”. Já está de bom tamanho.

Notem que a todo momento estou falando de ideias que sei que existem, e a todo momento digo que elas não servem para mim. Estou ciente de que muitas pessoas crêem nestas ideias, inclusive alguns amigos muito queridos meus. Eles sabem que não os acho ridículos ou burros. E eles também não me infernizam com a obsessiva insistência de que eu devo crer, aceitar tais ideias.

Algumas pessoas se angustiam muito com a possibilidade da inexistência de deus. Dizem que se nada tem sentido, não faz sentido viver. Discordo. Na verdade, esta é a minha mais profunda alegria: se nada tem um sentido a priori, eu – como ser racional – tenho o dever ético de construir sentidos. Se não existe um “bem supremo metafísico”, nós – na condição de “animais inteligentes” – temos a oportunidade de discernir o certo do errado [nem sempre é tarefa fácil], e procurar fazer deste mundo um lugar que valha a pena existir. E a longa jornada começa com a recusa em mergulhar no sentimento do ódio pelo outro que crê [ou não crê] em coisas diferentes das suas.

A Marcha do Estado Laico

Publicado agosto 15, 2011 por Alexey Magnavita
Categorias: política

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No próximo dia 21 de agosto, domingo, ocorrerá em São Paulo a Marcha do Estado Laico, na Avenida Paulista.

A concentração ocorrerá na Praça do Ciclista, próxima ao metrô Consolação, tendo início às 14:00 e sairá em direção ao shopping Paulista às 16:00 com todos os presentes.

Algumas pessoas podem questionar qual o sentido e importância desta marcha, afinal o Brasil é – segundo consta – um Estado Laico. Por que então pleitear algo que já é real?

Eis o ponto: a laicidade em nosso país é um fato, mas muitos políticos andam esquecendo disso. Valem-se de argumentos religiosos para propor ou vetar leis e projetos. Esta marcha é para lembrar a estes senhores que eles não estão sendo pagos para trabalhar por uma seita religiosa, seja ela qual for. Eles estão sendo pagos para trabalhar por um PAÍS. Um país de católicos, espíritas, umbandistas, evangélicos, budistas, hinduistas, muçulmanos, espiritualistas e também um país de quem escolheu não ter religião alguma.

Estado Laico não é Estado ateu, como alguns confundem. A religião e a religiosidade fazem parte das tradições do Brasil, e isso deve ser respeitado. Não propomos uma marcha para agredir religiões, muito pelo contrário. O Estado Laico é a garantia de que você PODE escolher a sua religião, ao invés de ser obrigado a seguir algo que lhe imponham [incluindo os preceitos].

Infelizmente não poderei participar da Marcha, pois estou fora do país. Mas amo meu país e acredito que seja importante RELEMBRAR os ideais da laicidade, principalmente um: é perfeitamente possível defender idéias se valendo unicamente da razão, sem apelar para argumentos de terror religioso que segregam quem escolhe não fazer parte desta ou daquela seita. Por acreditar nisso, não apenas doei dinheiro para a realização deste evento, como também o estou divulgando.

A Marcha NÃO tem vinculações partidárias e está sendo organizada por um grupo de cidadãos que possuem as mais diferentes preferências políticas e religiosas. Os organizadores são: Rodrigo Cruz, André Baliera, Marcelo Gerald, Marlon Mutton, Sacha Kontic, Thiago Cóstackz. Entidades religiosas confirmaram presença no evento, demonstrando terem compreendido o objetivo da Marcha. Reforçar a separação entre Estado e religião não é desrespeitar a religião. Ao contrário! É garantir que nosso país não seja dominado por discursos totalitários e por uma política feita por fanáticos.

Esta Marcha demanda CUSTOS, que não são poucos, pois não se pretende fazer uma marcha amadora, e sim algo muito bem organizado e com estrutura: carro de som, faixas, cartazes, balão com gás hélio. Por isso, a organização criou uma vaquinha. Assim, as pessoas podem doar, ainda que pouco, a fim de que o evento seja realizado. Todos os gastos serão postados na página do evento no Facebook, e um eventual excedente será guardado para doação para grupo ou instituição que se disponha a defender os mesmos princípios de separação entre Estado e religião. E – por que não? – a realização de outra marcha do gênero em outra cidade.

Caso você possa e queira ajudar, segue o link para a vaquinha da Marcha:

http://www.vakinha.com.br/VaquinhaP.aspx?e=104083

Caso não possa contribuir, mas queira ajudar, pode fazê-lo de duas formas:

1. Aparecendo na Marcha, caso more ou esteja em São Paulo no domingo, 21 de agosto.

2. Divulgando o link para a vaquinha.

Grato pela atenção,

Alexey Dodsworth

[mestrando em Filosofia Política pela Universidade de São Paulo]

Post scriptum – se você leu até aqui, creio que vale a pena dizer que estou perfeitamente ciente de um tipo de argumento muito utilizado contra a realização da Marca pelo Estado Laico. É o argumento que diz: “há coisas mais importantes”. E então a pessoa pergunta por que não realizar uma Marcha Contra a Corrupção, ou uma Marcha em prol de questões ecológicas, ou uma Marcha em prol da melhoria da qualidade de ensino etc. Sim, estas questões também são importantes. Mas é preciso tomar cuidado com a falácia da falsa escolha. Defender uma coisa e propor uma marcha NÃO SIGNIFICA impedir outras propostas e marchas. Assim sendo, resposta simples: se você acha que outra coisa é mais importante, ORGANIZE a marcha que você acha importante e a divulgue. Se a proposta me convencer, ajudarei na divulgação e no que mais for possível. Mas faça algo ao invés de tentar diminuir a importância da iniciativa alheia, ok?

Post Scriptum II: seguem alguns exemplos ilustrativos de como alguns políticos pensam:

Projeto de Resolução que determinada obrigatoriedade de leitura de versículo bíblico antes de cada sessão na Câmara dos Deputados (PRC 4/1999) e no Senado Federal (PRS 10/2007).

http://www.camara.gov.br/p​roposicoesWeb/fichadetrami​tacao?idProposicao=21630

http://www.senado.gov.br/a​tividade/materia/detalhes.​asp?p_cod_mate=80322

– Projeto de Lei (873/1999) que obriga leitura de versículos bíblicos antes de cada aula nas escolas públicas de SP

http://webspl1.al.sp.gov.b​r/internet/download?poFile​Ifs=2480350&%2F01_0873_199​9_2480350.tif%22

– Projeto de Lei (256/2011) que obriga todos estabelecimentos de ensino (públicos e privados) do Estado de SP a fixar crufixos em local e em tamanho de fácil visualização, em área de circulação.

http://webspl1.al.sp.gov.b​r/internet/download?poFile​Ifs=22010914&%2Fpl256.doc%​22


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